Congresso eleito amplia força da direita e pode impor bloqueio a Lula em eventual quarto mandato

PL sai das urnas como maior força da Câmara e do Senado e aumenta o desafio de governabilidade caso Lula consiga reverter a derrota do primeiro turno

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 06/10/2026, às 11h15 - Atualizado às 11h22

Novo Congresso terá 121 deputados do PL e bancada de 28 senadores do partido; centro mantém força suficiente para ser decisivo nas negociações a partir de 2027.
Novo Congresso terá 121 deputados do PL e bancada de 28 senadores do partido; centro mantém força suficiente para ser decisivo nas negociações a partir de 2027 - Otávio Gaudêncio/Jamildo.com

O primeiro turno das eleições de 2026 deixou um Congresso mais favorável à direita, com avanço expressivo do PL na Câmara e, principalmente, no Senado

O desenho cria um desafio adicional para Lula caso o presidente consiga reverter o resultado da primeira votação e vencer Flávio Bolsonaro no segundo turno

Mais do que formar maioria para governar, Lula teria de impedir a consolidação de uma maioria parlamentar permanente de oposição

O segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) será disputado diante de um fato político já definido pelas urnas: qualquer que seja o vencedor da Presidência encontrará, em 2027, um Congresso substancialmente diferente daquele eleito quatro anos antes.

A mudança é especialmente importante para Lula.

Caso consiga reverter o resultado do primeiro turno e seja reeleito, o presidente poderá enfrentar uma situação diferente do tradicional presidencialismo de coalizão brasileiro: não apenas um governo sem maioria própria no Congresso, mas a possibilidade de formação de uma maioria parlamentar organizada contra iniciativas relevantes do Executivo.

Os números ajudam a dimensionar o desafio.

PL terá maior bancada da Câmara

Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, 24 a mais do que havia conquistado nas eleições de 2022. Será, isoladamente, a maior bancada da Casa.

A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, terá 88 deputados e será a segunda maior bancada.

O resultado não significa, entretanto, que exista automaticamente um bloco parlamentar de oposição com comportamento uniforme.

Análise divulgada pela própria Câmara após as eleições chama atenção para a permanência da importância dos partidos de centro nas negociações legislativas, apesar do crescimento dos partidos com posições ideológicas mais definidas.

Esse componente é fundamental para avaliar o cenário de governabilidade.

Senado apresenta desafio ainda maior

É no Senado que a mudança política aparece de forma mais acentuada.

Conforme informou o site Jamildo.com, o PL elegeu 19 das 54 vagas disputadas no domingo (4). Somados aos senadores que continuam no mandato, o partido chegará a 28 dos 81 integrantes da Casa a partir de fevereiro de 2027. Será a maior bancada do Senado.

O PT terá nove senadores. A Federação União-Progressistas ficará com 11; MDB, com oito; PSD, cinco; PSB, quatro; e Novo, três.

A eleição também produziu renovação relevante: 40 dos 54 senadores escolhidos são novos, enquanto apenas 14 conseguiram a reeleição.

O Senado tem importância particular porque, além de votar projetos e propostas de emenda à Constituição, é responsável pela análise de indicações presidenciais para postos como ministros do Supremo Tribunal Federal e dirigentes de instituições de Estado.

Uma “maioria sem governo”?

É neste ponto que surge uma questão diferente daquela enfrentada normalmente pelos presidentes brasileiros.

Desde a redemocratização, presidentes frequentemente começaram seus mandatos sem maioria parlamentar própria. A solução foi a construção de coalizões com partidos de centro e centro-direita em troca de participação no governo, influência sobre políticas públicas e espaço na agenda legislativa.

A dúvida para 2027 é se esse mecanismo continuará funcionando com a mesma intensidade caso Lula seja reeleito.

PL, Novo, Republicanos e PP, por exemplo, somariam 42 senadores, segundo cálculo apresentado em análise da Rádio Câmara. É maioria absoluta dos 81 integrantes da Casa, embora ainda insuficiente para decisões que dependem de quóruns constitucionais mais elevados.

Isso permite formular uma hipótese política: Lula poderia enfrentar não simplesmente um governo sem maioria, obrigado a negociar votação por votação, mas uma espécie de “maioria sem governo” — um bloco parlamentar numericamente capaz de bloquear parte relevante da agenda presidencial mesmo sem controlar o Executivo.

É uma hipótese, não uma consequência automática do resultado eleitoral.

Centro continuará sendo decisivo

Há uma diferença importante entre tamanho das bancadas e comportamento parlamentar.

Partidos classificados como de direita ou centro-direita não necessariamente votam juntos em todas as matérias. MDB, PSD, União Brasil e PP, por exemplo, têm histórico de participação ou negociação com governos de diferentes orientações políticas.

Especialistas ouvidos pela Câmara depois das eleições destacaram justamente que, apesar da maior polarização partidária, as legendas intermediárias continuam relevantes para formar maiorias.

Assim, o resultado das urnas não autoriza concluir que um eventual novo governo Lula estaria previamente condenado à paralisia.

Autoriza, porém, uma conclusão mais objetiva: a composição do Congresso elevaria o grau de dificuldade das negociações políticas do presidente, especialmente no Senado.

Segundo turno também decidirá relação com Congresso

A eleição presidencial, portanto, entra no segundo turno com parte importante do tabuleiro político já montada.

Flávio Bolsonaro teria, em caso de vitória, o seu próprio partido comandando as maiores bancadas tanto da Câmara quanto do Senado.

Lula, se conseguir reverter o resultado do primeiro turno, começaria um eventual quarto mandato diante de um Legislativo no qual seu partido e seus aliados estão numericamente distantes de uma maioria própria.

A questão para um eventual novo governo petista seria saber até onde ainda funcionaria o presidencialismo de coalizão que sustentou diferentes governos desde a redemocratização.

Ou se o Congresso eleito em 2026 inauguraria uma situação politicamente distinta: não apenas a de um presidente obrigado a construir maioria, mas a de uma maioria parlamentar já formada e suficientemente sólida para limitar o espaço de ação do presidente.