Ricardo Leitão | Publicado em 11/06/2026, às 09h40 - Atualizado às 09h50
No próximo dia 16, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) vai iniciar o julgamento do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, acusado de conspirar contra os interesses do Brasil.
Ao lado de militantes da extrema direita, ele apoiou o tarifaço de Donald Trump e coagiu autoridades brasileiras que atuaram no processo que condenou seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a 27 anos e 3 dias de prisão, por tentativa de golpe de Estado. Do grupo do ex-deputado faz parte o jornalista Paulo Figueiredo, neto do general João Figueiredo, último ditador-presidente.
Para coroar seu desempenho, Eduardo Bolsonaro gravou um vídeo em que defende a troca do Pix, usado por milhões de brasileiros, pelo Zelle. Trata-se de um sistema de pagamento norte-americano que é mais lento do que o criado pelo Banco Central do Brasil, exige que se abra uma conta em um grande banco, cobra tarifas e tem uso restrito. A proposta da troca teve repercussão tão negativa que o clã Bolsonaro e aliados correram para desmenti-la, alegando "um mal-entendido". À frente das mesuras o senador Flávio Bolsonaro, candidato da direita à Presidência da República.
Caso seja condenado pelo STF, Eduardo Bolsonaro pode pegar até 2 anos de prisão. Refugiado em Washington, vivendo de rendimentos desconhecidos, ele foi cassado por faltas às sessões da Câmara dos Deputados. Afirma que não retornará ao Brasil e que a sua "missão" é servir de ponte entre a direita tupiniquim e a direita trumpista.
A conspiração, de pernas internacionais como se vê, é uma das marcas características do clã Bolsonaro e, sem dúvida, estará presente na campanha presidencial. Campanha que, a rigor, já se desenvolve desde janeiro de 2023, quando Jair Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado para permanecer no poder e derrubar o presidente eleito em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de provocar a radicalização política e colocar o País sob o risco de uma guerra civil, o ex-presidente golpista fugiu para os Estados Unidos e está preso em Brasília. É o modelo do filho Flávio, que apoiou a tentativa de golpe do pai e agora se apresenta como um "moderado".
Além do pai, que mantém a direita sob rédea curta, outro grande problema do filho é o seu envolvimento em episódios antidemocráticos. Ele comemorou a decisão de Donald Trump de classificar como terroristas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), desmemoriado das ligações dos Bolsonaro com o crime organizado, principalmente no Rio de Janeiro, base eleitoral do clã.
Está registrado nos anais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a sua iniciativa de conceder a Medalha Tiradentes ao ex-PM Adriano da Nóbrega. A medalha é a maior homenagem do Poder Legislativo, e Nóbrega, pistoleiro disputado, líder do Escritório do Crime. Prestador de serviços ao PCC e ao CV, o ex-PM foi assassinado no interior da Bahia, em típica operação de queima de arquivo.
Outro registro da trajetória histórica do clã: em 2024, o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Barcellar, aproximou-se de Flávio Bolsonaro, almejando substituir Cláudio Castro no governo do Rio de Janeiro.
As tratativas iam tão bem que Barcellar recebeu do clã uma medalha com os dizeres: "Imorrível, imbatível e imbrochável". Não deu certo. Logo depois o futuro pretenso governador foi preso, suspeito de participar de organizações criminosas e de vazar informações policiais para o Comando Vermelho. Não recebeu qualquer solidariedade dos Bolsonaro, outra conhecida marca do clã.
A última conspiração contra a democracia envolve o maior escândalo bancário da história do Brasil, um golpe estimado em R$ 60 bilhões. Flávio Bolsonaro conseguiu que Daniel Vorcaro, líder da fraude, financiasse a produção de um filme laudatório sobre o seu pai.
Vorcaro se comprometeu com R$ 134 milhões e já tinha desembolsado R$ 62 milhões quando foi preso pela Polícia Federal. Na degravação dos diálogos entre os dois, em celulares, o presidenciável trata o ex-banqueiro como "meu irmão".
No entanto, o conjunto da obra por enquanto não impede que Flávio Bolsonaro permaneça como o candidato da direita mais competitivo frente à reeleição de Lula.
Seu envolvimento com a bilionária corrupção de Daniel Vorcaro deve lhe custar votos junto a eleitores atentos a questões éticas, como os evangélicos. Porém seriam perdas a ser compensadas pelos eleitores antipetistas, que dão apoio a qualquer nome que mostre capacidade de derrotar a aliança liderada pelo PT. Contudo, ainda faltam três meses para a eleição e é preciso que as tendências se firmem.
Além do antipetismo, o que tem o presidenciável da direita para conquistar os eleitores? Nas raras vezes em que ele falou sobre o programa de governo, o que se ouviu foram ideias liberais vagas e esquemáticas, com algumas soluções genéricas para a dívida pública.
A elite econômica que ainda o apoia quer muito mais: se ver livre de impostos; distância da onda de ajustes fiscais; títulos de investimentos subsidiados; reserva de mercados. Por seu lado, o Congresso não quer engessamento de despesas e, acima de tudo, mudanças nas sagradas emendas parlamentares.
Com essa receita, o Brasil não avançará. Haverá, sim, avanço político, social e econômico se o novo governo tiver articulação social, apoios sólidos, unidade, compromisso com os interesses da maioria e sustentação por forças capazes de acelerar as mudanças. Flávio Bolsonaro, seu clã e suas alianças têm condições de enfrentar tamanhos desafios, em meio a uma conjuntura nacional e internacional desafiadora? Não têm condições, nem capacidade, nem quadros para governar.
Uma aliança de centro-esquerda, encabeçada por Lula, tem capacidade e quadros para assegurar o melhor caminho para o futuro do Brasil. Mas faltam, no momento, as melhores condições macroeconômicas, que estão sendo buscadas, para impedir que a direita golpista volte a governar o País. Essa é uma luta não só dos candidatos que disputarão os votos, mas de todos comprometidos com o fortalecimento da democracia.
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