Acusações de "Fura Fila" x "Fura Teto" geram maior tensão em 1º debate pelo Governo de Pernambuco

Com críticas entre Ivan Moraes, João Campos e Raquel Lyra, momento de maior tensão ocorreu durante pergunta de Raquel Lyra sobre concursos públicos

Cynara Maíra

por Cynara Maíra

Publicado em 11/09/2026, às 12h30 - Atualizado às 13h23

Montagem de 3 fotos lado a lado. Raquel Lyra, João Campos e Ivan Moraes
Hesíodo Góes/GOV PE- Edson Holanda/João Campos- Paloma Keise/Comunicação PSOL-PE. Montagem: Jamildo.com

Nesta sexta-feira (11), ocorreu o primeiro debate entre os três principais candidatos ao Governo de Pernambuco na eleição de 2026. Apesar de manter-se respeitoso comparado a debates populares nos últimos anos, o embate entre João Campos (PSB), Raquel Lyra (PSD) e Ivan Moraes (PSOL) teve diversas críticas entre os candidatos. 

João Campos e Raquel Lyra apresentaram suas ações como gestores, o socialista na Prefeitura do Recife e a governadora no Estado de Pernambuco. Além de citar os feitos, ambos fizeram diversas alfinetadas contra o outro.

Buscando alcançar um eleitorado que não deseja a polarização João Campos X Raquel Lyra, Ivan Moraes utilizou o debate em tom divertido com sarcasmo contra os dois adversários e se apresentando como a alternativa contra o que chamou de "herdeiros" de dinastias e grupos políticos tradicionais. 

"Eu não preciso escolher entre dois herdeiros... o ex-prefeito da capital não gosta de discutir o passado porque desde que ele se entende por gente ele é poder, desde que ele se entende por gente ele é governo", criticou Ivan.

Ivan Moraes pergunta do Governo Bolsonaro para Raquel Lyra, que desconversa e cita atritos do PSB com ex-presidentes

Ivan chegou a tentar colocar a governadora Raquel Lyra em uma posição desconfortável ao perguntar sobre o que ela achava do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), momento em que a gestora preferiu defender suas ações como gestora. 

Raquel retrucou criticando a postura histórica do PSB. "O governo do PSB anterior ao nosso, ele brigou com três presidentes da República. Brigou com Temer e com o Bolsonaro, com Dilma... Eu fui a Brasília mais de 150 vezes construir relação sólida de trabalho e de entrega, que é isso que interessa pro nosso povo", rebateu a governadora.

Apesar de citar de maneiras pontuais ao longo de suas falas, o ex-vereador do Recife também fez críticas a João Campos, principalmente ao vinculá-lo com a gestão do ex-governador Paulo Câmara. 

A maioria das alfinetadas do psolista tinham ambos os adversários como alvos, como quando citou o uso de seleções simplificadas em cargos públicos, tanto do Governo de Pernambuco quanto da Prefeitura do Recife. 

O confronto entre "Fura-Fila" e "Fura-Teto" entre João Campos e Raquel Lyra

João Campos e Raquel Lyra também usaram seus momentos para criticar um ao outro, deixando Ivan mais de lado, os adversários apresentavam suas respectivas gestões enquanto criticavam posições do outro. 

Fura fila?

O maior momento de tensão ocorreu quando Raquel perguntou para João Campos sobre concursos públicos. Sem citar diretamente, a gestora queria alfinetar o socialista sobre a polêmica do concurso para Procurador do Recife, quando um candidato em posição 63 na ampla concorrência foi nomeado na vaga para pessoas com deficiência após apresentar laudo de transtorno do espectro autista (TEA), após a realização do certame.

O caso foi resolvido pela própria Procuradoria, que retomou a posição a um candidato com deficiência física, mas gerou diversas especulações na oposição sobre favorecimento irregular. A situação fez com que vereadores adversários apelidassem o caso de "fura fila" e tentassem o impeachment de João Campos, sem sucesso e com baixo número de votos. 

