Crise no STF invade a eleição e vira munição na guerra entre Lula e Flávio Bolsonaro

Ricardo Leitão analisa Caso Vorcaro, que amplia desgaste do STF, enquanto bolsonaristas tentam associar ministro Moraes a Lula na reta final da eleição

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 18/09/2026, às 09h21 - Atualizado às 09h40

O lavajatista Edson Fachin
Com ministros sob questionamentos e eleição polarizada, crise na Corte abre nova frente de confronto a menos de 20 dias do voto - STF/Divulgação

A crise no STF provocada pelo caso Daniel Vorcaro entrou de vez na disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Bolsonaristas aumentam a pressão sobre Alexandre de Moraes e tentam aproximar o ministro da campanha petista.

Ao mesmo tempo, investigações envolvendo Flávio oferecem à campanha de Lula espaço para uma reação na reta final da eleição.

Flávio Bolsonaro agradece

Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com

No Sete de Setembro, em comício na avenida Paulista, em São Paulo, militantes bolsonaristas ergueram faixas saudando André Mendonça e pedindo o impeachment de Alexandre de Moraes, ambos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

No palanque, Flávio Bolsonaro, candidato da direita à presidência da República, insuflava: “Quem vota em Lula vota em Moraes, ministro de Lula no STF!”.

Na noite do dia 15 passado, depois da escandalosa reunião dos dez ministros do Supremo, o ataque sem trégua a Moraes continuou nas redes sociais bolsonaristas.

Como nos duelos de violeiros nordestinos, Suas Excelências deram o mote: em meio a ataques pessoais, dedos em riste e manobras regimentais, gastaram seis horas para decidir – e não decidiram – se o ministro Moraes deveria ser investigado por supostas relações criminais com Daniel Vorcaro, líder da maior fraude bancária da história do Brasil, estimada em R$ 62 bilhões.

A sessão foi suspensa depois de um pedido de vista do ministro Flávio Dino, que tem 90 dias para anunciar o seu voto.

O prazo alcança meados de dezembro, portanto além de 24 de outubro, dia do provável segundo turno da eleição presidencial. Até lá, o STF, fraturado por escancaradas divisões partidárias, vai sangrar em praça pública.

Os bolsonaristas querem liquidar Alexandre de Moraes, tido por eles como o principal responsável pela condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e quatro meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado.

Manter o ministro sob pressão e vinculá-lo a Luiz Inácio Lula da Silva é um trunfo da direita, a menos de 20 dias da eleição.

O objetivo estratégico é aproximar ao máximo Lula de Moraes e mergulhar o petista no caldo de suspeitas de corrupção que cercam o ministro do Supremo, flagrado em 52 diálogos por celular com Daniel Vorcaro.

Em um deles, o líder da fraude bilionária pergunta ao ministro se deve deixar o Brasil, diante do avanço das investigações da Polícia Federal.

A campanha de Lula ainda não descobriu como escapar da manobra. O que melhor produziu foi um desgastado “todos devem ser investigados e punidos, com amplo direito à defesa”.

Muito pouco numa eleição extremamente polarizada.

É improvável que neste flamejante enrosco alguém tenha se lembrado da célebre frase do juiz norte-americano Louis Brandeis, quando às voltas com chicanas nos tribunais: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

No Supremo, entretanto, haveria motivos para sombras.

Há indícios, mais ou menos consistentes, de que quatro ministros – ou seja, quase a metade da Suprema Corte – estariam envolvidos com Vorcaro: além de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Kássio Nunes Marques e André Mendonça. A lista poderia ainda incluir Luiz Fux.

Há casos de envolvimento direto, como o de Dias Toffoli, cuja família fez negócio imobiliário com o mega fraudador, e indiretos.

Disso são exemplos o filho de Luiz Fux, Rodrigo Fux, e o filho de Nunes Marques, Kevin Marques, que operaram com o Banco Master, de propriedade de Vorcaro.

A possibilidade de os ministros do STF decidirem investigar os feitos e os fatos de cada um é igual à de Donald Trump fazer qualquer coisa em benefício da humanidade.

No momento, as pesquisas não detectaram nenhuma influência da crise do STF nas intenções de voto dos eleitores.

Lula e Flávio Bolsonaro continuam tecnicamente empatados no primeiro e no segundo turnos quando se aplicam as margens de erro das amostragens.

Por enquanto o resultado final é imprevisível, como foi o de 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro por apenas 1.8 ponto percentual, pouco mais de 2 milhões de votos de diferença.

Contudo, até o segundo turno, em 24 de outubro, a corrupção tem potencial de colar no presidenciável da direita, dado o conjunto de sua obra.

Flávio Bolsonaro não é apenas inexperiente em administração pública e representante de um grupo político golpista, historicamente descomprometido com a democracia.

A sua vida pública também é marcada pela investigação sobre um suposto esquema de “rachadinha” em seu gabinete de deputado estadual no Rio de Janeiro e fantásticas operações imobiliárias naquela cidade.

A Polícia Federal também o investiga por fraternais relações com Vorcaro, que resultaram no “patrocínio” de R$ 131 milhões para produção de filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, dos quais R$ 62 milhões já liberados.

Além disso, o candidato teria se envolvido em evasão de divisa e organização criminosa.

Com tão diversificado currículo sua candidatura vai se sustentar?

O eleitor tem todo o direito de saber, antes de votar, a inteira verdade sobre o seu candidato. Nesse sentido, a guerra de narrativas não contribui.

Ela geraria um resultado contestado por suspeita de fraude, que pode acirrar extremismos e estimular violência, como já se observa nas ruas e nas redes sociais, minando a estabilidade de um governo precariamente eleito.

Foi o que tentou Jair Bolsonaro, ao acusar falsamente que as urnas eletrônicas são frágeis, nos preparativos do golpe de Estado que liderou.

Durante anos, quando a conjuntura política se desestabilizava, esperava-se a ponderação do Supremo Tribunal Federal e sua defesa das regras legais, para que prevalecessem os interesses da maioria da nação, além dos meramente partidários.

Hoje, não.

Antes do voto de cada ministro é preciso saber de que lado político ele se filia e qual facção política escolherá os seus próximos pares na Corte.

A crise é tão grande que pode redundar em impeachments, conflitos com o Congresso e até anulação de processos.

Um caos, para alegria do silencioso Daniel Vorcaro e dos mobilizados bolsonaristas.