Ricardo Leitão: O fantasma do segundo turno

Lula mira uma vitória inédita no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta isolamento político e uma direita que já faz contas para 2030

Ricardo Leitão | Publicado em 17/08/2026, às 08h19 - Atualizado às 08h31

Em artigo, o jornalista Ricardo Leitão analisa os movimentos que podem definir a corrida presidencial deste ano
Em artigo, o jornalista Ricardo Leitão analisa os movimentos que podem definir a corrida presidencial deste ano - Reprodução/redes sociais

Em artigo para o Jamildo.com, Ricardo Leitão analisa a estratégia de Lula de tentar decidir a eleição presidencial ainda no primeiro turno.

O autor atribui parte desse cenário ao isolamento político de Flávio Bolsonaro, às dificuldades para formar alianças e aos movimentos da direita já de olho em 2030.

Para Leitão, a estabilidade de Flávio nas pesquisas contrasta com a dificuldade do candidato em ampliar sua base partidária e eleitoral.

Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com

Na convenção nacional do PSB que aprovou Geraldo Alckmin como vice de Lula, o petista encerrou seu discurso com uma convocação inesperada: “Vamos matar as eleições no primeiro turno!”.

O apelo do candidato da esquerda à Presidência já tinha sido feito em conversas reservadas com lideranças do PT, em que desenvolvera o seguinte raciocínio: sua votação no primeiro turno deverá ficar perto de seu teto eleitoral e não haverá brechas para ampliar alianças no segundo turno.

É fundamental portanto mobilizar todas as forças e vencer no primeiro turno.

Lula disputa eleições presidenciais desde 1989, quando foi derrotado por Fernando Collor, no segundo turno. Em 1994 e 1998, perdeu para Fernando Henrique Cardoso e, em 2002, superou José Serra, no segundo turno. Também na segunda rodada, venceu Alckmin em 2006 e Jair Bolsonaro em 2022.

Ou seja: Luiz Inácio Lula da Silva nunca venceu no primeiro turno eleições presidenciais em que foi candidato.

Na eleição deste ano, o PT está coligado com cinco legendas: PSB, PSOL – Rede, PDT, PV e PCdoB. Lula enfrentará Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e partidos minúsculos de esquerda – todos pregando um antipetismo radical.

Lula não receberá deles nenhum apoio oficial em eventual segundo turno. Terá de conquistar seus eleitores e os eleitores que, nas pesquisas de opinião até aqui publicadas, se dizem indecisos. Seriam um terço do eleitorado. Os que confiam nesta possibilidade arriscam até contar com votos de eleitores bolsonaristas arrependidos.

Em respeito aos fatos, deve se considerar, neste sentido, a contribuição pessoal de Flávio Bolsonaro. Em primeiro lugar, ele decidiu que uma mulher deveria ser sua vice, para agregar diversidade de gênero e respeitabilidade à chapa.

A primeira sondada foi a senador Tereza Cristina, do PP, ex-ministra da Agricultura do desgoverno de seu pai, Jair Bolsonaro. A direção do PP recusou.

Buscou então Daniela Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, filiada ao Republicanos, com o mesmo resultado negativo. Terminou forçado a entubar como vice o deputado federal do seu mesmo partido, o PL, Alfredo Gaspar, suspeito de ter cometido estupro de vulnerável, o que ele nega.

Sem conseguir se coligar com nenhum partido, Flávio Bolsonaro perdeu 20% de seu tempo no guia eleitoral de rádio e de televisão.

Tratado como amador pelas calejadas raposas, o desempenho atabalhoado do filho de Jair na largada da campanha é acompanhado com atenção por seus “aliados” na direita, de olho em um horizonte de curto prazo – as eleições presidenciais de 2030.

In pectore torcem pela vitória de Lula em outubro, no que provavelmente será a última disputa eleitoral do petista, hoje com 80 anos.

Ao mesmo tempo esperam que os Bolsonaro de raiz fiquem fora do jogo, com a derrota de Flávio, abrindo o caminho para dita “direita democrática”. Preparam-se desde já Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, e Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro.

O isolamento de Flávio Bolsonaro provoca ainda danos para a direita nos acertos regionais. Em 2022, o PL disputou eleições com chapa pura (governador e vice) apenas em três estados – nos demais ampliou seu arco de alianças.

Neste ano, são dez as chapas puras nos estados, inclusive em grandes colégios eleitorais, como o Rio de Janeiro e Minas Gerais. No Rio, base política do bolsonarismo, o ex-prefeito Eduardo Paes, que lidera a corrida para o governo, anunciou voto em Lula.

Há mais contribuições do candidato da direita. Flávio Bolsonaro apoiou a tentativa de golpe de Estado liderada por seu pai, silenciou diante do tarifaço de Donald Trump, se envolveu em parcerias milionárias com o fraudador Daniel Vorcaro, atacou as urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, afrontou ministros do Supremo Tribunal Federal e apresentou um plano de governo visto por técnicos como apenas um arrazoado de propostas demagógicas.

Com tal currículo pretende liderar o que chama de “resgate do Brasil”.

Resgatar o quê?

A saudação a torturadores, como fez seu pai na Câmara dos Deputados?

A misoginia?

A volta do Brasil ao Mapa da Fome?

Os agrotrogloditas?

A destruição do meio ambiente?

A morte de 700 mil brasileiros pela Covid?

O afundamento do PIB?

A asfixia da cultura e a perseguição a jornalistas?

O estímulo à violência com a facilitação de armas para civis?

O servilismo nas relações internacionais?

Da escalada da farsa também faz parte o figurino de Flávio Bolsonaro como um moderado que ama seu clã, a família, combate privilégios e corrupção. Não mais aquele que, deputado estadual pelo Rio de Janeiro, aprovou condecoração ao ex-PM Adriano da Nóbrega, chefe de pistoleiros e organizador do Sindicato do Crime.

O mesmo Flávio que recebeu, e não prestou contas, R$ 62 milhões de Daniel Vorcaro para um filme laudatório sobre Jair Bolsonaro. Não mais o irmão de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado cassado, foragido nos Estados Unidos, com quem planeja ações contra empresários brasileiros. Um Flávio fake, uma lenda urbana.

O problema do Bolsonaro filho é que as calejadas raposas partidárias não acreditam em lendas. Quando políticos hesitam em embarcar numa canoa ou desembarcam dela é porque vislumbram no horizonte sinais de naufrágio.

Dada a atual estabilidade do candidato da direita nas pesquisas, sua canoa deveria estar lotada com representantes deste campo, que foram essenciais nas campanhas de 2018 e 2022.

Não é o que acontece. Ele não pode deixar que o risco do naufrágio se agigante, do contrário remará sozinho até 4 de outubro. E será derrotado, de preferência no primeiro turno.