STJ retoma curso de medicina para assentados da UFPE em mais uma saga de batalha judicial

STJ derrubou decisão do TRF5 que determinava a interrupção das aulas após o primeiro semestre. Curso de Medicina para assentados deve voltar em agosto

Cynara Maíra

por Cynara Maíra

Publicado em 23/05/2026, às 11h00 - Atualizado às 11h53

Prédio do curso de medicina do Centro Acadêmico do Agreste (CAA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Caruaru
Prédio do curso de medicina do Centro Acadêmico do Agreste (CAA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Caruaru - DIVULGAÇÃO/ UFPE

Vitória no STJ: O ministro Herman Benjamin restabeleceu o curso de Medicina da UFPE para assentados da reforma agrária no campus de Caruaru.

Retorno das Aulas: A decisão atenciona o pedido da AGU e garante o início do segundo semestre letivo para o dia 10 de agosto de 2026.

Derrubada do Bloqueio: A liminar suspendeu o veredito de março do TRF5, que obrigava a universidade a fechar a turma após o fim do primeiro semestre.

Argumentação Técnica: O STJ concluiu que a interrupção prejudicaria uma política pública de interiorização da saúde e causaria caos administrativo na organização interna da UFPE.

Histórico Turbulento: O projeto de R$ 18,6 milhões com o Incra sofreu três suspensões em 2025 devido a ações dos vereadores recifenses Tadeu Calheiros e Thiago Medina.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) garantiu a continuidade da turma especial de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) voltada a beneficiários da reforma agrária.

Na sexta-feira (22), o presidente da Corte, ministro Herman Benjamin, assinou a determinação após um pedido da Advocacia-Geral da União (AGU). A decisão do STJ derruba o entendimento do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5), que previa a interrupção das atividades letivas logo após o encerramento do primeiro semestre.

Com a decisão, os 80 estudantes da turma do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) retornam às aulas no dia 10 de agosto de 2026, no Centro Acadêmico do Agreste (CAA), em Caruaru.

O ministro Herman Benjamin justificou que a suspensão do curso comprometeria a execução de uma política pública federal e traria prejuízos administrativos severos à UFPE, afetando desde o planejamento acadêmico e a definição do corpo docente até a organização de laboratórios e estágios na rede pública de saúde.

A universidade e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estruturaram a formação por meio de um convênio de R$ 18,6 milhões.

O público-alvo engloba assentados, acampados, quilombolas e beneficiários do crédito fundiário. Segundo o presidente do STJ, o programa atua para expandir o ensino superior e levar profissionais de saúde a áreas historicamente desassistidas e de difícil acesso no interior do país

A liminar mantém o funcionamento até o julgamento do processo principal em segunda instância, que definirá oficialmente a situação do curso. 

A saga da judicialização do curso de Medicina da UFPE com o Pronera

A turma de Medicina do Pronera em Caruaru já foi alvo de diversas liberações e suspensões judiciais desde o lançamento do edital, em setembro de 2025.

Entidades médicas, como o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) e o Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), fizeram diversas críticas aos critérios do processo seletivo. Cerca de três limares em primeira instância já suspenderam o processo.

As ações populares partiram dos vereadores do Recife Tadeu Calheiros (MDB) e Thiago Medina (PL).

Os parlamentares questionaram o formato de ingresso, que utilizou uma prova de redação e a análise do histórico escolar do Ensino Médio, sem a exigência do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou de provas objetivas de Química e Biologia.

Os críticos apontaram suposta ofensa ao princípio da isonomia. A UFPE defende a legalidade do modelo, explicando que o formato de cotas e vagas suplementares repete critérios já consolidados em seleções específicas, como os vestibulares indígena e quilombola.

Veja a linha do tempo do impasse:

  • 10 de setembro de 2025: UFPE publica o edital para as 80 vagas suplementares de Medicina.

  • 1º de outubro de 2025: Justiça Federal suspende a seleção pela primeira vez, após ação de Tadeu Calheiros.

  • 7 de outubro de 2025: O TRF5 cassa a liminar local e autoriza a retomada do certame.

  • 8 de outubro de 2025: Uma nova liminar da 9ª Vara Federal, provocada por Thiago Medina, trava o edital outra vez.

  • 10 de outubro de 2025: O desembargador Fernando Braga Damasceno, do TRF5, invalida a nova suspensão e restabelece o concurso por litispendência.

  • 25 de novembro de 2025: O reitor Alfredo Gomes divulga o resultado final com os 80 aprovados de todo o país.

  • 3 de dezembro de 2025: A UFPE realiza a aula inaugural do curso pioneiro no campus de Caruaru.

  • 10 de março de 2026: O TRF5 muda o posicionamento anterior e determina que a graduação pare de funcionar após o término do primeiro semestre letivo.

Durante todo o período de disputa, a reitoria da UFPE rechaçou a possibilidade de fraudes nas inscrições, ao citar o processo de triagem documental pelo Incra, limitando o acesso estritamente a candidatos previamente cadastrados nas bases de dados das políticas agrárias do governo federal.