João Campos e Raquel Lyra confrontaram balanços de gestão e fazem ataques; Ivan critica ambos e cobra ações pelo clima e pautas da esquerda
por Cynara Maíra
Publicado em 30/09/2026, às 08h38 - Atualizado às 09h48
João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) polarizaram o debate com cobranças mútuas sobre segurança pública, fechamento de leitos, obras viárias e a concessão da Compesa.
Ivan Moraes (PSOL) buscou se contrapor aos dois principais concorrentes, cobrando recursos federais para o clima, apoio ao aborto legal e criticando incentivos fiscais para empresas de apostas.
A governadora cobrou João pelo repasse de R$ 1,5 milhão do fundo do PSB a um candidato condenado por violência doméstica na Paraíba; o socialista afirmou ter determinado a expulsão do parlamentar e relembrou declarações passadas de Raquel sobre laqueadura.
O encontro teve discussões sobre a conta de água após a concessão da Compesa, gerando direito de resposta a João Campos após a governadora afirmar que o adversário mentia sobre o reajuste.
Nas considerações finais, Ivan pediu votos para levar a esquerda ao segundo turno, João reforçou o apoio de Lula e sua gestão no Recife, e Raquel defendeu a continuidade das obras do governo estadual.
O penúltimo debate entre os candidatos ao Governo de Pernambuco antes do primeiro turno das eleições reuniu João Campos (PSB), Raquel Lyra (PSD) e Ivan Moraes (PSOL) nos estúdios da TV Globo na terça-feira (29) para apresentar suas propostas à população.
Principais nomes da disputa, João Campos e Raquel Lyra focaram em uma disputa de gestões, entre o atual trabalho da governadora na liderança do Governo de Pernambuco e nas ações do socialista no comando da Prefeitura do Recife até o início do ano.
Em busca de se diferenciar dos principais candidatos vindos da tradição familiar na política, Ivan Moraes focou em criticar ambas as posturas de João e Raquel e cobrar compromissos com pautas de esquerda.
O debate seguiu o formato de quatro blocos, entre temas sorteados, perguntas livres e questões regionais, mas se concentrou nos ataques de Campos e Lyra em áreas como segurança pública, saúde e a concessão dos serviços de água.
Ivan Moraes aproveitou o espaço para questionar ambos os concorrentes sobre as polêmicas que envolvem os dois candidatos, como incentivos fiscais a casas de apostas e direitos reprodutivos.
O primeiro bloco sorteou três temas específicos para o questionamento dos debatedores: mudanças climáticas, segurança e isenção fiscal.
No primeiro tópico, Ivan perguntou para Raquel sobre a preservação da Caatinga e cobrou recursos do programa federal Sertão Vivo, ao dizer que Pernambuco deixou de acessar R$ 300 milhões do programa por falta de assinatura de convênio.
Em resposta, a governadora citou a criação do programa Plantar Juntos e a mudança da matriz energética do Polo Gessoeiro do Araripe, que passou a utilizar gás canalizado em substituição à lenha retirada da Caatinga.
Sobre os morros e enchentes na Região Metropolitana, prometeu R$ 2 bilhões em obras de contenção de encostas, citando os investimentos já feitos em Jardim Monteverde, em Jaboatão dos Guararapes.
Com a pauta sobre segurança, Raquel cobrou a atuação de João na gestão do Recife ao citar que o ex-prefeito "colocou a Guarda Municipal sem concurso público no pior momento da sua história, no abandono, sem concurso e sem investimento".
Campos rebateu ao mencionar o avanço de facções criminosas no estado e ao questionar o volume de obras estaduais na área.
"A delegacia de combate a crime cibernético é uma única delegacia no estado. Nós vamos criar um departamento para combater os crimes cibernéticos, e como governador, vou liderar desde o primeiro dia o programa de segurança", disse.
João propôs a criação do Pacto Antifacção para combater lavagem de dinheiro do crime organizado, concurso com oito mil novos policiais e a criação de um departamento de combate a crimes cibernéticos.
