Ricardo Leitão: Alvoroço na “rataria” bolsonarista

Filho de Bolsonaro chamou de rataria os aliados que se estapeiam para suceder Bolsonaro na liderança da direita nas eleições de 2026

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 30/08/2025, às 08h24 - Atualizado às 08h37

O ex-presidente Jair Bolsonaro começa a ser julgado no STF nesta semana que vem - © Valter Campanato/Agência Brasil
O ex-presidente Jair Bolsonaro começa a ser julgado no STF nesta semana que vem - © Valter Campanato/Agência Brasil

Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com

Na próxima terça-feira, 2 de setembro, a primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) inicia o julgamento de Jair Bolsonaro e o estado maior de sua quadrilha, réus em cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado.

Inelegível até 2030, por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-presidente pode ser agora condenado a mais de 40 anos de prisão, o que sepultaria seus planos eleitorais.

Restaria então o legado de milhões de votos, de princípio à disposição de um herdeiro por enquanto indefinido.

O cenário, a um ano das eleições presidenciais de 2026, provoca um alvoroço sem precedentes na “rataria” bolsonarista. O coletivo “rataria” não é criação da esquerda. Trata-se de obra da inspiração de Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente, para denominar os governadores da direita que estão se lançando candidatos à presidência da República, enquanto o ex-presidente cumpre prisão domiciliar.

“Agem como ratos e oportunistas, tentando se valer do espólio do meu pai”, protesta Carlos. “Isso é desumano, sujo, oportunista e canalha. Eles (os governadores) fingem que vão resolver, mas se escondem e lavam suas mãos, em uma atitude covarde”.

O desabafo foi compartilhado por outro filho de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo, refugiado nos Estados Unidos, de onde conspira contra o Brasil em apoio a Donald Trump.

O secretário de Comunicação do governo passado, Fábio Wajngarten, complementou. “Esses governadores se dizem aliados de Bolsonaro, mas não saem em sua defesa. Devem ser tratados como opositores, voltados apenas para suas campanhas”.

Os alvos prioritários dos bolsonaristas são os governadores Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Jr. (PR) e Eduardo Leite (RS). Zema e Caiado admitem publicamente ser candidatos;

Ratinho Jr. e Eduardo Leite estudam o horizonte, e Tarcísio de Freitas toureia pressões crescentes – principalmente de empresários – para colocar sua campanha na rua.

Em relação a Jair Bolsonaro, todos repetem o mesmo discurso: não tomarão decisão irreversível antes de se consolidar a situação do ex-presidente.

O tempo corre, enquanto a direita se defronta com dois problemas: o primeiro é a estabilidade da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, com a inesperada ajuda do tarifaço de Trump.

A segunda é a intenção de Bolsonaro – não sendo candidato – indicar para substituí-lo alguém de seu clã, nesse caso o filho Flávio ou a mulher Michelle. Como sempre acontece, uma solução autoritária e doméstica sem a qual a direita não contaria com o ex-presidente na campanha (apesar de não poder ser votado, Bolsonaro poderia pedir votos, segundo os seus correligionários).

De acordo com a última pesquisa Datafolha de intenção de voto presidencial, o bolsonarismo tem apoio de um terço do eleitorado, o que tornaria Tarcísio, Flávio e Michelle candidatos competitivos contra Lula.

O desafio da direita seria construir unidade capaz de levar o seu candidato para o segundo turno e então radicalizar a polarização na reta final da campanha. Deu certo em 2018 e quase dava certo em 2022.

Não interessa à direita moderada (existe) radicalizar desde já o debate eleitoral. Ela teme, com isso, perder o voto do centro, que poderia, por exemplo, fortalecer a candidatura de Tarcísio de Freitas.

Contudo, precisa se livrar, ou reduzir ao mínimo, a toxidade do clã Bolsonaro, que contamina os palanques do ex-presidente.

Como se sabe, ele é réu por tentativa de golpe de Estado, indiciado em processos de desvio de joias da Arábia Saudita e falsificação de atestado de vacina contra a Covid 19. Junto com o filho Eduardo está também indiciado pela Polícia Federal por atentar contra a soberania nacional em um terceiro processo.

Nas buscas em sua casa, durante as investigações, os agentes apreenderam o celular do ex-presidente. As degravações dos diálogos com o filho Eduardo são desmoralizantes. Berra Eduardo: “Vá tomar no c..., seu ingrato do ca...! Tarcísio nunca ajudou em nada. Sempre esteve de braços cruzados, vendo você se f....”

Será pesado para a direita moderada, aberta a alianças com o centro, carregar nas costas o peso tóxico do clã. Seu objetivo prioritário – e dos segmentos econômicos que representa – é derrubar a esquerda do poder. Porém fica mais difícil com Eduardo Bolsonaro urrando nos Estados Unidos – um “traidor da Pátria” para Lula e um “babaca” para seu pai.

Existem articulações para levantar uma candidatura presidencial pelo centro-direita sem o DNA tão escancarado do bolsonarismo. As tentativas envolvem lideranças do União Brasil, PP, PSD e Republicanos.

O nome preferencial é o de Tarcísio de Freitas, bem avaliado governador de São Paulo, o estado com a maior população e base econômica do País. Freitas seria forte no Sudeste e no Sul, no entanto, lhe faltaria o Nordeste, onde Lula nunca perdeu, o que poderia ser compensado com a indicação de um vice da região em sua chapa.

O tempo é curto e todos os sentidos estão atentos. Entretanto, desde já o alvoroço da “rataria” evidencia como nunca a face armada de uma gigantesca quadrilha, sem o mínimo compromisso com o Brasil, apenas arraigada ao poder e à própria sobrevivência.

A exposição de seus métodos e dos fatos criminosos que gerou é um bem que se presta à democracia e à tomada de consciência para a construção do futuro do Brasil.