João Campos se pronuncia após monitoramento de secretário pela Polícia Civil; deputados brigam por narrativa

João Campos se pronunciou publicamente sobre caso de monitoramento de secretário pela Polícia Civil. Base de Raquel critica oposição da Polícia Civil

Cynara Maíra

por Cynara Maíra

Publicado em 27/01/2026, às 07h15 - Atualizado às 08h21

Prefeito João Campos falando no microfone
Prefeito João Campos - Hélia Scheppa/Prefeitura do Recife.

O Pronunciamento: João Campos classificou o monitoramento de seu secretário como "criminoso" e prometeu medidas judiciais.

A Justificativa: A SDS alegou que a ação verificava uma denúncia anônima de propina em um carro oficial e negou necessidade de ordem judicial para uso de rastreador.

O Vazamento: O governo atribui a divulgação das mensagens a um policial afastado por ligação com organização criminosa em Ipojuca.

O Embate: A líder do governo, Socorro Pimentel, defendeu a polícia e criticou o "circo midiático". O presidente da Alepe, Álvaro Porto, condenou a "arapongagem".

O Resultado: A Polícia Civil informou que a investigação preliminar não encontrou irregularidades e arquivou o caso.

O prefeito do Recife, João Campos (PSB), comentou na segunda-feira (26) o caso do monitoramento de seu secretário de Administração, Gustavo Monteiro, pela Polícia Civil de Pernambuco.

O gestor classificou a ação como "ilegal" e "criminosa" em vídeo publicado nas redes sociais. A declaração ocorre após a TV Record revelar que agentes de inteligência acompanharam a rotina do auxiliar e utilizaram rastreadores no veículo oficial.

Antes da fala de João Campos, a Secretaria de Defesa Social (SDS) reagiu e convocou uma coletiva de imprensa. 

Durante encontro, o secretário Alessandro Carvalho negou a existência de espionagem política. O governo alegou que a corporação apenas verificou uma denúncia anônima sobre suposto pagamento de propina envolvendo um carro da frota municipal.

A revelação do caso antecipou o clima de disputa política na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), que retorna do recesso próxima semana. Governistas e oposicionistas utilizaram o episódio para trocar acusações e defender suas narrativas sobre suposto uso da máquina pública. 

A reação de João Campos

Em vídeo nas redes sociais, João Campos criticou a gestão estadual. O prefeito afirmou que não tolera corrupção, mas também não aceita perseguição. Ele questionou a hierarquia que ordenou a operação sem a instauração formal de inquérito.

"O que a TV Record revelou é muito grave. Inquéritos desarquivados por interesse eleitoral. Perseguição sem ordem judicial. Rastreador colocado no carro oficial da prefeitura. Isso é criminoso, isso é um absurdo", declarou Campos.

O gestor prometeu acionar a Justiça para responsabilizar os envolvidos. "Quem é que está dando essas ordens? É a interesse de quem? A democracia brasileira não permite nenhum arrobo autoritário", completou.

João Campos normalmente evita entrar abertamente em conflitos políticos diretos, deixando para seus aliados, mas nesse caso publicou fala sobre o assunto e adereçou o caso explicitamente.

Veja o vídeo completo: 

A versão da SDS

O secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, defendeu a legalidade dos métodos. Ele afirmou que a Polícia Civil recebeu uma denúncia anônima com fotos e relatos de entrega de valores em shoppings e estacionamentos.

A equipe de inteligência, segundo Carvalho, focou a vigilância no veículo denunciado, um Gol branco, e não na vida pessoal do secretário.

"Não foi lançado mão de nenhum tipo de procedimento que precisasse de autorização judicial. Vigilância é uma técnica de investigação utilizada por qualquer polícia do mundo", disse Carvalho.

A SDS acredita na hipótese de que o vazamento das mensagens ocorreu por um policial civil que integrava o grupo.

A corporação afastou esse agente em novembro, após o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) flagrá-lo em reunião com um político de Ipojuca investigado por desvio de recursos.

Na jurisprudência de casos anteriores no país, entende-se que colocar um rastreador em um veículo não exige mandado, já que não fere o princípio do asilo inviolável. Apesar disso, o caso depende das avaliações dos tribunais. Alguns entendimentos no país são: 

  • TJSP: Uso sem judicial não viola intimidade, similar a acompanhamento físico.

  • TJSC (AC 5002495-81.2020.8.24.0067): Legal para prisões seguras, preservando vidas.

  • TJMT e TJMG: Válido em investigações, sem ofensa à cadeia de custódia.

  • STJ: Busca veicular sem suspeita é ilícita; provas podem ser anuladas se exploratória

O SDS declarou que a ação seguiu a lei e o entendimento do STF e do STJ de que não seria possível instaurar inquéritos com base em apenas denúncias anônimas, exigindo verificações preliminares. 

Disputa na Alepe

O caso repercutiu entre os deputados estaduais. A líder do governo, Socorro Pimentel (União Brasil), acusou a oposição de promover um "circo midiático". A parlamentar defendeu a atuação técnica da polícia.

"Investigar possível recebimento de propina é ataque à democracia? Ou apenas afronta interesses particulares de determinado grupo político? Nenhum político pode estar acima da lei", afirmou Pimentel.

A deputada Débora Almeida (PSDB) afirmou que confia na atuação das forças de segurança do estado e que "tentar transformar um procedimento legítimo em narrativa de perseguição é desinformar a sociedade". 

Em contrapartida, o presidente da Alepe, Álvaro Porto (PSDB), repudiou o que chamou de "arapongagem". O deputado, principal adversário político de Raquel Lyra no Legislativo, comparou o caso a práticas de regimes autoritários.

"Precisamos repudiar o uso de agentes do Estado para perseguirem adversários políticos. Isso tem que ter um basta. Esperamos que a governadora tome as providências que o caso requer", declarou Porto.

Porto chegou a dizer que "Como policial civil e defensor da Polícia Civil, não aceito que nos coloquem em conflito com a corporação. A responsabilidade por ordens erradas recai sobre quem as emitiu. É essencial esclarecer quem autorizou a espionagem política e o uso de recursos públicos para perseguições". 

Investigação Arquivada

A operação denominada "Nova Missão" ocorreu entre agosto e outubro de 2025. O chefe da Polícia Civil, Felipe, informou que as diligências preliminares não confirmaram a denúncia de propina. A corporação não encontrou indícios de crime e arquivou o procedimento sem a instauração de inquérito.