Em tréplica, a gestora defendeu os R$ 300 milhões investidos em fuzis, helicópteros, inteligência e a construção de 25 novas estruturas policiais (delegacias e batalhões) no interior e RMR. Raquel aproveitou para questionar as ações passadas do mandato do ex-correligionário de João ao dizer que "Você, como chefe de gabinete de Paulo Câmara, me entregou a pior segurança pública que Pernambuco já viu. Agentes dividindo colete à prova de balas e delegacia fechada por falta de efetivo".
Ao perguntar ao candidato do PSOL, João questionou qual seria a estratégia do ex-vereador para manter e atrair indústrias sem guerra fiscal. Ivan aproveitou para criticar a concessão de R$ 8 bilhões em renúncias fiscais em gestões anteriores sem a geração proporcional de empregos e trouxe a polêmica das bets na Prefeitura do Recife.
"Em termos de isenção fiscal, João, é preciso também que você me diga por que é que baixou o imposto das bets dando de presente para as bets mais de R$ 120 milhões", questionou o postulante do PSOL.
Em resposta, João negou ligação com as empresas , disse ser pessoalmente contra as apostas, e atribuiu a medida a uma adequação legal a partir de regras federais aprovadas no governo do presidente Lula (PT). Raquel aproveitou o tema para criticar a prefeitura e anunciou o Programa Acolhimento Digital, voltado para assistência psicológica a pessoas com dependência em apostas.
Campos aproveitou para divulgar sua proposta de isentar o IPVA de motos de até 180 cilindradas, pauta criticada por Ivan que afirmou que mais motos aumentam os acidentes graves. O psolista sugeriu a implantação da Tarifa Zero nos ônibus.
No segundo bloco de tema livre, os candidatos puderam escolher os adversários e os assuntos para confronto direto, sem sorteio prévio.
João Campos abriu a rodada questionando Raquel Lyra sobre a quantidade de escolas técnicas, UPAs, UPAs Especialidades e delegacias da mulher entregues em seu mandato.
O socialista afirmou que a gestão estadual teve "soma zero" nesses equipamentos e citou que implantou oito Centros TEA na capital para atender crianças com autismo. João também cobrou o cumprimento de uma promessa de campanha feita pela governadora em 2022 a uma mãe atípica sobre a criação dessas unidades no estado.
Raquel rebateu afirmando que recebeu a rede hospitalar sucateada de governos anteriores do PSB e que reformou 27 hospitais. A gestora declarou que entregou o Hospital da Mulher do Agreste, em Caruaru, e destacou a construção de quatro novas maternidades regionais em Igarassu, Garanhuns, Serra Talhada e Araripina.
A governadora também acusou João de fechar quatro policlínicas 24 horas no Recife e prometeu implantar prontuário eletrônico e telemedicina em Pernambuco.
Ao escolher Ivan Moraes, Raquel perguntou sobre a atuação da Prefeitura do Recife na prevenção de enchentes nos morros da capital, de forma a alfinetar João Campos.
Ivan afirmou que o município demorou a aplicar os recursos de empréstimos internacionais para encostas, mas direcionou sua resposta para criticar a instalação da Escola de Sargentos do Exército na Mata do Siminique, também criticando a governadora. O candidato do PSOL sustentou que a legislação ambiental proíbe o desmatamento da Mata Atlântica quando há alternativa de localização e defendeu que o projeto seja transferido para Araçoiaba.
Na réplica, Raquel disse que retomou a construção de barragens iniciadas após as enchentes de 2010, como Panelas II, Gatos e Garapeba, além das barragens de Engenho Pereira e Engenho Maranhão. A governadora anunciou a proposta do programa Palafita Zero para retirar famílias de áreas alagadas no Recife.
No encerramento do bloco, Ivan perguntou a João Campos sobre as posições do PSB em pleitos anteriores, lembrando o apoio da legenda a Aécio Neves em 2014, a votação a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e as disputas municipais contra o PT em 2020.
