Alta no feminicídio expõe desafios do poder público na proteção às mulheres e pressiona governos federal e estadual às vésperas da eleição
por Plantão Jamildo.com
Publicado em 09/01/2026, às 16h32
Feminicídios cresceram em Pernambuco e no Brasil, apesar da queda da violência geral
Casos recentes no estado reacenderam cobranças por ações preventivas
Lula e Raquel Lyra passaram a tratar o tema como prioridade política
Especialistas e parlamentares defendem medidas estruturais e permanentes
A agenda de direitos das mulheres é um dos temas que já está em evidência desde o primeiro dia de 2026, neste ano eleitoral. O assassinato de mulheres se projetou como um problema grave com a onda de casos assustadores e de grande repercussão.
Em Pernambuco, o início do ano foi marcado por dois casos de feminicídio registrados em menos de uma semana, nos municípios de Camaragibe e Vitória de Santo Antão. As ocorrências reacenderam o alerta sobre a violência contra mulheres no estado, mesmo diante da redução geral dos indicadores de criminalidade.
Segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), Pernambuco registrou 3.130 mortes violentas intencionais em 2025, queda de 9,6% em relação ao ano anterior. No mesmo período, os feminicídios cresceram 15,7%, passando de 76 para 88 casos, em movimento oposto ao da violência letal em geral.
Em Camaragibe, Taciana Andrade de Oliveira, de 38 anos, foi assassinada na última sexta-feira (3), véspera de seu aniversário. O corpo foi encontrado dentro da caixa d’água da casa da mãe do companheiro, de 48 anos, que foi preso em flagrante.
Em Vitória de Santo Antão, Íris Cristina de Lima Silva, de 32 anos, morreu após ser esfaqueada pelo marido, de 35 anos. O homem se apresentou à polícia e alegou legítima defesa. Segundo a PCPE (Polícia Civil de Pernambuco), o crime foi registrado na manhã da segunda-feira (5). Ambos os casos são investigados como feminicídio.

No plano nacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a tratar o enfrentamento à violência contra mulheres como prioridade política com potencial impacto direto na disputa eleitoral. Em discurso realizado em dezembro, no Complexo Industrial Portuário de Suape, Lula defendeu a mobilização dos homens no combate ao feminicídio e citou casos recentes de grande repercussão.
“Essa não é uma tarefa só da escola, é nossa, dos homens”, afirmou o presidente. Em seguida, defendeu um engajamento mais amplo: “É preciso que haja um movimento nacional dos homens contra os que batem, judiam e maltratam as mulheres, que estupram filhas”.
Lula também relatou que a primeira-dama, Janja da Silva, o cobrou para assumir papel mais ativo no enfrentamento ao problema. No terceiro mandato, o presidente recriou o Ministério das Mulheres, extinto durante o governo Jair Bolsonaro (PL), mas a execução orçamentária segue como ponto de pressão.
Ao mesmo tempo, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública executou apenas 0,1% do orçamento previsto no Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, entre março de 2024 e junho de 2025.

Em 2024, o Brasil alcançou o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime, há quase uma década. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 1.492 casos no ano, média de quatro assassinatos de mulheres por dia.
A legislação define o feminicídio como o assassinato de mulheres em contexto de violência doméstica ou motivado por menosprezo ou discriminação à condição feminina. Diante do avanço dos números, parlamentares passaram a defender medidas excepcionais.
As deputadas federais Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP) protocolaram indicação para que o presidente da República encaminhe ao Congresso Nacional pedido de reconhecimento de calamidade pública em razão dos feminicídios.

Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) reconheceu publicamente a gravidade do cenário e afirmou que o enfrentamento ao feminicídio é prioridade da gestão. Em entrevistas concedidas no final de 2025, a chefe do Executivo estadual citou a cultura machista como fator estrutural da violência e apresentou ações em curso.
Entre as medidas, Raquel destacou o funcionamento 24 horas das Delegacias da Mulher na Região Metropolitana do Recife, em Caruaru e em Petrolina, além da presença da Patrulha Maria da Penha em todas as organizações militares do estado.
“Nós qualificamos todo o nosso pessoal para o acolhimento das mulheres vítimas de violência e distribuímos mais de 1.500 BIPs para que elas possam acionar ajuda de forma mais rápida”, afirmou.
Segundo a governadora, os casos de feminicídio são acompanhados diariamente, com reuniões semanais envolvendo o Poder Judiciário e o Ministério Público. Ela informou que cerca de 98% dos crimes têm autoria identificada e que os julgamentos ocorrem, em média, em até um ano.

“Isso é um indicador positivo no sistema judiciário brasileiro. Temos homicídios com mais de 11 anos sem julgamento, e no feminicídio estamos reduzindo prazos para garantir punição”, declarou.
Raquel Lyra também defendeu a ampliação de vagas no sistema penitenciário e o fortalecimento da integração entre segurança pública e Justiça como estratégias para evitar a reincidência da violência.
Outra frente apresentada pelo governo estadual é o fortalecimento da rede de proteção às mulheres. O Estado anunciou a abertura de 39 centros de acolhimento em parceria com os municípios. Atualmente, 31 unidades estão em funcionamento, com cofinanciamento estadual.
A governadora afirmou ainda que os abrigos para mulheres vítimas de violência passaram por reestruturação. “Hoje, as casas contam com estrutura adequada, acolhimento para crianças, acompanhamento pedagógico e apoio psicológico”, disse.
Segundo Raquel, mulheres em situação de violência têm prioridade em programas de qualificação profissional, acesso a vagas de emprego e políticas habitacionais. “Já entregamos 17 mil casas em Pernambuco, e 70% estão no nome de mulheres”, afirmou.

Apesar da queda geral das mortes violentas, o aumento dos feminicídios em 2025 mantém o tema no centro da agenda da segurança pública. O secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, ressaltou a importância da denúncia como mecanismo central para interromper o ciclo de violência doméstica.
“O feminicídio não acontece da noite para o dia. Ele é o final de uma escalada da violência contra a mulher. Pode começar com agressões verbais e evoluir até a morte. A forma de quebrar esse ciclo é a denúncia”, afirmou.
Em Pernambuco, mulheres não precisam mais comparecer presencialmente a uma delegacia para solicitar medida protetiva de urgência. O pedido pode ser feito de forma eletrônica pelo site do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), com resposta judicial em até 48 horas.