Rafael Cunha, secretário de Ciência e Tec do Recife, questiona se uma liderança política como Raquel pode ficar neutra diante da disputa presidencial?
Rafael Cunha, secretário municipal do Recife | Publicado em 06/10/2026, às 11h39 - Atualizado às 11h54
Em artigo, o secretário municipal Rafael Cunha compara a posição da governadora ao afastamento de Ciro Gomes da disputa presidencial de 2018
Reeleita em Pernambuco, Raquel Lyra decidiu manter a neutralidade no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Para o autor, encerrada a eleição estadual, a neutralidade passa a ser um teste político para o discurso do “pernambuquismo”
Por Rafael Cunha, em artigo enviado ao site Jamildo.com
A neutralidade no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro pode ser o primeiro grande teste político de Raquel Lyra depois da reeleição.
Em 2018, Paris deixou de ser apenas uma cidade para entrar no vocabulário da política brasileira.
Derrotado no primeiro turno da eleição presidencial, Ciro Gomes viajou para a Europa enquanto Fernando Haddad e Jair Bolsonaro disputavam uma eleição que, para boa parte do campo democrático, ultrapassava os limites de uma disputa convencional entre dois candidatos.
O PDT declarou apoio crítico a Haddad, mas Ciro se manteve distante da campanha. Não subiu no palanque petista e sua ausência acabou eternizada numa expressão que o acompanharia pelos anos seguintes: “Ciro foi para Paris”.
A geografia pouco importa. Paris virou metáfora para a decisão de se afastar justamente quando uma parte do país entendia que não havia mais espaço para ficar em cima do muro.
Oito anos depois, Pernambuco pode estar diante de sua própria Paris.
Raquel Lyra acaba de ser reeleita governadora e, passado o primeiro turno, decidiu manter a neutralidade na disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Questionada diretamente sobre sua posição, respondeu que manteria sua “coerência” e que continuaria colocando Pernambuco em primeiro lugar.
Ao mesmo tempo, fez questão de registrar sua gratidão a Lula, reconheceu que o presidente e seus ministros abriram as portas do governo federal para Pernambuco e anunciou que pretende voltar em breve a Brasília para buscar novos investimentos.
É uma posição confortável: reconhece o que recebeu de Lula, pretende continuar recorrendo ao seu governo, mas não está disposta, ao menos até agora, a dizer aos pernambucanos se deseja que ele continue presidente.
Durante a campanha estadual, era possível compreender politicamente a neutralidade de Raquel.
Ela precisava dos votos de Lula e precisava também dos votos da direita. Precisava conversar com progressistas, conservadores e bolsonaristas. Escolher um candidato a presidente poderia significar perder votos do outro lado.
Foi nesse ambiente que nasceu o discurso do “pernambuquismo”, a ideia de que Pernambuco estaria acima da polarização nacional.
Pode-se discordar dessa estratégia, mas sua racionalidade eleitoral era evidente.
Raquel precisava ganhar uma eleição.
Só que Raquel já ganhou.
E é exatamente aí que a comparação com Ciro Gomes se torna mais incômoda para ela.
Ciro tinha acabado de perder uma eleição presidencial. Não teria mandato eletivo, não assumiria governo algum e carregava um profundo conflito político com o PT.
Isso não o poupou das críticas.
Sua decisão de se afastar foi cobrada durante anos porque muita gente considerava que, diante daquela escolha, suas divergências pessoais e partidárias deveriam ser menores do que aquilo que estava em jogo no país.
A viagem virou símbolo justamente porque se entendeu que um líder político não poderia simplesmente desaparecer quando o país precisava de uma posição.
Raquel está numa situação ainda mais difícil de justificar.
Ela não perdeu. Ela ganhou.
Não é uma candidata derrotada procurando reorganizar a própria vida política. É a governadora reeleita de Pernambuco, investida pelas urnas da responsabilidade de comandar um dos maiores estados do país por mais quatro anos.
Recebeu novamente a confiança de milhões de pernambucanos e, exatamente por isso, sua obrigação política não diminuiu depois das urnas.
Aumentou.
Uma governadora não tem o privilégio de simplesmente assistir de longe a uma decisão nacional dessa dimensão e depois, no dia seguinte, bater à porta do vencedor dizendo que, qualquer que fosse ele, sempre esteve pronta para trabalhar junto.
Raquel não precisa apoiar Lula porque Lula a ajudou.
Relação federativa não é favor pessoal e recursos federais não compram apoio eleitoral.
O problema é outro.
Uma governadora precisa dizer que projeto de país considera melhor para o povo que governa.
Precisa dizer se, entre Lula e Flávio Bolsonaro, realmente considera que não existe diferença suficiente para justificar uma escolha.
Precisa explicar por que a eleição presidencial é relevante o bastante para determinar recursos, políticas públicas, segurança, saúde, educação, infraestrutura e a relação federativa de Pernambuco pelos próximos quatro anos, mas aparentemente não é relevante o bastante para merecer uma posição de sua governadora.
É aqui que o “pernambuquismo” começa a correr o risco de deixar de parecer independência para parecer conveniência.
Colocar Pernambuco em primeiro lugar não significa colocar Pernambuco fora do Brasil.
O presidente eleito governará também Pernambuco. As decisões tomadas em Brasília chegarão às escolas, hospitais, estradas, municípios e famílias pernambucanas.
Defender Pernambuco exige, portanto, participar do debate sobre que Brasil se pretende construir.
