Ricardo Leitão escreve sobre Onda azul na América Latina: vitórias da direita na Colômbia e no Peru aumentam pressão sobre as eleições no Brasil
Ricardo Leitão | Publicado em 06/07/2026, às 09h10 - Atualizado às 10h44
A vitória de candidatos conservadores na Colômbia e no Peru reforça a chamada "onda azul" na América Latina, reduzindo os governos de esquerda na região a Brasil e Uruguai.
O artigo analisa as possíveis razões para essa mudança política e discute os reflexos do cenário regional na disputa presidencial brasileira.
Também aborda a influência de Donald Trump, os desafios enfrentados por Flávio Bolsonaro e a estratégia de Lula diante do novo contexto.
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
As vitórias eleitorais de Abelardo de La Espriella, na Colômbia, e de Keiko Fujimori, no Peru, para as presidências de seus países, parecem confirmar a onda política conservadora que se espalha na América Latina, a menos de cem dias das eleições presidenciais no Brasil.
Em 2022, quando Luíz Inácio Lula da Silva foi eleito, Argentina, Bolívia, Chile, Guiana, Peru, Venezuela e Colômbia eram governados pela esquerda – o que se convencionou chamar de onda vermelha.
Quatro anos depois, a agora denominada onda azul deu o troco: apenas o Brasil e o Uruguai continuam governados pela esquerda.
Embora majoritariamente expressiva, a onda azul não é avassaladora.
Nos casos da Colômbia e do Peru, por exemplo, as disputas foram acirradas e só resolvidas no segundo turno por margens mínimas. Os partidos de oposição estão preservados e em condições de atuar no Congresso.
O maior risco é a instabilidade política, sempre presente, do que o Peru é um caso incomparável. O último presidente do país a cumprir integralmente o mandato foi Ollanta Humala (2011-2016). Desde então, quatro presidentes acabaram destituídos pelo Congresso e outros três renunciaram. Keiko Fujimori é filha de Alberto Fujimori, ditador do Peru de 1990 a 2000, preso por corrupção e responsável pela morte de milhares de opositores.
As vitórias da filha do ditador e de Espriella, tido na Colômbia como um ultradireitista, entusiasmaram Flávio Bolsonaro, candidato da direita à presidência no Brasil. “As nossas alianças continuam triunfando em toda a América Latina. É a vitória do bem contra o mal”, comemorou Bolsonarinho, como é carinhosamente tratado pelos íntimos.
Donald Trump também festejou, na Casa Branca. “Espriella estava em décimo lugar nas pesquisas e cresceu quando recebeu o nosso apoio”.
O que explica o recuo da esquerda na América Latina?
É assunto para teses de mestrado e doutorado. No entanto, para observadores menos letrados das demandas mais urgentes da população pobre, haveria respostas evidentes à questão: sucessivos governos esquerdistas e progressistas não conseguiram resolver, nos diversos países, problemas crescentes de desemprego, segurança, migração, corrupção, educação e saúde.
São temas de destaque em todas as pesquisas, reclamados pelos eleitores das classes C e D, que a direita soube e sabe trabalhar melhor em suas campanhas do que a esquerda.
O exemplo da Venezuela é dramático.
Com as maiores reservas de petróleo do mundo, o regime que governou o país por décadas provocou uma crise econômica, social e humanitária sem precedentes. Seu ápice foi o sequestro do líder chavista Nicolás Maduro, preso de pijamas, por forças especiais dos Estados Unidos.
Maduro está encarcerado em Nova York, acusado de tráfico de drogas, e a Venezuela transformada em protetorado norte-americano, sob controle econômico de multinacionais do petróleo.
É possível afirmar que a onda azul conservadora vai afogar o Brasil e, se não afogar, isolar o país no contexto da América Latina? Não há dúvidas que esse é o objetivo de Flávio Bolsonaro, compartilhado com o seu mentor, o presidente dos Estados Unidos.
Trump apoia a direita brasileira desde 2018, na eleição de Jair Bolsonaro; atuou em favor de Espriella, na Colômbia, e de Javier Milei, na Argentina, presidentes de dois dos mais importantes países da região; decretou um tarifaço em protesto à prisão do golpista Jair Bolsonaro e, em entrevista, alertou os interessados. “O Brasil se tornou um país complicado politicamente. Um pouco perigoso, desagradável”.
Apesar da ameaça, não existem, no momento, condições políticas de Trump intervir na eleição presidencial brasileira, embora seja igualmente certo que não vai despentear um fio de sua cabeleira em favor de Lula. Fechará com a oposição ao petista, qualquer que seja ela. Isso pode ser bom ou ruim para a direita. Bom, no caso de a pressão trumpista contribuir para o cerco da onda azul ao Brasil; ruim, se o eleitor brasileiro identificar a pressão de Trump como um ato contra a soberania do País.
Esse mote precioso já foi incorporado aos discursos de Lula que, em privado, trata Trump como “imperador”.
Em seus negócios, inclusive os políticos, é sabido que o presidente norte-americano não gosta de perdedores. O clã Bolsonaro também sabe disso.
A menos de cem dias das urnas presidenciais de outubro, o candidato Flávio Bolsonaro precisa mostrar que pode vencer a eleição. Sua campanha hoje enfrenta uma grave crise, com a decisão de sua madrasta, Michelle, de se negar a apoiá-lo; ele derrapa nas pesquisas e o dinheiro para eventos começa a minguar. Falta apoio do eleitorado feminino e entre os evangélicos.
E seu envolvimento com a fraude do Banco Master está sendo investigado pela Polícia Federal. Com certeza, nada disso escapa do escrutínio de Trump. Como também não escapa dos olhos veteranos de Lula. Aos 80 anos, o presidente do Brasil assume a liderança de uma frente que tem o dever de impedir que a direita dos porões retome o poder. A onda azul não vai afogar o Brasil.