Artigo analisa desafios de Flávio Bolsonaro na corrida ao Planalto e projeta campanha marcada pelo embate entre democracia e disputa voto a voto
Ricardo Leitão | Publicado em 28/07/2026, às 09h26 - Atualizado às 09h47
Artigo de Ricardo Leitão afirma que Flávio Bolsonaro repete a estratégia de questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas e avalia que isso amplia a polarização da campanha presidencial.
O texto também aponta dificuldades políticas do candidato, como impasses para formar alianças e escolher um vice, apesar de manter competitividade nas pesquisas.
Ao final, sustenta que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro segue acirrada e deve dominar os meses que antecedem a eleição.
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
Em reunião com cerca de 40 diplomatas estrangeiros, em Brasília, Flávio Bolsonaro – candidato da direita à Presidência da República – propagou suspeitas falsas sobre as urnas eletrônicas usadas nas eleições brasileiras.
Primeiro, disse que o equipamento tinha a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic, envolvida em fraude nas eleições presidenciais daquele país, em 2012, fraude que teria sido constatada pela CIA.
Em seguida, pediu aos diplomatas que convencessem seus governos a enviar observadores para assegurar a lisura das eleições brasileiras em outubro.
Nada disso é verdade.
A Smartmatic celebrou contrato com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em eleições passadas, para prestação de serviços de conexão de dados e voz. Nunca – atesta a Justiça Eleitoral – vendeu urnas ou softwares que teriam sido utilizados no Brasil.
Há séculos sem registro de quaisquer intercorrências, a urna eletrônica brasileira, criada e desenvolvida no País, é seguidamente utilizada em eleições em todos os níveis. Seu desempenho a tornou referência mundial na modernização de sistemas de votação, em várias regiões.
Registrou e totalizou os sufrágios dados ao eleito senador Flávio Bolsonaro, em 2022, e ao seu pai, Jair Bolsonaro para presidente da República, hoje preso por tentativa de golpe de Estado.
Na trilha do golpismo do clã, o filho agora emula o pai no ataque às urnas eletrônicas.
Em 2023, o TSE condenou o ex-presidente a inelegibilidade por oito anos, devido a afirmações mentirosas e distorcidas a respeito do sistema brasileiro de votação.
Bolsonaro falou em reunião realizada para cerca de 40 embaixadores, no Palácio da Alvorada, em Brasília. Segundo ele, o sistema é frágil e sujeito a fraudes, o que comprometia o resultado de qualquer eleição.
A afirmação do então presidente levou alguns embaixadores a ligar o botão no modo golpe de Estado.
A palestra lunática de Flávio Bolsonaro avança no mesmo rumo golpista do pai e faz parte do arsenal autoritário da direita na contestação de derrotas de seus candidatos. São exemplo os casos do próprio Jair Bolsonaro quando perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022, e de Donald Trump, vencido por Joe Baden em 2020.
Ambos reagiram radicalmente, insuflando militantes que depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília, e invadiram o Congresso em Washington. Lá, morreram seis pessoas.
Flávio Bolsonaro irá além, nas etapas do golpismo, caso não se considere como o candidato mais viável da direita?
Em “Como as democracias morrem,” Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores da Universidade de Harvard (EUA), elencaram quatro indicadores para reconhecer um candidato propenso a quebrar as regras constitucionais: rejeição dos princípios democráticos, negação da legitimidade dos oponentes políticos, tolerância ou estímulo à violência e ataques e repressão à mídia independente.
Jair Bolsonaro fez campanha, se elegeu e desgovernou quebrando essas regras, até ser preso por tentativa de golpe de Estado.
O primogênito candidato Flávio Bolsonaro – também chamado de Zero Um, não tem a liderança política do pai, nem a capacidade de unir todas as variantes da direita. Sua força residual está em se manter, até agora, como o único adversário de Lula capaz de impedir a vitória do petista no primeiro turno.
Ele capricha, portanto, no figurino radical.
Convidou para a convenção partidária que oficializou sua candidatura o presidente da Argentina Javier Milei, caricato porta-voz de Trump na América do Sul, que cumpriu a missão: chamou Lula de “presidiário” e de “ladrão” e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, de “lixo careca”.
