Na Alepe, secretário de Raquel alerta para entraves na LOA 2026: "risco às emendas e políticas públicas"

Secretário defende PL que restabelece remanejamento por decreto, enquanto deputados contestam narrativa de impedimento do Executivo

Plantão Jamildo.com

por Plantão Jamildo.com

Publicado em 24/02/2026, às 14h31

Imagem Na Alepe, secretário de Raquel alerta para entraves na LOA 2026: "risco às emendas e políticas públicas"

Secretário defende PL 3694 para restabelecer remanejamento por decreto.

Governo alega risco à execução de políticas e emendas parlamentares.

Deputados afirmam que Assembleia exerceu prerrogativa constitucional.

Impasse sobre LOA 2026 segue em tramitação e judicialização.

A audiência pública realizada nesta terça-feira (24) na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) aprofundou o embate entre Executivo e Legislativo em torno das alterações na Lei Orçamentária Anual de 2026 (LOA 2026). O secretário de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional, Fabrício Marques, defendeu a aprovação do Projeto de Lei nº 3694, que restabelece a possibilidade de remanejamento orçamentário por decreto. Já parlamentares contestaram o que chamaram de "narrativa" de que o governo estaria impedido de executar políticas públicas.

A discussão ocorre após a aprovação da LOA com modificações promovidas pela Casa e posterior veto parcial da governadora Raquel Lyra (PSD). Parte desses vetos ainda não foi apreciada. Paralelamente, o Executivo encaminhou o PL 3694 com o objetivo de recompor dispositivos que tratam da abertura de crédito suplementar.

Durante a exposição técnica, o secretário detalhou que o projeto propõe restaurar incisos do artigo 10 da LOA que autorizavam o Poder Executivo a abrir créditos suplementares por decreto até o limite de 20% da despesa fixada. Segundo ele, esse percentual é adotado historicamente no Estado e encontra respaldo na legislação federal de finanças públicas.

Marques argumentou que o remanejamento não se destina a corrigir falhas na elaboração do orçamento, mas a lidar com situações previstas na dinâmica fiscal anual, como o reconhecimento de superávits financeiros e a necessidade de ajustar dotações a fatos supervenientes.

Ele citou como exemplo recursos vinculados à educação oriundos do antigo Fundef, que teriam saldo remanescente do exercício anterior. De acordo com o secretário, cerca de R$ 1,5 bilhão permanecem em caixa e dependem de abertura de crédito suplementar para serem incorporados formalmente ao orçamento de 2026.

“O que está em discussão aqui é a restauração de um instrumento que sempre existiu. Sem ele, ficamos limitados para reconhecer superávits e para ajustar o orçamento a decisões posteriores, como alterações de piso salarial”, afirmou.

Risco à execução de políticas e às emendas parlamentares

Ao longo da apresentação, que durou quase 30 minutos, o secretário ressaltou que a impossibilidade de abrir crédito suplementar por decreto pode afetar não apenas programas do Executivo, mas também a execução de emendas parlamentares. Segundo ele, a partir de março inicia-se o primeiro ciclo de remanejamento das emendas de 2026, procedimento que historicamente envolve alterações em mais da metade das indicações feitas pelos deputados.

Plenário da Alepe

Marques declarou que, sem o instrumento do decreto, qualquer mudança dependeria de projeto de lei específico, o que tornaria o processo mais lento. “Se tivesse que mandar projeto de lei para cada alteração, seriam dezenas de propostas apenas para tratar de emendas”, disse.

O secretário também mencionou situações emergenciais, como eventuais desastres climáticos, que exigiriam rapidez na realocação de recursos. Para ele, o remanejamento por decreto é mecanismo adotado em todos os estados e municípios e integra a rotina de execução orçamentária.

Dados apresentados pelo gestor indicam que Pernambuco figura entre os estados com maior índice de execução orçamentária, segundo ranking nacional. Ele afirmou que a flexibilidade não compromete o controle, mas assegura a fluidez necessária à implementação das políticas públicas.

Comissão reage e questiona narrativa de impedimento

O presidente da Comissão de Finanças, Orçamento e Tributação, deputado Antonio Coelho (União Brasil), afirmou que a Assembleia exerceu prerrogativa constitucional ao modificar o texto original da LOA. Segundo ele, o percentual de remanejamento foi fixado em 10% para todos os poderes, conforme entendimento da Casa.

Antonio Coelho fala em microfone sentado em cadeira. Ele usa terno
Antonio Coelho fala em microfone sentado em cadeira. Ele usa terno

“O que fica é que uma regra de remanejamento foi afetada. A Assembleia exerceu sua prerrogativa legítima e aprimorou o texto. Foi o próprio Executivo que decidiu vetar”, declarou.

Na avaliação do parlamentar, parte da responsabilidade pelo impasse decorre da decisão do governo de vetar dispositivos aprovados pelo Legislativo. Ele defendeu que o projeto siga o rito ordinário de tramitação, com prazo para emendas e votação de parecer na comissão.

O vice-presidente da Alepe, deputado Rodrigo Farias (PSB), também contestou a afirmação de que o Executivo estaria impedido de governar. “Essa Casa nunca faltou com o povo de Pernambuco. Todas as vezes que foi acionada para matérias relevantes, cumpriu seu papel”, afirmou.

Deputado Rodrigo Farias
Socialista Rodrigo Farias, vice-presidente da Alepe - Divulgação

Farias disse que a narrativa de bloqueio tem sido apresentada a setores econômicos como justificativa para dificuldades na execução de políticas. “O governo tem orçamento aprovado. Se houver necessidade de ajustes importantes, esta Casa analisará”, declarou.

Tramitação e judicialização

O debate integra a tramitação do PL 3694, que seguirá na Comissão de Finanças até, ao menos, a segunda semana de março. O colegiado abriu prazo para apresentação de emendas e deve votar o parecer final em 10 de março.

O impasse começou após a aprovação da LOA 2026 com alterações promovidas pelos deputados. A governadora vetou parte das mudanças sob alegação de inconstitucionalidade e risco ao interesse público. O presidente da Alepe, Álvaro Porto (PSDB), rejeitou os vetos de forma monocrática, sustentando vício formal.

O Executivo recorreu ao Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), que suspendeu o ato legislativo e manteve provisoriamente a versão original do governo. A decisão foi contestada pela Assembleia.

Durante o recesso, a governadora convocou sessão extraordinária para tratar do tema, mas as deliberações foram limitadas, com encaminhamento de questões à Procuradoria da Casa.

Com o retorno das atividades após o Carnaval, a audiência pública foi realizada como parte do rito ordinário. O relator-geral da matéria é o próprio Antonio Coelho, com sub-relatoria do deputado Diogo Moraes (PSDB).

A definição sobre o percentual de remanejamento e a recomposição dos dispositivos vetados seguirá em debate nas próximas semanas, em meio à disputa institucional sobre os limites de atuação do Executivo na gestão orçamentária.