Frente Popular teme bloqueios a eleitores no Grande Recife e aciona TRE e PF; campanha cita caso da PRF em 2022

PSB pede medidas preventivas contra blitzes e bloqueios que possam dificultar acesso às urnas; não há comprovação pública de operação neste sentido

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 01/10/2026, às 19h56 - Atualizado às 20h09

João Campos fala ao microfone enquanto sorri. Ao fundo Carlos Costa e Victor Marques também sorriem. Mais ao fundo escrito "chega junto pernambuco"
PSB recorre ao precedente das eleições de 2022, quando ações da PRF no Nordeste entraram na investigação sobre tentativa de impedir eleitores de votar e resultaram em condenações no STF - Edson Holanda

A Frente Popular acionou TRE-PE e Polícia Federal para pedir medidas contra eventuais bloqueios de trânsito no Grande Recife no domingo (4)

A coligação de João Campos diz ter recebido informações sobre possíveis operações, mas ressalta que não atesta a veracidade delas

O pedido usa como precedente as ações da PRF no Nordeste nas eleições de 2022

A possibilidade de operações de trânsito dificultarem a chegada de eleitores às urnas no Grande Recife levou a Frente Popular de Pernambuco, coligação do candidato ao Governo João Campos (PSB), a acionar o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) e a Polícia Federal na reta final das Eleições 2026.

Os pedidos foram apresentados nesta quinta-feira (1º) e buscam medidas preventivas para assegurar o livre deslocamento dos eleitores no primeiro turno, marcado para domingo (4).

A iniciativa recupera um episódio que marcou as eleições presidenciais de 2022: as operações realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), principalmente no Nordeste, no segundo turno da disputa entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro.

Há, porém, uma diferença fundamental entre os dois episódios. Em Pernambuco, até o momento, não há comprovação pública de que forças de segurança estejam preparando bloqueios destinados a prejudicar o deslocamento de eleitores.

A própria Frente Popular afirma, no documento encaminhado à Polícia Federal, que não atesta a veracidade das informações recebidas nem atribui, neste momento, responsabilidade a autoridades estaduais. O pedido tem caráter preventivo.

O que a campanha de João Campos alega

Segundo a coligação, chegaram à campanha informações sobre a possibilidade de realização de um número elevado de blitzes e operações de fiscalização no domingo, especialmente no Recife e na Região Metropolitana.

A Frente Popular sustenta que operações desse tipo, dependendo da localização, duração e intensidade, poderiam provocar retenções no trânsito e dificultar a chegada dos eleitores às seções.

No pedido encaminhado ao TRE-PE, a coligação solicita que o tribunal oficie a Secretaria de Defesa Social (SDS), a Polícia Militar — incluindo o Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) —, a Polícia Civil, o Detran-PE e órgãos municipais de trânsito.

A intenção é obter uma orientação para que blitzes, barreiras e bloqueios não prejudiquem a circulação de eleitores.

A campanha pede ainda que abordagens sejam concentradas em situações como flagrante delito ou risco concreto e iminente à vida ou à integridade física.

PF é acionada para acompanhar eventuais denúncias

Em outra frente, a coligação pediu à Superintendência da Polícia Federal em Pernambuco reforço das equipes de plantão eleitoral no Recife e na Região Metropolitana.

A solicitação é para que eventuais denúncias sobre bloqueios ou barreiras sejam verificadas imediatamente.

Caso alguma operação capaz de prejudicar o exercício do voto seja constatada, a Frente Popular pede que a PF identifique os responsáveis pela ordem e pela execução da medida e comunique os fatos à Justiça Eleitoral.

Também solicita a preservação de documentos e registros que possam servir para eventual investigação, entre eles ordens de serviço, escalas, planos operacionais, comunicações por rádio e imagens de câmeras.

Até o momento, os documentos apresentados representam pedidos da coligação. Não significam que o TRE-PE tenha reconhecido a existência de um plano de bloqueios nem que tenha determinado as medidas solicitadas.

O precedente de 2022

A campanha de João Campos usa como principal precedente o que ocorreu no segundo turno da eleição presidencial de 2022.

Naquele ano, operações da Polícia Rodoviária Federal foram realizadas em rodovias, com concentração de ações no Nordeste, região onde Lula tinha maior apoio eleitoral.

O episódio passou a ser investigado como parte das ações destinadas a dificultar o deslocamento de eleitores. Posteriormente, o caso foi incorporado às investigações sobre a tentativa de golpe de Estado.

Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou integrantes do chamado Núcleo 2 da trama golpista. Entre eles estava o então diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques.

Vasques recebeu pena de 24 anos e seis meses de prisão. Marília Alencar, ex-diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, foi condenada a oito anos e seis meses. O STF apontou que ela participou do levantamento de dados utilizados para embasar abordagens da PRF no segundo turno de 2022.

TSE criou regras para evitar bloqueios em 2026

O precedente de 2022 também levou a Justiça Eleitoral a estabelecer regras específicas para as eleições deste ano.

Portaria conjunta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Ministério da Justiça determina que a atuação da PRF nos dias 4 e 25 de outubro priorize a segurança, a fluidez do trânsito e a livre circulação dos eleitores.

A norma estabelece que operações não podem representar obstáculo indevido ao deslocamento para os locais de votação e determina que sejam evitados bloqueios ou retenções capazes de comprometer injustificadamente o fluxo de eleitores.

As regras alcançam a PRF e outros órgãos federais de segurança. É justamente a adoção de cautelas semelhantes pelas forças estaduais e municipais que a Frente Popular pretende obter do TRE-PE.

Disputa política entra na reta final

O movimento ocorre em uma eleição estadual apertada e amplia a disputa entre João Campos e a governadora Raquel Lyra (PSD) para o terreno jurídico e institucional.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (1º) mostrou Raquel com 50% dos votos válidos e João com 47%. A diferença está dentro da margem de erro de três pontos percentuais, caracterizando empate técnico.

Nesse cenário, a Frente Popular procura antecipar uma eventual controvérsia sobre o deslocamento dos eleitores no domingo.

Até agora, entretanto, o que existe formalmente é um pedido preventivo da coligação de João Campos. Não há decisão do TRE-PE confirmando risco de bloqueios nem evidência pública de que o Governo de Pernambuco ou forças estaduais tenham determinado operações destinadas a impedir ou dificultar o exercício do voto.