Flávio Bolsonaro puxou os aplausos. Os insultos de Milei geraram uma crise diplomática entre o Brasil e a Argentina.
Entretanto, para o candidato da direita avançar, precisa que cicatrizem fraturas expostas: o apoio que deu aos tarifaços de Donald Trump; seu envolvimento com a quadrilha do fraudador bancário Daniel Vorcaro; operações imobiliárias suspeitas; divisão interna no clã Bolsonaro; o efeito negativo da palestra sobre as urnas eletrônicas e a dificuldade em fechar alianças regionais.
Nesse caso, o problema é tão grande que até agora não conseguiu indicar um nome para vice-presidente na sua chapa. O desafio da direita é que não há outro nome para substituir Flávio Bolsonaro.
Em primeiro lugar, isso decorre da forma impositiva como Jair Bolsonaro impôs o seu nome à direita, na condição de “cappo” incontestável.
Em segundo lugar, o fato de que, mesmo sem vislumbrar outras possibilidades no horizonte, até a “direita limpinha” aceita se abraçar com o Zero Um se esse for o preço para derrotar Lula e a esquerda.
E existe Donald Trump, sem qualquer melindre de afrontar a soberania econômica e política do Brasil, caso seja dos superiores interesses do novo imperialismo enfraquecer a maior democracia da América do Sul.
Trump chegará a interferir nas eleições presidenciais brasileiras, como o fez nas recentes eleições do Peru e da Colômbia? Por enquanto, faltam evidências, embora haja sinais.
Desde o início do ano, Flávio Bolsonaro viajou seis vezes para os Estados Unidos, onde uma vez foi recebido rapidamente por Trump e se demorou em conversas com o secretário de Estado Marco Rubio, um ativo militante anticomunista.
Mais tempo o Zero Um dedicou a encontros com o irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal cassado e pivô das relações do clã com a extrema direita norte-americana.
Calejados pesquisadores da política brasileira, como o professor Antony Wallace, de Harvard, admitem a intervenção de Trump.
“Se as eleições de outubro gerarem uma crise prolongada, sem um resultado concreto, não se pode descartar a possibilidade de uma intervenção dos Estados, uma ação direta de Trump”.
A pressão norte-americana, que se expressa pelos tarifaços, gera tensão política, perda nas exportações e desemprego. No entanto, dá à esquerda e a Lula um renovado discurso de defesa da soberania nacional, que tem o apoio de eleitores, segundo pesquisas, que não pode ser replicado pelos bolsonaristas, áulicos de Trump.
Com a mão no mote, Lula crava ainda mais fundo, ao tratá-los como “traidores da Pátria", acusação que certamente vai empunhar até o final da campanha. Em um caldeirão de más notícias, o único consolo que restou ao Zero Um foi saber que Michelle Bolsonaro, sua madrasta e opositora, poderia apoiá-lo, depois de uma conversa “para ajustes”.
Contudo, apesar das fraturas expostas, a candidatura de Flávio Bolsonaro é resiliente.
Segundo a mais recente amostra do Datafolha, publicada em 26 de julho, o presidente Lula tem 48% de intenções de voto, no segundo turno, ante 43% de Flávio Bolsonaro.
No levantamento anterior o petista tinha 47% e o filho de Jair Bolsonaro 43%. Na pesquisa de julho, no primeiro turno, Lula somou 40% e o Zero Um 32%. A rejeição de Flávio Bolsonaro é maior, com 48% versus a de Lula, com 46%.
Considerando-se a margem de erro dos levantamentos, de dois pontos percentuais para mais ou para menos, é possível deduzir que as duas candidaturas estão tecnicamente empatadas, a dois meses das urnas de outubro. Bom para o petista, que mantém firme sua sólida base; melhor para Flávio, que não tombou apesar do tiroteio de que foi alvo.
O caminho à frente é de luta, intensa e permanente. Dentro dos princípios democráticos, como quer a frente de centro-esquerda; à revelia da democracia, como ameaça a extrema direita golpista.
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