Cynara Maíra | Publicado em 02/04/2025, às 13h13 - Atualizado às 13h40
A retirada da pista de bicicross do Parque da Jaqueira, na Zona Norte do Recife, foi tema de uma reunião pública na Câmara Municipal, na terça-feira (1º).
Convocado pelo mandato da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), o encontro reuniu representantes da concessionária Viva Parques, do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), da Prefeitura do Recife, da Associação Metropolitana de Ciclistas (Ameciclo) e atletas da modalidade.
O objetivo foi discutir a legalidade da demolição e os impactos da mudança para a comunidade esportiva.
A remoção da pista faz parte do projeto da Viva Parques, consórcio responsável pela gestão da Jaqueira e de outros três parques da cidade, após concessão da Prefeitura.
Segundo a empresa, o objetivo é substituir o equipamento por um complexo que inclui quadras esportivas, área de convivência e operações de alimentação.
Atletas e cicloativistas, no entanto, questionam a medida e apontam que a decisão foi tomada sem consulta adequada à população.
A promotora Fernanda Nóbrega, da 35ª Promotoria de Cidadania do MPPE, informou que o Ministério Público abriu um procedimento investigativo para analisar se a demolição está de acordo com a legislação municipal.
“O Parque da Jaqueira é uma Unidade de Conservação de Paisagem e tem regras específicas que precisam ser observadas. A pista pode ser considerada um patrimônio cultural, o que pode impedir intervenções desse tipo”, destacou.
Durante o debate, a coordenadora-geral da Ameciclo, Bárbara Barbosa, criticou a falta de transparência na pesquisa realizada pela concessionária para embasar as mudanças.
“Quem foi consultado? Qual a idade, cor e classe social dessas pessoas? Sem essas respostas, não temos garantia de que houve um processo realmente participativo”, questionou.
Ela também destacou dificuldades de acesso ao Parque Santana, onde a Viva Parques pretende realocar a pista. “O transporte público para a Jaqueira é mais acessível. Deslocar a prática para outro bairro pode excluir parte dos frequentadores.”
O atleta Diego Tarta afirmou que a retirada da pista representa um processo de gentrificação. “Não é só uma questão de espaço físico. O bicicross faz parte da história da Jaqueira. O que vemos aqui é a eliminação da modalidade nesse local, sem considerar a importância social e esportiva que ela tem”.
Durante o encontro, tanto o grupo Viva Parques quanto a Prefeitura do Recife defenderam o procedimento.
O diretor de Comunicação da Viva Parques, Eduardo Vilas Boas, afirmou que a escolha do local para a nova estrutura esportiva levou em conta critérios técnicos.
“A pista será modernizada no Parque Santana para atender aos padrões da categoria Challenger, voltada para amadores e iniciantes. Além disso, haverá doação de bicicletas e equipamentos para o projeto social que já existe”, disse.
A Federação Pernambucana de BMX (FPEBMX) firmou parceria com a concessionária para viabilizar as mudanças.
O presidente da entidade, Vandré Vital, reconheceu a relevância histórica da pista da Jaqueira, mas ponderou que a nova estrutura pode beneficiar a modalidade.
“O Parque Santana tem uma das melhores pistas do Nordeste. Estamos dialogando para garantir que a transição ocorra da melhor forma possível e que o trabalho social continue", declarou.
A Viva Parques se comprometeu a concluir a modernização do espaço em Santana antes do início das obras na Jaqueira, para evitar interrupção das atividades esportivas.
A empresa também auxiliará a FPEBMX na inscrição de projetos de incentivo ao esporte e na captação de patrocínios.
A representante da Prefeitura do Recife, Mariana Arnaud, reforçou que a concessão não implica privatização dos parques, que o acesso ao local continuará gratuito e que as intervenções da empresa precisarão da aprovação do município.
A retirada da pista gerou críticas de vereadores de diferentes espectros políticos. Eduardo Moura (Novo) e Felipe Alecrim (Novo) se somaram à oposição ao questionar a prioridade dada à instalação de um restaurante no local.
“A pista existe há 40 anos e sempre foi aberta ao público. Agora será substituída por um restaurante. Ele também será gratuito?”, indagou Moura.
Liana Cirne (PT) e Kari Santos (PT) criticaram a concessão como um todo e destacaram que a pista tem função social relevante.
“A direita apoiou a privatização dos parques e agora critica seus efeitos. O PT e o PSOL foram os únicos partidos contrários desde o início”, afirmou Liana.
Enquanto o MPPE segue analisando a conformidade do projeto com a legislação, a principal reivindicação dos ciclistas e atletas é a reabertura da pista até que as discussões avancem.
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