Neutralidade também é uma decisão política, e quem escolhe a neutralidade precisa responder pelas consequências dessa escolha.
Há ainda uma contradição particularmente difícil de ignorar.
Raquel afirma publicamente sua gratidão ao presidente Lula, reconhece que seu governo abriu portas e ajudou Pernambuco, enumera investimentos realizados em parceria com Brasília e anuncia que pretende voltar aos ministérios para buscar mais recursos.
Mas, quando chega o momento em que Lula pede novamente o voto dos pernambucanos, a governadora prefere não dizer se considera que ele deve continuar presidente.
Quer manter aberta a porta do governo Lula sem necessariamente abrir a sua própria porta para Lula.
E isso acontece num estado que demonstrou nas urnas possuir um campo progressista extremamente forte.
A vitória estadual de Raquel não apagou esse fato.
Pernambuco elegeu Humberto Costa e Marília Arraes para o Senado, produziu uma bancada expressiva vinculada ao campo que apoiou Lula e deu ao presidente uma votação amplamente majoritária no primeiro turno.
Existe, inclusive, um eleitor particularmente importante nessa discussão: aquele que votou em Lula e em Raquel.
Esse eleitor podia compreender a neutralidade enquanto ela disputava votos com João Campos.
Agora tem todo o direito de perguntar à governadora que ajudou a reeleger: a eleição estadual terminou; e agora, Raquel?
Do outro lado, João Campos fez exatamente o movimento contrário.
Menos de 24 horas depois de perder a eleição para governador, foi a Brasília a pedido de Lula para participar da discussão sobre a estratégia do segundo turno.
João poderia ter escolhido recolhimento, ressentimento ou silêncio depois de uma derrota dura.
Escolheu assumir posição.
Reuniu-se com Lula, Humberto Costa, Marília Arraes e outras lideranças e afirmou que era hora de o campo progressista se unir e ir às ruas.
É justamente por isso que João deveria ir além.
Deveria defender a formação de uma grande frente pernambucana pela eleição de Lula e convidar publicamente todas as lideranças dispostas a participar, inclusive Raquel Lyra.
Um convite assim eliminaria qualquer desculpa baseada na disputa estadual.
João e Raquel acabaram de enfrentar uma eleição dura e continuarão adversários. Ainda assim, se João estiver disposto a dividir com ela um palanque em defesa de Lula, a escolha passará a ser exclusivamente da governadora.
Se Raquel aceitar, Pernambuco verá dois adversários estaduais deixando suas diferenças de lado diante de uma decisão nacional.
João continuará tendo todas as condições de disputar o protagonismo desse movimento, até porque preside nacionalmente o PSB e integra organicamente o campo de Lula.
Se Raquel recusar, entretanto, precisará explicar por que não consegue fazer aquilo que seu próprio adversário, derrotado por ela poucos dias antes, está disposto a fazer.
Essa talvez seja a diferença mais reveladora entre as duas atitudes.
João perdeu e tomou posição.
Raquel ganhou e escolheu a neutralidade.
João poderia alegar a dor da derrota; decidiu ir a Brasília. Raquel tem quatro anos de mandato garantidos; prefere manter todas as portas abertas.
E é legítimo perguntar se estamos diante de uma defesa intransigente dos interesses de Pernambuco ou de uma estratégia cuidadosamente construída para nunca assumir uma posição que possa produzir custo para o próprio projeto político.
Porque liderança não é apenas saber colher os benefícios de uma boa relação com qualquer presidente.
Liderança também significa correr riscos, assumir posições e dizer claramente ao eleitor aquilo em que se acredita.
A tentativa de estar sempre em boas condições com quem quer que vença pode ser uma estratégia eficiente de sobrevivência política.
Mas não deve ser confundida automaticamente com grandeza, independência ou compromisso com Pernambuco.
Ciro foi duramente criticado por sua Paris mesmo depois de perder, mesmo sem governar um estado e mesmo sem carregar sobre os ombros a responsabilidade institucional que acompanha o cargo de governador.
Que argumento poderia justificar uma cobrança menor sobre Raquel?
Se exigimos de um candidato derrotado que tomasse posição numa eleição considerada decisiva para o Brasil, é razoável exigir ainda mais de uma governadora reeleita que comandará Pernambuco durante os próximos quatro anos.
Raquel passou a campanha dizendo que Pernambuco estava acima de tudo.
Agora começa a hora de demonstrar o que essa frase significa quando não existem mais votos estaduais para conquistar.
Se colocar Pernambuco acima de tudo significar defender aquilo em que acredita mesmo quando há risco político, chegou a oportunidade.
Se significar evitar qualquer escolha que possa criar dificuldades com o próximo presidente, então talvez o “pernambuquismo” tenha um nome bem menos sofisticado: conveniência.
Paris, afinal, nunca foi sobre Paris.
Foi sobre ausência.
Foi sobre o silêncio de uma liderança no momento em que seus eleitores esperavam uma escolha.
Ciro precisou atravessar o Atlântico para construir essa imagem.
Raquel não precisa sair do Palácio do Campo das Princesas.
Para ir a Paris, basta continuar em cima do muro.
Rafael Cunha é titular da Secretaria de Transformação Digital, Ciência e Tecnologia do Recife.
Nota do site: Mesmo que óbvio, cabe afirmar que as avaliações do articulista são opinião do autor, não afirmações editoriais do Jamildo.com, um espaço sempre plural
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