Sindicato reclama que Metrôrec comprou trens velhos por preço de novos e pagou R$ 60 milhões

Governo Lula quer melhorar condições operacionais do Metrôrec trazendo 6 trens de Minas, mas sindicato aponta que são velhos e podem dar problemas

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 24/04/2026, às 13h36 - Atualizado às 14h46

Sindicalista Luis Soares, do Metroviários, em campanha no Recife
Luis Soares, em assembleia com metroviários, no Recife - Blog Imagem/Jamildo.com

O SINDMETRO-PE levanta suspeitas sobre a compra de trens usados para o metrô do Recife, apontando possível má gestão de recursos.

Segundo a entidade, seis composições estariam sendo adquiridas por cerca de R$ 60 milhões, apesar de indícios de valores anteriores muito menores.

O sindicato questiona também a concessão do sistema, vista como privatização, e possível conflito envolvendo o Grupo Comporte.

Há críticas à idade dos trens, com mais de 30 anos, e ao uso de tecnologia considerada ultrapassada no Recife.

Para o SINDMETRO-PE, a operação pode elevar custos, reduzir eficiência e afetar a qualidade e segurança do serviço.

O Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (SINDMETRO-PE) afirma ter reunido um conjunto de evidências que reforçam uma série de questionamentos envolvendo a aquisição de trens usados para o metrô do Recife.

"Os dados levantam sérias dúvidas sobre a gestão dos recursos públicos e apontam para uma farra com dinheiro público nos trilhos do Recife", diz a entidade.

As informações sobre os valores vieram a público durante audiência pública promovida pelo BNDES, realizada no Recife, quando foi apresentado o modelo de concessão do sistema metroviário.

Na ocasião, o presidente do SINDMETRO-PE, Luiz Soares, criticou o processo de concessão — interpretado pelo sindicato como uma forma de privatização — e questionou a decisão de adquirir composições ferroviárias usadas como solução para o sistema.

De acordo com os dados apresentados, seis composições oriundas de Belo Horizonte estariam sendo adquiridas por aproximadamente R$ 60 milhões. Quatro delas iriam para a operação diária, e duas outras ficariam sendo usadas como reserva técnica das demais. 

Em informe ao site Jamildo.com, o sindicato afirma ter indícios de que esses mesmos trens já teriam sido negociados anteriormente por valores significativamente inferiores, próximos de R$ 2 milhões, destinados inclusive a ferro-velho.

Os documentos oficiais, repassados ao site, mostram que as máquinas já foram amortizadas e valem R$ 3 milhões nos balanços oficiais dos vendedores.

A discrepância, segundo a entidade, reforça suspeitas sobre os critérios adotados na operação.

O SINDMETRO-PE também chama atenção para o histórico recente dessas composições.

"O sistema de Belo Horizonte teria sido adquirido anteriormente pelo Grupo Comporte por cerca de R$ 26 milhões, e agora parte desses ativos — seis composições de um total de vinte e quatro, com mais de 30 anos de uso — estaria sendo revendida ao Governo Federal por aproximadamente R$ 60 milhões", comparam.

Nas duas pontas?

Em outro suposto contrassenso, o sindicato aponta a possibilidade de o próprio Grupo Comporte participar da futura concessão do metrô do Recife.

"(em se confirmando, a situação...) criaria um cenário que precisa ser mais bem esclarecido, considerando o envolvimento simultâneo na venda de ativos e no interesse pela operação do sistema".

Diante das preocupações, o SINDMETRO-PE recorreu à Lei de Acesso à Informação e obteve documentos do Ministério das Cidades e da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU).

"Os registros confirmariam que as composições adquiridas têm mais de três décadas de uso, não se enquadrando, segundo o sindicato, na categoria de trens seminovos, mas sim de equipamentos antigos e tecnologicamente defasados", sustenta Luiz Soares.

Retrocesso técnico

Outro ponto de questionamento diz respeito à tecnologia dos veículos.

As composições provenientes de Belo Horizonte e Porto Alegre utilizam motores alternadores (MA), sistema já substituído no metrô do Recife desde 2006 devido a falhas operacionais e baixa confiabilidade.

Para o sindicato, a reintrodução dessa tecnologia representa um retrocesso técnico que pode impactar a segurança e a eficiência do sistema.

Trens antigos aumentam custos de manutenção

A entidade também destaca as condições climáticas da Região Metropolitana do Recife — como alta umidade e salinidade — que acelerariam o desgaste de equipamentos ferroviários, exigindo soluções mais modernas e resistentes.

"A utilização de trens antigos, nesse contexto, tende a aumentar custos de manutenção e a frequência de falhas operacionais", destacaram.

Para o SINDMETRO-PE, o conjunto das informações aponta para possíveis impactos diretos na operação, como atrasos, superlotação e redução da qualidade do serviço, além de riscos adicionais aos trabalhadores do sistema metroviário.

Em nota e manifestações públicas, o sindicato defende transparência nas decisões, revisão dos critérios de aquisição e ampla participação social.

A entidade sustenta que o transporte público deve ser tratado como direito social e não como ativo de mercado.

"A mobilização não se restringe a uma pauta corporativa, mas integra uma defesa mais ampla por um sistema de transporte público eficiente, seguro e acessível à população da Região Metropolitana do Recife".