Raquel afirmou que discriminação acompanha mulheres desde a formação profissional e citou episódios vividos ao assumir cargos de comando
por Plantão Jamildo.com
Publicado em 03/01/2026, às 12h28
Raquel Lyra destacou cobrança maior sobre mulheres em cargos de poder
Governadora relembrou início da carreira e episódios de questionamento profissional
Tema ganhou força após embates com a presidência da Alepe
Chefe do Executivo defendeu debate sobre gênero sem adotar postura de vitimização
Governadora Raquel Lyra (PSD) voltou a abordar publicamente a desigualdade de gênero nos espaços de poder ao comentar episódios recentes de sua trajetória política e profissional, em especial situações de cobrança diferenciada e questionamentos relacionados ao fato de ser mulher. As declarações foram feitas durante visita à Escola Superior da Polícia Civil, em conteúdo divulgado nas redes sociais, neste sábado (3).
No vídeo, Raquel Lyra corrige o tratamento recebido em documentos oficiais e chama atenção para o uso do gênero feminino. “Muitos dos ofícios que eu recebo colocam assim: ‘Excelentíssimo senhor governador Raquel Lyra’. Botaram aluno aqui. É aluna”, afirmou, ao se dirigir a uma estudante da instituição. Em seguida, reforçou que mulheres tendem a ser mais cobradas. “Eu quero te dar uma má notícia: tu vai ser mais cobrada que os outros, porque tu é mulher”, disse.
A governadora também relembrou o início da carreira na Polícia Federal, quando assumiu o cargo de delegada aos 23 anos. Segundo ela, era comum ser questionada sobre a presença de um superior homem. “Toda vez que eu chegava lá, perguntavam: ‘Cadê o delegado?’. Eu dizia: ‘Sou eu’. E respondiam: ‘Não, não, eu quero falar com o delegado’. Mas sou eu”, relatou.
As falas ocorrem acontecem neste início de ano eleitoral, em que a governadora e candidata à reeleição corre atrás nas pesquisas contra o prefeito do Recife, João Campos (PSB). Segundo a pesquisa RealTime Big Data, contratada pela RecordTV e divulgada em 31 de dezembro, apontou que, entre o eleitorado feminino, o adversário João Campos, aparece com 58% das intenções de voto, contra 27% da governadora.

O conteúdo divulgado por Raquel Lyra é avaliado como parte de uma estratégia de diálogo com o público feminino, segmento no qual ela busca ampliar apoio e é maioria no estado. 94% das cidades de Pernambuco tem mulheres como maioria do eleitorado, segundo o Tribunal Regional Eleitoral. Incluindo o Recife, principal reduto eleitoral do adversário com 55% formado por mulheres.
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Caruaru, Olinda, Garanhuns e Paulista também têm uma grande participação feminina, todas com mais de 54% de eleitoras.
Primeira mulher eleita governadora de Pernambuco, Raquel Lyra tem reiterado, ao longo do mandato, que sua atuação não pode ser dissociada do debate sobre gênero. Em evento realizado em Salgueiro, em agosto, afirmou não tolerar práticas que classifica como violência política. “Não me venham com violência política de gênero. Me julguem pelos meus atos e pelo meu governo, mas parem de me julgar por ter nascido mulher”, declarou na ocasião.

Em 2024, no segundo ano de mandato da governadora, o tema veio em pauta após o presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Álvaro Porto (PSDB), fazer um comentário atribuído à Raquel Lyra, que discursava. O áudio que dizia: "“Não entendi nada. Conversou merda demais e não disse nada”, foi captado pelo microfone aberto.
Ao tomar conhecimento do áudio, Raquel Lyra classificou o episódio como violência política. “É algo lamentável a ser dito pelo presidente de um Poder. Às vezes é em gestos, em atitudes, em ações, e hoje foi em voz”, afirmou em entrevista à Rádio Transamérica. Segundo ela, o caso evidencia dificuldades enfrentadas por mulheres em cargos de liderança. “Revela o que uma mulher sofre nos espaços de poder”, acrescentou.
Em entrevistas concedidas no fim de 2025, a governadora voltou a afirmar que parte dos embates vividos na Alepe deve ser analisada sob a ótica do gênero. “Muita coisa que aconteceu nunca tinha acontecido com um governador homem”, disse, ao negar que adote postura de vitimização. “Nunca assumi o papel de vítima. Eu não tô aqui pra ser vítima”, afirmou.
Raquel Lyra também destacou o simbolismo de sua eleição e a baixa representatividade feminina na política brasileira. “Só somos duas governadoras no Brasil. Somos 13% no Congresso Nacional. Temos uma das piores representações políticas de gênero do mundo”, declarou.