João respondeu que o PSOL nasceu de uma dissidência do PT e já teve candidaturas próprias à Presidência contra Lula em disputas passadas. O candidato da Frente Popular defendeu a aliança atual com o presidente e apresentou projetos de infraestrutura, como obras na Transnordestina a partir de Suape, a duplicação da PE-90 na Mata Norte e a extensão da duplicação da BR-423 até Garanhuns.
O terceiro bloco foi dividido em duas rodadas de perguntas e respostas com temas sorteados por regiões do estado.
Com o sorteio do Litoral, Raquel questionou João sobre a manutenção de rodovias estaduais em gestões anteriores do PSB. A governadora afirmou que investiu R$ 7 bilhões em estradas e citou a entrega da pista de Fernando de Noronha e intervenções nas rodovias PE-15 e PE-60.
João afirmou que mais de 70% das obras entregues pela atual gestão tinham projetos deixados pela administração passada e cobrou ações estaduais de contenção da erosão costeira em cidades como Paulista. Raquel respondeu dizendo que o ex-prefeito não concluiu a engorda de Boa Viagem nem as obras da orla e acusou a gestão do PSB com Paulo Câmara de ter abandonado a malha viária estadual.
Na tréplica, João disse que a prefeitura elaborou o projeto de engorda com consultoria internacional e que já entregou cinco quilômetros da orla marítima com redes de drenagem e esgotamento sanitário.
Na pergunta sobre a Região Metropolitana, João questionou Ivan sobre planos para ampliar a oferta de especialidades médicas e procedimentos cirúrgicos no Grande Recife.
Ivan defendeu o fortalecimento da atenção básica e a interiorização de médicos especialistas para evitar que pacientes do interior precisem se deslocar para a capital em busca de tratamento. O candidato do PSOL aproveitou para criticar a concessão de R$ 1 no vale-alimentação dos professores do Recife e apresentou o projeto Cultura Todo Dia, que prevê subsídios mensais a 400 mestres e grupos de cultura popular.
João prometeu construir o Hospital Geral Metropolitano com 900 leitos e unidades regionais no interior, como o Hospital da Criança em Caruaru e o Centro de Tratamento de Câncer do Sertão em Serra Talhada.
Ao abordar a Zona da Mata Sul, Ivan perguntou a Raquel sobre saídas para os trabalhadores rurais diante da crise e da falência de usinas de cana-de-açúcar na região.
A governadora citou a criação do distrito industrial de Palmares, a recuperação de rodovias como a PE-73 e a construção de 144 moradias em São Benedito do Sul e obras de encostas em Cortês. Raquel também destacou a entrega de 5 mil títulos de posse para produtores rurais e ações de crédito pelo IPA.
Ivan propôs a desapropriação de terras improdutivas de usinas falidas para o assentamento de agricultores familiares e a compra de alimentos orgânicos por programas públicos como PAA e PNAE.
Na abertura da segunda rodada regional, Ivan perguntou a João sobre a destinação de resíduos sólidos e defendeu contratações diretas de cooperativas de reciclagem.
João disse que a prefeitura estruturou cooperativas na capital com apoio contábil e aluguel de espaços. O socialista apresentou a proposta do programa Pé de Meia Pernambuco com três eixos: pagamento durante as férias escolares, bolsa para cursos técnicos e incentivo financeiro para formandos abrirem pequenos negócios.
No sorteio da região do Sertão, João perguntou a Raquel sobre as regras da concessão parcial da Compesa, afirmando que o contrato prevê reajuste de cerca de 15% nas tarifas logo após o período eleitoral.
Raquel afirmou que o candidato mentia sobre os cálculos e garantiu que o leilão incluiu mecanismos de redução de futuros aumentos tarifários. A gestora defendeu o programa Águas de Pernambuco, citou investimentos de R$ 21 bilhões e mencionou as obras da Adutora de Negreiros para o Sertão do Araripe.
