Ricardo Leitão | Publicado em 26/01/2026, às 07h23 - Atualizado às 07h47
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
Para celebrar o primeiro ano de seu governo, Donald Trump lançou, no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, o chamado Conselho da Paz.
A nova instituição teria como objetivo atuar em conflitos internacionais e começaria pela guerra entre Israel e a Palestina, na Faixa de Gaza.
Trump será presidente vitalício do Conselho e o único membro com poder de veto.
Cerca de 80 países foram convidados a participar. Até agora, o único de maior peso político e econômico a aceitar foi a Arábia Saudita, uma tirania dinástica.
Na América do Sul, apenas a Argentina aderiu, sempre subordinada aos interesses de Trump.
A adesão ao Conselho da Paz não é barata: custa 1 bilhão de dólares (cerca de R$ 5,5 bilhões).
Vladimir Putin, que há quatro anos bombardeia a Ucrânia, foi convidado. Já os palestinos de Gaza, massacrados pelos mísseis israelenses, não.
A maioria dos países relevantes — especialmente os europeus — não assinou o documento de criação do Conselho.
A avaliação é óbvia: trata-se de mais uma iniciativa de Trump para esvaziar a Organização das Nações Unidas (ONU) e alimentar sua própria egolatria no cenário internacional.
Trump também anunciou o desejo de ocupar a Faixa de Gaza com um megaprojeto imobiliário, a ser executado ao longo de 25 anos.
O plano inclui centenas de prédios, hotéis, resorts, empresas de alta tecnologia, porto, aeroporto e uma ampla infraestrutura viária — o chamado New Gaza, algo semelhante a um resort mediterrâneo de luxo.
A ideia já foi sugerida por bilionários próximos ao presidente dos Estados Unidos.
A população palestina não foi ouvida, nem se sabe quem financiaria o empreendimento.
Mais grave ainda: o Conselho da Paz silencia sobre a principal e histórica questão do Oriente Médio — a criação de um Estado palestino soberano, com fronteiras reconhecidas internacionalmente.
Depois de Gaza, onde os bombardeios israelenses mataram cerca de 67 mil palestinos em dois anos, a “ONU fake” trumpista pretende atuar na Ucrânia.
No mesmo Fórum Econômico Mundial, Trump proclamou-se magnânimo e comprometido com o fim das guerras.
Anunciou, inclusive, que não vai mais invadir a Groenlândia, a maior ilha do mundo.
Seu argumento — falso — é que o território coberto de gelo seria vital para a segurança dos Estados Unidos, por poder cair sob controle da Rússia ou da China.
A Groenlândia tem 2 milhões de km², cerca de um quarto do tamanho do Brasil, e apenas 60 mil habitantes.
Há quase mil anos mantém vínculos históricos, culturais e econômicos com a Noruega e a Dinamarca.
A ilha integra a OTAN, a maior aliança militar do Ocidente, e é rica em petróleo, gás e minerais raros.
Também ocupa rotas marítimas estratégicas entre a Ásia e o Atlântico Norte — estes são os verdadeiros alvos da cobiça de Trump.
Diante da falta de confiança nas promessas do novo imperialismo, países da União Europeia mantiveram o sinal de alerta ligado.
Tropas foram deslocadas para a ilha em “exercícios de rotina”.
Ao mesmo tempo, líderes europeus avaliam retaliações, como excluir empresas norte-americanas do trilionário mercado consumidor europeu.
Resultado: ninguém levou a sério as “boas intenções” de Trump em relação à Groenlândia.
A relação entre Estados Unidos e Europa segue tensa.
Nada parece conter a truculência do presidente norte-americano, sustentada pelo poder militar, desprezo por acordos diplomáticos e desrespeito às normas internacionais.
O caso da Venezuela é exemplar.
Sem autorização do Congresso, Trump ordenou o bombardeio e a invasão do país, seguidos do sequestro do ditador Nicolás Maduro.
Surpreendido de pijama, Maduro está preso em Nova York, acusado de chefiar uma quadrilha de narcotraficantes.
Em Caracas, negociadores de Trump tratam do “mundo real”: exigem ressarcimento às petrolíferas norte-americanas estatizadas por governos venezuelanos.
Como pagamento inicial, já receberam 50 milhões de barris de petróleo.
Não se sabe o valor final da dívida — provavelmente será o que os Estados Unidos decidirem.
A Venezuela possui 300 bilhões de barris de petróleo, a maior reserva do mundo.
A caminho de se tornar um protetorado norte-americano, a Venezuela é apenas a mais recente vítima da escalada imperialista de Trump.
A lista inclui ameaças ao Canadá, bombardeios no Irã e na Nigéria, reivindicação do Canal do Panamá e pressões sobre Colômbia e México.
Também há interferência direta para derrotar candidatos de esquerda ao redor do mundo.
Na América Latina, a estratégia funcionou em países como Argentina, Chile, Peru e Equador, onde a direita governa ou governará em breve.
Trump agora mira a Colômbia, tentando enfraquecer o presidente Gustavo Petro.
No Brasil, sua posição ainda é indefinida.
Mantém distância dos Bolsonaro e evita declarações sobre a candidatura de Lula, embora o Planalto monitore possíveis interferências.
Sua arma mais eficiente segue sendo a manipulação de tarifas comerciais.
Facilidades ou barreiras variam conforme o grau de fidelidade ao novo imperialismo.
O Brasil já sente os efeitos.
O comércio internacional se desorganiza, bolsas e moedas oscilam e crescem dúvidas sobre desenvolvimento e emprego.
Na prática, ninguém ganha — como alerta a China.
Trump ignora os alertas e acredita que o tarifaço fará os Estados Unidos “grandes outra vez”.
Resta saber até onde ele irá nos três anos restantes de mandato.
Trump se comporta como um imperador deslocado no século 21.
Cercado por assessores medíocres, apoiado por forças armadas e um Congresso conservador, despreza ciência, meio ambiente e pesquisas de opinião.
Sua popularidade cai.
Retirou os EUA da OMS e da OMC e lidera uma perseguição brutal a imigrantes, que já resultou em mortes em vias públicas.
Trump diz que voltará ao auge ao ser ovacionado durante a Copa do Mundo, em junho, com jogos em cidades norte-americanas.
Em seus delírios imperiais, talvez promova até um amistoso na Groenlândia.
Com a bandeira dos Estados Unidos fincada no gelo, ele será juiz e treinador dos dois times.
Porque Donald Trump, afinal, nunca pode perder.
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