Ao todo, sete pessoas físicas e seis pessoas jurídicas foram alvos de investigação; grupo movimentou mais de R$ 400 milhões em 10 meses de funcionamento
por Otávio Gaudêncio
Publicado em 18/06/2026, às 11h15
Uma investigação do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), que investiga esquemas de lavagem de dinheiro por meio de esquemas ilegais de apostas, foi deflagrada nesta quinta-feira (18) para os estados de Pernambuco, São Paulo e Ceará.
Em PE, o MPRN e a Receita Federal, responsáveis pelo caso, receberam apoio do GAECO/PE (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), órgão do Ministério Público de Pernambuco (MPPE).
As ações nos estados têm o objetivo de levantar provas sobre o grupo investigado. Segundo o MPRN, a associação criminosa investigada é responsável por crimes como lavagem de dinheiro, induzimento à especulação, exploração de jogo de azar e loteria não autorizada e crimes contra a relação de consumo.
Até o momento, os entes envolvidos no processo já cumpriram sete mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e seis contra pessoas jurídicas nas cidades do Recife, Caruaru e Toritama.
O modus operandi do grupo criminoso consistia em invadir sistemas de computadores de órgãos públicos para injetar códigos em páginas de boa reputação digital, como sites com finais "gov.br" e "edu.br". "Essa adulteração criava arquivos de indexação forjados que direcionavam o robô de buscas da internet e os usuários para os sites ilegais de apostas, transmitindo uma falsa credibilidade", escreveu o MPRN.
De acordo com a investigação, os suspeitos utilizavam o órgão Lotseridó, da Prefeitura de Bodó/RN, como forma de aparentar mais legalidade a dezenas de plataformas de apostas online em âmbito nacional.
"A atuação do MPRN ocorreu porque os municípios não possuem competência para criar leis sobre loterias e apostas. A tese se baseou no entendimento do Supremo Tribunal Federal, que estabelece que apenas a União pode legislar sobre essa atividade. As medidas judiciais buscaram interromper o esquema que causa prejuízos aos consumidores, garantir a reparação dos danos e assegurar o recolhimento dos valores obtidos de forma ilícita", detalhou o órgão.
O montante financeiro movimentado pelo grupo foi um dos pontos que chamou a atenção do MPRN. Em apenas 10 meses de funcionamento, as empresas envolvidas já tinham obtido receita de R$ 415 milhões, com uma delas obtendo R$ 4,6 bilhões em créditos no ano de 2025. A movimentação gerou R$ 8,3 milhões em repasses à Prefeitura de Bodó.
Empresas de fachada, chamadas de facilitadoras de pagamento ou de apoio operacional, foram utilizadas para ocultar os donos dos negócios e os valores. As empresas eram sediadas em endereços inexistentes, com salas comerciais vazias ou escritórios virtuais. Somente em Bodó, 21 organizações operavam sobre o mesmo endereço fantasma.
Mesmo assim, as investigações constataram que o grupo manteve operação mesmo depois da Receita Federal ter extinto CNPJs ligados aos suspeitos.
Em novembro do ano passado, o MPRN realizou o bloqueio judicial de R$ 145 milhões do grupo, com a decretação de medidas cautelares de sequestro, bloqueio e indisponibilidade de bens.
A Justiça determinou o bloqueio de saldos em contas-correntes, poupanças, investimentos, planos de previdência privada, além da indisponibilidade de veículos e de bens imóveis dos investigados.
A operação Conto da Sorte é fruto de uma investigação do MPRN, que foi originada a partir de análise técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, e contou com o apoio da Receita Federal do Brasil, dos MPs de São Paulo, Pernambuco e Ceará, além das polícias desses três Estados.