Polícia Civil identificou contradições em depoimentos e indiciou secretária e motorista por falsa comunicação de crime
por Plantão Jamildo.com
Publicado em 18/05/2026, às 16h39
Polícia concluiu que atentado denunciado foi forjado
Secretária e motorista foram indiciados pela investigação
Prefeitura do Cabo afastou os dois servidores
Centro das Mulheres divulgou nota sobre o caso
A Polícia Civil de Pernambuco concluiu que o atentado a tiros relatado pela então secretária executiva da Mulher do Cabo de Santo Agostinho, Aline Melo, em março deste ano, foi forjado. O inquérito apontou inconsistências nos depoimentos e indiciou a gestora e o motorista Ewerton Eduardo por fraude processual, denunciação caluniosa e falsa comunicação de crime. Após a conclusão da investigação, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho informou o afastamento dos dois servidores.
O caso aconteceu no dia 27 de março, na rodovia PE-28, no sentido litoral do município da Região Metropolitana do Recife. Na ocasião, Aline Melo afirmou ter sido vítima de um atentado motivado por violência de gênero. Um disparo atingiu a janela traseira do veículo, no lado em que ela estava sentada.
De acordo com a delegada Myrthor Andrade, responsável pelas investigações, a polícia passou a desconfiar da versão apresentada após a análise de imagens de câmeras de segurança instaladas ao longo do trajeto percorrido pelo veículo.
Segundo a investigação, um dos vídeos mostra um encontro de aproximadamente 17 segundos entre o carro onde estavam a secretária e o motorista e uma motocicleta apontada inicialmente pelos dois como envolvida no suposto atentado.
Nos primeiros depoimentos, Aline Melo e Ewerton Eduardo afirmaram que uma motocicleta com características específicas, incluindo farol de LED, teria tentado ultrapassar o veículo pelo acostamento antes dos disparos.
A polícia identificou, no entanto, que a motocicleta pertence ao pai do motorista. O nome dele não foi divulgado pelas autoridades.
“Em uma das imagens que nós capturamos, o carro onde estavam essas duas vítimas estacionou na banqueta, um pouco antes de onde aconteceu o fato, e se encontrou com uma moto com as características que eles inicialmente tinham dado no depoimento”, afirmou a delegada.
Ainda segundo Myrthor Andrade, o pai do motorista negou inicialmente ter passado pelo trecho registrado nas imagens. Posteriormente, os envolvidos afirmaram que o encontro teria ocorrido para a entrega de uma caixa contendo canetas emagrecedoras, que seriam comercializadas pelo motorista.
A delegada destacou que a informação sobre o encontro não havia sido apresentada nos primeiros depoimentos e classificou a omissão como relevante para o andamento das investigações.
“O pai do motorista, ao ser questionado uma segunda vez, disse que realmente era ele ali naquela moto, mas afirmou que foi pegar uma entrega com o filho dele. Em momento nenhum contaram sobre esse encontro, que não é um pequeno detalhe”, declarou.
Questionado pela polícia, o motorista preferiu permanecer em silêncio. Já Aline Melo afirmou posteriormente que lembrou do momento em que o motociclista teria entregue um pacote ao condutor do veículo.
O pai de Ewerton Eduardo também foi indiciado. Segundo a Polícia Civil, ele responderá por tentativa de homicídio por ter efetuado os disparos de arma de fogo durante a ação.
“Houve dois disparos de arma de fogo e, analisando um dos disparos, se existisse um erro a mais, poderia ter atingido um dos passageiros. Isso a gente chama de dolo eventual, em que ele aceitou o risco”, afirmou a delegada.
A polícia não informou qual teria sido a motivação para a suposta simulação do atentado.
Em nota, a Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho informou que determinou o afastamento da secretária e do motorista enquanto as investigações seguem em andamento.
“A prefeitura reforça que acompanhará o andamento das investigações e, caso haja confirmação de conduta irregular e responsabilização dos envolvidos, adotará todas as medidas administrativas cabíveis. A gestão municipal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e o respeito à população”, afirmou a administração municipal.
O Centro das Mulheres do Cabo também se manifestou sobre o caso. Em nota pública, a entidade afirmou ter recebido “com surpresa” as informações divulgadas pela Polícia Civil e disse que situações desse tipo geram impactos negativos para a luta em defesa dos direitos das mulheres.
A organização destacou ainda que atua há 42 anos na defesa das mulheres e afirmou que episódios dessa natureza contribuem para ampliar o descrédito enfrentado por políticas públicas voltadas ao combate à violência de gênero.
“Manifestamos nossa preocupação e reafirmamos a importância da ética, da verdade e da responsabilidade no fortalecimento das políticas públicas e da luta em defesa das mulheres”, concluiu a entidade.