Artigo: Tenebrosíssimas transações - por Ricardo Leitão

Investigações do caso do Banco Master esbarram em interesses políticos próximo ao período eleitoral; banco já manteve transações com empresa ligada ao PCC

Ricardo Leitão | Publicado em 07/02/2026, às 07h07 - Atualizado às 07h39

Fachada do Banco Master
Instituição financeira já contratou escritório de ex-ministro do STF - Rovena Rosa/Agência Brasil

Ricardo Leitão comenta como o envolvimento de políticos e membros do judiciário pode ser um obstáculo nas investigações do Banco Master.

Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o caso pode se tornar a maior fraude da história do Brasil.

Daniel Vorcaro, ex-presidente do Master, havia contratado o escritório do ex-ministro do STF, Ricardo Lewandowski, e o ex-ministro da Fazenda, Guigo Mantega, por R$ 1 milhão de salário.

Para Ricardo Leitão, as investigações não beneficiam todos os membros dos poderes, devido o possível laço de Vorcaro com membros de gestões de Bolsonaro e Lula.

Sempre discreto em suas observações, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vem quebrando o hábito nos últimos tempos: “Isso tende a ser a maior fraude bancária da história do Brasil”, calcula. Ele se refere à liquidação do Banco Master, sediado no Rio de Janeiro, pelo Banco Central, que pode afetar 1,6 milhão de credores, em um montante de estimados R$ 50 bilhões.

As consequências da quebradeira alcançam todos os poderes da República, especialmente por seus efeitos políticos, em um ano de disputas eleitorais.

Já foi protocolada no Congresso a instalação de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), com o apoio de 238 deputados federais e 42 senadores, para apurar as fraudes financeiras atribuídas ao Master. A Polícia Federal continua as investigações, sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal, e o assunto permanece destacado na mídia.

Ao contrário das fraudes nos bancos Econômico, Nacional e Bamerindus, cujos proprietários não foram presos nem perderam suas fortunas, quais as chances, hoje, de punições aos donos do Master?

Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Master, é neto de um imigrante italiano que se fixou em Minas Gerais. Entrou no mercado financeiro em 2018 e sentou praça em Brasília, logo costurando uma rede de conexões que lhe permitiu abrir portas poderosas, por meio de eventos, parcerias, negócios e, principalmente, generosos empréstimos.

Nessas articulações contou com o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, contratado pelo banco como “consultor estratégico”, com um salário estimado em R$ 1 milhão mensais. Prestativo, Mantega conseguiu que o banqueiro fosse até recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem Vorcaro se queixou da “concentração do mercado financeiro”.

A ascensão fulgurante do banqueiro alertou o ofidiário de Brasília, e Vorcaro tratou de proteger seus costados.

Tinha problemas antigos: o Master, quando ainda se chamava Máxima, fez remessas de
R$ 2, 8 bilhões a uma empresa suspeita de lavar dinheiro para o PCC. E havia os problemas novos, decorrentes das suspeitas do Banco Central sobre suas operações.

Contratou então o escritório do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, por R$ 6,5 milhões, para tratar de questões tributarias. O ex-ministro, como se sabe, foi integrante do STF.

Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master, demonstrou igual competência nas articulações políticas. Nascido em família de classe média em Salvador, economista, ele aproximou-se dos governos do PT na Bahia, em 2017, quando Rui Costa atual ministro da Casa Civil, era governador do estado e tinha Jacques Wagner – hoje líder do governo no Senado – como secretário de Desenvolvimento Econômico.

As ligações políticas com a esquerda o aproximaram de Vorcaro, ao mesmo tempo que abriram espaço para entendimentos com a direita bolsonarista, então no poder.

Ficou próximo de João Roma, ministro da Cidadania; atraiu a atenção de Ciro Nogueira, presidente do PP, e de Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Vendeu sua parte no Master a Daniel Vorcaro por R$ 1,5 bilhão e um banco. Continua sendo investigado pela Polícia Federal e, como seu ex-sócio, porta uma tornozeleira eletrônica.

Lima e Vorcaro deverão ser convocados pela CPMI. No entanto, haverá CPMI com o potencial de gerar turbulências durante a campanha eleitoral deste ano? Interessa ao governo e à oposição? Interessa ao Banco Central, que aparentemente tardou em liquidar o Master? Somando perdas e ganhos, a rigor não interessa a ninguém.

O PT não quer Rui Costa, Lewandowski e Jacques Wagner sendo interrogados na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Nem a direita quer ver Ciro Nogueira, ex-ministros de Bolsonaro, governadores bolsonaristas, como o do Rio de Janeiro, senadores e deputados federais acusados de fraudes.

O silêncio do Centrão, principal base da direita na Câmara dos Deputados, é sintomático da precaução.

Por outro lado, o tumulto que cresce interessa ao ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF. Acusado de dificultar o trabalho da Polícia Federal, ele parece ganhar tempo na tentativa de devolver o processo à primeira instância. Sua atuação, criticada por juristas, provoca enorme desgaste para a instituição.

E há Daniel Vorcaro, que não falou tudo o que sabe de seus negócios e dos beneficiados pelas suas tenebrosíssimas transações. A Polícia Federal promete atuar até o fim, como é a ordem do presidente Lula. Se a culpa sobrar apenas para o banqueiro, haverá tsunami no lago Paranoá.