Ao responder à pergunta, desviando do caso da Procuradoria do Recife e focando em suas propostas para o funcionalismo público, João citou que participou de um debate do sindicato dos policiais ao qual Raquel faltou, prometendo contratar mais de 8 mil policiais militares, recompor a Polícia Civil e abrir delegacias 24 horas. Ele também destacou a nomeação de mais de 5 mil profissionais de saúde no Recife e voltou a criticar o estado pela demissão de mais de 100 professores temporários antes do Enem.

Fura teto? 

Após Raquel rebater afirmando ter nomeado mais de 26 mil concursados e garantido que nunca cometeu irregularidades, João concluiu sua declaração na tréplica disparando contra a adversária e afirmando que Raquel Lyra era "fura-teto".

"Você sabia que a candidata Raquel é fura teto? Você sabia que a candidata que declarou R$ 1 na sua conta corrente recebe três vezes mais do que o salário do governador, que isso tem indícios claros de inconstitucionalidade... Se colocar tudo que recebeu nesse período dá mais de R$ 1 milhão de reais de forma inconstitucional... Eu queria fazer um apelo à candidata Raquel, que ela pudesse devolver ao povo de Pernambuco esse R$ 1 milhão de reais", declarou o candidato do PSB, gerando pedido de direito de resposta.

A campanha da governadora Raquel Lyra também se pronunciou sobre o caso, após a assessoria de João Campos apresentar materiais para comprovar o suposto fura teto

Direito de resposta de Raquel Lyra no debate

Raquel Lyra recebeu direito de resposta no início do quinto bloco, após aval da banca jurídica da OAB. A governadora utilizou o tempo para rebater a acusação e defender sua trajetória no serviço público.

"Para você que está nos ouvindo, sabe muito bem da minha história. Eu, por concurso público, sem fura-fila, fui advogada do Banco do Nordeste, fui delegada da Polícia Federal e sou procuradora do Estado de Pernambuco desde 2005... Eu recebo o meu dinheiro de maneira honesta. Eu nunca fui sócia de negócio, não tenho investigações contra mim", afirmou.

João Campos questiona fechamento de leitos; Raquel cita fim da demanda da covid-19

No campo da saúde, João Campos abriu o confronto com Raquel questionando o fechamento de 1.200 leitos hospitalares no estado.

"No seu governo, 1.200 leitos de hospitais pernambucanos foram fechados. 150 mil cirurgias deixaram de ser realizadas... O que é que você diria para uma mãe de família que precisa de atendimento nesse momento?", indagou o socialista.

Raquel rebateu informando que as desativações corresponderam a estruturas temporárias da pandemia. "Os leitos fechados eram leitos Covid. E todo mundo sabe que depois da Covid precisava fechar leitos... Na Restauração, são 130 milhões de investimentos... Saúde é coisa séria. Não adianta ficar fazendo discurso", defendeu. A gestora também falou que está próximo de entregar mil leitos novos para saúde. 

Raquel, Ivan e João debatem sobre a questão hídrica e a Compesa 

O debate hídrico também mobilizou os três postulantes. Raquel defendeu o modelo de concessão da Compesa para atrair investimentos privados bilionários e acabar com a escassez de água: "A empresa não é para ser enquadrada, a empresa é para ser parceira e regulada... Fizemos a maior concessão pública do Brasil e isso é importante dizer, porque nós temos dia e hora para acabar com a sede no nosso estado".

João criticou a outorga e prometeu zerar a conta de quem enfrenta rodízio na tarifa social: "E até que a água chegue para os pernambucanos, quem está na tarifa social e está em situação de rodízio, vai ter a sua conta zerada... Vou estar na mesa com a empresa, vou enquadrar ela e vou dizer: aqui está um governador eleito pelo povo".

Ivan Moraes reiterou o posicionamento contrário a qualquer privatização: "A água é um direito humano. E direito humano não pode ser terceirizado para empresa comercial".

Nas considerações finais,  João Campos apelou à sintonia com o governo federal: "Eu estou ao lado do presidente Lula e ao lado dele nós vamos governar o Brasil e governar Pernambuco".

Ivan Moraes reforçou sua posição de independência e afirmou que estava "assustando a oligarquia". Já Raquel Lyra encerrou pedindo a confiança da população para a sequência do trabalho: "A gente pegou uma casa desarrumada e vocês sabem disso... E é mainha que vocês conhecem de perto".