Crescer rápido demais também pode ser um problema

Crescer rápido demais pode ser risco para empresas: artigo alerta que faturamento alto não compensa falta de estrutura, governança e maturidade na gestão

Otávio de Oliveira

por Otávio de Oliveira

Publicado em 19/01/2026, às 11h25 - Atualizado às 12h21

Otavio de Oliveira é advogado e escritor
Otávio de Oliveira é advogado e escritor - Divulgação

O artigo do advogado Otávio de Oliveira alerta que crescer rápido não é, por si só, sinal de sucesso empresarial.

Muitas empresas quebram não por falta de mercado, mas por crescerem antes de estarem estruturadas.

O aumento do faturamento costuma esconder falhas operacionais, de gestão, equipe e atendimento ao cliente.

A centralização excessiva no fundador e a falta de governança ampliam riscos jurídicos e reputacionais.

O autor conclui que o verdadeiro desafio não é acelerar o crescimento, mas sustentá-lo com organização e maturidade.

Por Otávio de Oliveira, em artigo especial para o site Jamildo.com

Durante muito tempo, vender mais foi tratado como sinônimo de sucesso empresarial. Crescer rápido, então, passou a ser quase uma virtude em si mesma, algo a ser exibido, comemorado e replicado. Pouco se fala, no entanto, sobre o outro lado desse movimento: os riscos concretos de um crescimento que não encontra estrutura para se sustentar.

Nem toda empresa quebra por falta de mercado. Muitas quebram porque o mercado chegou antes da maturidade.

O crescimento acelerado impõe exigências silenciosas. A operação que funcionava bem em escala reduzida começa a falhar quando pressionada por volume. A logística perde previsibilidade, os custos sobem sem controle claro, o atendimento se deteriora. O que antes era resolvido com proximidade, informalidade e improviso passa a exigir processo e disciplina. E nem todo empresário percebe essa virada a tempo.

Há, ainda, um ponto mais delicado: a falsa sensação de domínio. O aumento do faturamento costuma mascarar fragilidades internas. O caixa gira, os contratos se multiplicam, novos clientes entram - com isso, cria-se a impressão de que tudo está sob controle. Mas, crescimento não é sinônimo de organização. Muitas vezes, é justamente o contrário: ele amplia erros que antes eram pequenos o suficiente para passar despercebidos.

A equipe é outro campo sensível. Contratar rapidamente não significa estruturar bem. Funções mal definidas, lideranças improvisadas e ausência de critérios claros de decisão transformam pessoas em potenciais focos de conflito. Nesse cenário, o risco deixa de ser apenas operacional e passa a ser jurídico: falhas de comunicação, promessas não alinhadas, decisões tomadas sem respaldo contratual ou estratégico.

O atendimento ao cliente também sofre. Paradoxalmente, o cliente que ajudou a empresa a crescer é o primeiro a sentir quando o crescimento desorganiza o padrão de entrega. Respostas tardias, expectativas frustradas e perda de proximidade corroem algo difícil de reconstruir: confiança. A reputação, no ambiente empresarial, costuma demorar anos para ser construída e poucos meses para ser comprometida.

Há ainda um elemento recorrente, o empresário como gargalo. No início, a centralização é vista como virtude. Com o tempo, torna-se obstáculo. Empresas que crescem rápido demais costumam depender excessivamente do fundador, que concentra decisões, validações e relações estratégicas. O resultado é previsível, a empresa cresce, mas não se emancipa.

É nesse ponto que muitos conflitos chegam ao mundo jurídico. Não porque o empresário tenha agido de má-fé, mas porque cresceu sem antecipar as consequências jurídicas das próprias decisões. Contratos genéricos, ausência de governança, estruturas societárias frágeis e processos mal definidos transformam crescimento em passivo oculto.

Crescer é necessário. Crescer rápido pode ser uma oportunidade. Mas crescer sem estrutura costuma cobrar um preço alto do pela perspectiva financeira, reputacional, jurídica e emocional. O verdadeiro desafio empresarial não está em acelerar, mas em sustentar.

Talvez seja hora de revisitar uma premissa pouco popular: nem todo crescimento é saudável. Em muitos casos, maturidade não é frear, é organizar o caminho antes que a velocidade torne impossível qualquer correção.