Com seus danos colaterais, o caso Banco Master avança sobre o tabuleiro político e pode redesenhar a disputa de 2026
Ricardo Leitão | Publicado em 30/06/2026, às 11h51 - Atualizado às 12h05
O artigo de Ricardo Leitão analisa os desdobramentos políticos da saída de Jaques Wagner da liderança do governo no Senado, em meio às investigações sobre sua suposta relação com Daniel Vorcaro e o caso Banco Master.
O texto avalia possíveis impactos para Lula, Flávio Bolsonaro e o cenário eleitoral de 2026, além de destacar a expectativa em torno de uma eventual delação premiada de Vorcaro.
Segundo o articulista, o caso pode ampliar a crise política e atingir diferentes grupos em Brasília.
Por Ricardo Leitão, em artigo para o site Jamildo.com
Pressionado por todos os lados, o senador Jaques Wagner (PT-BA) resistiu apenas por uma semana. Depois de uma conversa reservada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entregou o cargo de líder do governo no Senado e divulgou uma nota tão convincente quanto um acarajé gelado.
“Nesse momento, minha prioridade absoluta é provar minha inocência e me dedicar à reeleição do presidente Lula e à do governador (da Bahia), Jerônimo Rodrigues, além da minha reeleição, ao lado de Rui Costa, para o Senado”.
Segundo a Polícia Federal, que investiga Wagner, o ex-líder do governo no Senado usou de sua influência para aprovar propostas do interesse do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, pivô da maior fraude financeira da história do Brasil, estimada em R$ 60 bilhões.
Um dos maiores amigos de Lula, que o chama de Galego; fundador do PT; ministro da Defesa e da Casa Civil, no governo de Dilma Rousseff, Wagner teria caído na rede de corrupção de Vorcaro, o que o senador nega veementemente.
Seus crimes seriam uma transação de R$ 3,5 milhões entre empresa vinculada ao ex-banqueiro e empresa controlada por um enteado seu; a compra, por terceiros, de um apartamento de luxo, em Salvador, no valor de R$ 2,5 milhões, a ser destinado a uma filha do senador, e um montante de R$ 471 mil, encontrado pela PF em apartamentos de seu uso.
Os esclarecimentos de Wagner foram considerados desastrosos pelo Palácio do Planalto. Sobre os dólares e euros achados em seus apartamentos, explicou que eram economias de diárias em viagens ao exterior, em missões oficiais do Senado.
Errar faz parte da rotina das campanhas eleitorais. Os problemas são o momento e a gravidade do erro. Alguns são tão danosos que podem atolar um candidato que caminha já pensando na vitória.
Qual o dano que supostas ligações de Jaques Wagner com Daniel Vorcaro podem causar à reeleição de Lula?
Há muito a ponderar: a reeleição do próprio senador, um petista histórico; a eleição de um candidato do PT ao governo da Bahia e a repercussão da crise no estado, uma das bases mais fiéis de Lula no Nordeste.
Pior: a corrupção do caso Master alcança agora a esquerda, quando antes era uma marca colada na direita e em Flávio Bolsonaro, que pediu “patrocínio” de Vorcaro a filme laudatório sobre o seu pai, Jair Bolsonaro.
As próximas pesquisas de intenção de voto indicarão o tamanho do dano à candidatura de Lula, como aconteceu com a de “Bolsonarinho” – como é tratado pelos íntimos o filho número 1 de Bolsonaro.
As pequenas diferenças estatísticas entre os dois, nas amostragens, não permitem previsões seguras. Aplicadas as margens de erro, para cima ou para baixo, os oponentes estão matematicamente empatados. As variações são mínimas e, quem tem juízo, por enquanto não tem certeza. Impossível calcular quantos serão atingidos pelo balaço disparado no “fogo amigo” de Jaques Wagner.
Flávio Bolsonaro está atento aos estragos sofridos pela esquerda, enquanto se prepara para responder a inquirições da Polícia Federal sobre o dinheiro despejado por Vorcaro na produção do filme sobre o seu pai.
Diante do tamanho do patrocínio de R$ 132 milhões, há duas suspeitas: o mecenato foi pago com recursos originados da fraude do Banco Master e, em segundo lugar, parte da dinheirama foi transferida para os Estados Unidos, para custear despesas de Eduardo Bolsonaro, deputado federal cassado e xodó da extrema direita norte-americana.
“Bolsonarinho” tem ainda urgência em solucionar a rejeição de sua madrasta, Michelle Bolsonaro, à sua candidatura presidencial.
Os planos políticos dela não coincidem com os do enteado, como sempre aconteceu em uma relação familiar tumultuada há anos. Michelle quer ser candidata ao Senado, neste ano, pelo Distrito Federal e, em 2030, candidata a presidente da República. Sua vitória para o Senado é dada como certa.
Passaria então a ex-primeira-dama a ser uma nova liderança no clã bolsonarista, vencedora nas urnas, o que de forma alguma interessa a Flávio Bolsonaro. O filho mais velho do ex-presidente pretende ser o único e incontestável herdeiro do legado político e eleitoral do seu pai.
Além de se atentar para tiroteios de amigos e inimigos, é também conveniente monitorar a formação de nuvens no horizonte. Uma delas, com o poder de provocar raios e trovões, é a decisão de Daniel Vorcaro de assinar um acordo de delação premiada.
Tentou duas vezes, sem sucesso; seus advogados ajustam agora nova proposta, que obrigatoriamente traria fatos e personagens desconhecidos da Polícia Federal. Uma detalhada descrição da operação do escândalo do Banco Master, aceita pela Procuradoria-Geral da República, pode provocar um tsunami de pânico em gabinetes acarpetados em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Como se diz na gíria da bandidagem de terno e gravata, Vorcaro tornou-se um “homem bomba”, a exigir segurança pessoal contra atentados. Um integrante de sua quadrilha, com a alcunha de Sicário, se matou na prisão, em episódio investigado pela Polícia Federal. Não por acaso, foi detonada no Congresso, ainda no nascedouro, a CPI do Master.
Leia também