No encerramento do tema, a direção do debate concedeu um minuto de direito de resposta a João após as declarações da governadora sobre sua conduta.
No direito de resposta, Campos se dirigiu ao eleitor afirmando que sempre disse a verdade enquanto governou o Recife, explicando abertamente o que podia e o que não podia ser feito.
Argumentou que a maturidade de um gestor não é medida por idade nem por tempo de mandato, defendeu a realização do bom debate com educação e postura "olho no olho" com a população e afirmou que Pernambuco tem pressa para ter um governo com capacidade de entrega;
Fechando o bloco com o Agreste, Raquel perguntou a Ivan sobre propostas para o Polo de Confecções de Caruaru e região.
Ivan defendeu a regularização de trabalhadores informais e apresentou a proposta do Plano Estadual da Cannabis. O psolista explicou que o projeto visa a produção de remédios para o SUS com a flor da planta e o aproveitamento industrial das fibras para tecidos e fios no polo têxtil.
Raquel não comentou a proposta sobre a planta e reforçou a entrega de adutoras como a do Agreste, Alto Capibaribe e Serro Azul para abastecer a região.
O quarto bloco retornou ao modelo de perguntas livres entre os participantes e antecedeu as considerações finais.
João Campos abriu a rodada questionando Raquel sobre a desativação de 1.200 leitos hospitalares e o fechamento de unidades de saúde no estado.
Raquel respondeu que os leitos fechados eram temporários da época da pandemia de Covid-19 e que o Ministério da Saúde alterou os critérios de contabilidade de vagas conveniadas.
Em seguida, a governadora questionou o repasse de R$ 1,5 milhão do fundo eleitoral do PSB para a candidatura a deputado federal de Fábio Tyrone na Paraíba, condenado judicialmente por agredir a ex-companheira Myriam Gadelha.
João respondeu que determinou a expulsão de Tyrone pelo Conselho de Ética do partido e contra-atacou mencionando uma declaração em vídeo de Raquel sobre realização de laqueadura em uma paciente. A governadora declarou que já havia se desculpado pelo episódio e citou a ampliação do programa Mães de Pernambuco.
Na sequência, Raquel perguntou a Ivan sobre os impactos das bets na renda das famílias e relembrou a redução de impostos feita no Recife para o setor.
Ivan afirmou que sempre foi contrário às apostas e criticou a presença dessas empresas em patrocínios de eventos públicos no Recife, em Caruaru e em Olinda. Raquel voltou a defender a criação do Programa Acolhimento Digital para atendimento médico e psicológico a dependentes de jogos.
O candidato do PSOL aproveitou a tréplica para relatar queixas de policiais militares sobre o congelamento do valor das diárias desde 2017 e a falta de investimentos nas delegacias de polícia.
Na última pergunta da noite, Ivan questionou João sobre garantias para o cumprimento do aborto legal em meninas e mulheres vítimas de estupro em Pernambuco.
O candidato do PSB afirmou que cumprirá a legislação brasileira e prometeu dobrar o número de Delegacias da Mulher no estado, instalando unidades 24 horas em cidades com mais de 60 mil habitantes. Ivan criticou a resposta por focar em segurança em vez de saúde e afirmou que menos de 2% das crianças vítimas de violência sexual conseguem acessar o procedimento na rede pública.
Nas considerações finais de um minuto e meio, Ivan Moraes defendeu a chegada da esquerda a um eventual segundo turno para forçar o debate sobre pautas progressistas e encerrou sua fala com versos em rima.
João Campos destacou as obras e programas executados durante seu mandato na Prefeitura do Recife, reafirmou a parceria política com o presidente Lula e pediu o voto de eleitores indecisos.
Raquel Lyra destacou sua trajetória como delegada da Polícia Federal e procuradora do Estado, citou entregas de estradas, creches e abastecimento de água, e pediu a renovação do mandato aos eleitores.
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