Fim da escala 6x1 vira aposta de Lula no segundo turno e amplia disputa com Flávio Bolsonaro

Governo Lula aposta na redução da jornada de trabalho e no fim da escala 6x1 como temas centrais da reta final da eleição presidencial

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 12/10/2026, às 20h55

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Proposta em discussão no Senado prevê duas folgas semanais e redução da jornada de 44 para 40 horas, enquanto setores empresariais alertam para impactos nos custos - Letycia Bond / Agência Brasil

Lula vê na votação do fim da escala 6x1 uma oportunidade de recolocar a agenda trabalhista no centro do segundo turno

A proposta enfrenta resistências políticas e empresariais, além de divergências sobre a flexibilização das relações de trabalho

O debate ocorre em meio à disputa presidencial com Flávio Bolsonaro e à nova composição de forças no Congresso

Nem ruas, nem redes sociais. Uma das principais apostas políticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a reta final do segundo turno está no Senado Federal.

Nesta quarta-feira (14), os senadores devem votar, em primeiro turno, a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6x1, com duas folgas semanais e redução da jornada máxima de 44 para 40 horas, sem corte de salários.

A votação ocorre em um momento de dificuldades para a campanha de reeleição de Lula, que enfrenta Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno presidencial, marcado para 25 de outubro.

Para os governistas, a discussão sobre a jornada de trabalho oferece uma oportunidade de colocar uma pauta social no centro da campanha, em contraposição aos temas que dominaram a disputa política desde o primeiro turno.

A estratégia também expõe diferenças entre as propostas trabalhistas defendidas por Lula e Flávio Bolsonaro.

O que muda com o fim da escala 6x1

Como já mostrou o site Jamildo.com, a PEC 221/2019, aprovada pela Câmara dos Deputados em maio e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em setembro, estabelece a substituição da escala de seis dias de trabalho por um de descanso por um modelo com cinco dias de trabalho e dois de folga.

A redução da jornada será gradual.

Inicialmente, a carga semanal cairá de 44 para 42 horas, 60 dias depois da promulgação. Após mais 12 meses, passará para 40 horas semanais.

O texto assegura a manutenção dos salários durante a transição.

Segundo os dados do Ministério do Trabalho apresentados no debate, cerca de 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada atuam na escala 6x1.

A mudança tem impacto potencial principalmente sobre setores como comércio e serviços, nos quais é comum o funcionamento durante seis ou sete dias da semana.

Defensores da redução da jornada argumentam que a medida poderá melhorar as condições de descanso, saúde e convivência familiar dos trabalhadores.

Representantes empresariais, por outro lado, manifestam preocupação com o aumento dos custos de contratação e a necessidade de reorganização das escalas, especialmente nas pequenas empresas.

Flávio Bolsonaro defende alternativa com pagamento por hora

A proposta defendida pelo campo político de Flávio Bolsonaro é diferente da apresentada pelo governo Lula.

O candidato do PL apoia a PEC 12/2026, apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial.

O texto cria a possibilidade de contratação por hora trabalhada, permitindo que empregados e empregadores estabeleçam jornadas flexíveis.

Nesse modelo, salários, férias, 13º salário e FGTS seriam calculados proporcionalmente às horas efetivamente trabalhadas.

A proposta também permite acordos individuais e mantém a possibilidade de diferentes distribuições dos dias de trabalho, respeitados os limites de jornada.

A diferença central está na remuneração.

Enquanto a PEC apoiada por Lula prevê menos horas de trabalho sem redução salarial, o texto de Marinho permite contratos com pagamento proporcional à jornada efetivamente cumprida.

Flávio Bolsonaro, entretanto, ainda não esclareceu publicamente como votará a proposta que está na pauta do Senado.

Nesta segunda-feira (12), questionado por jornalistas, o candidato evitou responder sobre sua posição na votação prevista para quarta-feira.

A distinção é importante: o apoio de Flávio a um modelo alternativo de contratação não significa, necessariamente, que ele já tenha anunciado voto contrário à PEC 221.

Governo precisa de 49 votos e tenta acelerar votação

Para aprovar a proposta de emenda à Constituição, o governo precisa reunir pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores, em dois turnos.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), confirmou a intenção de realizar a primeira votação na quarta-feira (14).

O principal desafio dos governistas, porém, é concluir também o segundo turno antes da eleição presidencial de 25 de outubro.

Pelas regras regimentais, a proposta precisa cumprir etapas de discussão e intervalos entre as votações.

Para abreviar esse calendário, a base governista tenta reunir assinaturas de 54 senadores, ou de líderes partidários que representem esse número de parlamentares.

A articulação envolve diretamente a senadora pernambucana Teresa Leitão (PT), líder do governo no Senado, que participa da coleta de apoios para acelerar a tramitação.

Sem o acordo necessário, a votação definitiva poderá ficar para depois do segundo turno presidencial.

Oposição discute adiamento e teme efeito eleitoral

A disputa pelo calendário da votação também passou a mobilizar integrantes da oposição.

Parlamentares contrários à aprovação imediata discutem mecanismos regimentais para adiar a decisão.

Entre as possibilidades examinadas estão o esvaziamento das sessões para dificultar o quórum e a apresentação de alterações ao texto, o que poderia exigir uma nova análise pela Câmara dos Deputados.

O cálculo político atribuído a esses parlamentares é evitar que uma eventual aprovação seja utilizada pela campanha de Lula antes da eleição presidencial.

A oposição, entretanto, não apresenta posição uniforme sobre o tema.

O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), que apoia Flávio Bolsonaro, manifestou-se favoravelmente ao fim da escala 6x1 e participou de articulações para a votação.

O PL também não havia anunciado uma orientação formal de bancada sobre a proposta até a última semana.

Assim, a disputa não se resume a uma divisão automática entre governistas favoráveis e oposicionistas contrários.

Renovação do Senado amplia disputa entre Lula e bolsonaristas

O debate sobre a jornada de trabalho acontece depois de uma eleição que fortaleceu o PL e outras forças de direita no Congresso Nacional.

O resultado de 4 de outubro ampliou a presença de parlamentares alinhados ao bolsonarismo na composição do Senado que assumirá em fevereiro de 2027.

Esse novo cenário também influencia as negociações sobre a presidência da Casa e a relação entre o próximo governo e o Congresso.

Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, está entre os parlamentares que defendem mudanças institucionais, incluindo novas regras para a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.

Para Davi Alcolumbre, a votação da escala 6x1 ocorre, portanto, em meio a uma reorganização das forças políticas do Senado.

O presidente da Casa terá de administrar as demandas do governo Lula, a resistência de parte da oposição e os interesses dos parlamentares que permanecerão no Congresso na próxima legislatura.

A aposta eleitoral de Lula na redução da jornada

O fim da escala 6x1 tornou-se uma das principais iniciativas do governo para recolocar a agenda trabalhista no debate presidencial.

A campanha de Lula procura associar a proposta à ampliação dos direitos dos trabalhadores, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta a flexibilização dos contratos como alternativa para as relações de trabalho.

A divergência coloca em discussão dois modelos distintos: a redução da jornada com preservação salarial e a ampliação das possibilidades de contratação por hora.

Para o governo, uma aprovação antes do segundo turno permitiria apresentar um resultado legislativo concreto em uma área de impacto direto sobre milhões de brasileiros.

Para a oposição, a discussão envolve tanto os efeitos econômicos da mudança quanto o calendário de votação em plena campanha eleitoral.

O efeito nas intenções de voto, entretanto, permanece incerto. A aprovação da PEC não garante, por si só, uma alteração nas preferências dos eleitores.