Juntos, misturados e inflamáveis

Escândalo do banco Master, expondo as relações do Centrão com parte do sistema financeiro, deve ser um dos temas mais inflamáveis destas eleições

Ricardo Leitão | Publicado em 13/04/2026, às 08h24 - Atualizado às 08h41

Fachada Banco Master
Caso pode ganhar novos desdobramentos a depender do conteúdo das delações, mas enfrenta resistência política para a instalação de uma CPI - Rovena Rosa/Agência Brasil

O escândalo do Banco Master chega a um ponto sem volta com a decisão de seus principais envolvidos, como Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel, de negociar delações premiadas.

As investigações apontam uma fraude bilionária, estimada em R$ 60 bilhões, com ramificações que alcançam políticos, empresários, magistrados e influenciadores.

Documentos indicam repasses milionários e uso de estratégias de influência, incluindo benefícios e eventos de luxo.

Há ainda suspeitas de intimidação, uso de milicianos e operações financeiras irregulares envolvendo recursos públicos.

O caso pode ganhar novos desdobramentos a depender do conteúdo das delações, mas enfrenta resistência política para a instalação de uma CPI.

Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao site Jamildo.com

Como nas missões espaciais, as investigações sobre o escândalo do Banco Master chegaram ao ponto de não retorno. Trata-se daquele ponto em que a única opção é seguir em frente, do contrário uma implosão descontrolada – no caso do Master – vai lançar destroços em culpados e inocentes.


O não retorno está cravado pela decisão dos arquitetos da fraude – a maior da história do Brasil, estimada em R$ 60 bilhões – em firmar acordos de delação premiada. Daniel Vorcaro, ex-presidente do banco, preso em Brasília, e seu cunhado e principal assessor, Fabiano Zettel, preso em Belo Horizonte, já iniciaram entendimentos, nesse sentido, com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF).

Vorcaro sabe o que tem nas mãos e em arquivos eletrônicos. Quando tentou, sem sucesso, ser recebido pelo então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deixou um recado atrevido: “Só preciso mostrar a ele o que pode acontecer se alguma coisa acontecer comigo”. Os fatos se precipitaram e é natural, portanto, aguardar com expectativa o que o ex-banqueiro tem agora a dizer a seus interrogadores.

A teia de influências que ele costurou e cerziu envolve golpistas financeiros, pastores evangélicos, magistrados, ex-governadores, parlamentares, funcionários públicos e influenciadores digitais. Um trabalho que se estendeu por três anos, utilizando-se da liberação generosa de empréstimos do Master a clientes especiais, a festas despidas de preconceitos protocolares. Para animá-las foram contratadas acompanhantes trazidas da Rússia, da Ucrânia, da Lituânia, da Hungria, do México e da Venezuela, hospedadas em hotéis de luxo, aguardando a agenda festiva.

“Faz parte do meu business”, explicava Vorcaro. Há suspeita de que, sem saber, os convidados teriam sido filmados e fotografados.

Documentos da Receita Federal enviados à Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado ampliam o quadro. Eles apontam repasses milionários do Master para escritórios de advocacia e empresas ligadas a Michel Temer (MDB), Antônio Rueda (União Brasil), Marconi Perillo (PSDB), ACM Neto (União Brasil), Guido Mantega (PT), Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski. Único ex-presidente na lista, Temer teria recebido R$ 10 milhões em 2025 por “serviços de mediação”. Por meio da Pollaris Consultoria, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega recebeu R$ 14 milhões entre 2024 e 2025, na condição de assessor econômico-financeiro.

No entanto, Vorcaro foi além das articulações no campo político. Os agentes federais se deparam com o inusitado gosto do ex-banqueiro por obras de arte de nomes célebres. Ele investiu, por exemplo, R$ 260 milhões em trabalhos de Picasso e de Basquiat, adquiridos em leilões no exterior. Outros R$ 270 milhões foram empregados na compra, à vista, de três jatos executivos, usados em deslocamentos para a Europa e o Caribe.

O fechamento de um acordo de delação é uma negociação lenta, que requer advogados especialistas, mas pode dar resultados muito positivos. No caso da Lava-Jato, 77 diretores e funcionários do primeiro escalão da empreiteira Odebrecht firmaram acordos de delação, e seus depoimentos foram importantes para o desvelamento do golpe e o ressarcimento dos prejuízos da Petrobras.

Também terá muito a falar Fabiano Zettel, o operoso cunhado de Vorcaro. A começar pela procedência dos R$ 485 milhões que recebeu de fundos secretos para remunerar serviços de milicianos, contratados para ameaçar, até de morte, adversários e concorrentes do ex-banqueiro. Zettel pode também explicar como se transformou no maior doador individual de recursos nas campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) e de Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões), nas eleições de 2022.

Em suas delações, Vorcaro e Zettel deverão esclarecer como o longo braço do banco aportou nos gabinetes de David Alcolumbre, presidente do Senado, e de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados. A Amprev, empresa de previdência dos aposentados e pensionistas do Amapá – base política de Alcolumbre – investiu R$ 400 milhões em fundos furados ligados ao Master.

Hugo Motta foi mais discreto: usou de suas ligações com Vorcaro para liberar um empréstimo de R$ 22 milhões a uma cunhada que tem negócios imobiliários em João Pessoa, base política do presidente da Câmara dos Deputados.

As delações também poderão esclarecer como os donos do Master fecharam negócios – alguns com dezenas de milhões de reais - com o ex-governador do Distrito Federal, Libaneis Rocha, e o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Nesse último caso, a Rio Previdência gastou R$ 975 milhões em fundos controlados pelo Master. Agora, os aposentados e pensionistas fluminenses não sabem como serão ressarcidos. Quanto ao Distrito Federal, a operação fraudulenta foi mais complexa.

Com a parceria da direção do Banco Regional de Brasília (BRB), o banco do Distrito Federal, Vorcaro propôs que o BRB comprasse o Master, dando como garantia do negócio títulos sem fundo. O Banco Central bloqueou a operação e logo depois liquidou o Master. O prejuízo do BRB está estimado em R$ 6,5 bilhões e, até agora, a instituição não teve condições de fechar o balanço de 2025.

Do escândalo não escapam ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O escritório de advocacia de Viviane Barci Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, assinou contrato de prestação de serviços com o Banco Master no valor de R$ 129 milhões em três anos.

Ela apresentou o que seriam comprovantes dos serviços realizados. O ministro Dias Toffoli, primeiro relator do caso Master no Supremo, foi forçado a renunciar à função depois que relatório da Polícia Federal demostrou que ele era sócio de um resort no Paraná, vendido a um fundo ligado a Fabiano Zettel. Dias Toffoli usou jatinho do Master para visitar o resort, denominado Tayayá.

Em condições normais de temperatura e pressão, tantas celebridades juntas, misturadas e inflamáveis justificariam a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito, funcionando simultaneamente com a Polícia Federal. Como visto, não há nada igual ao caso Master na longa sucessão de corrupções neste muitas vezes leniente país tropical.

Contudo, não haverá CPI porque não interessa ao governo, à oposição, à esquerda, à direita, ao centro, todos de alguma forma enredados na ampla e bem trançada teia de Daniel Vorcaro. E muito menos agora, a seis meses das urnas de outubro em uma eleição de resultado imprevisível.

A democracia continuará sangrando. A não ser – vejam só – que Vorcaro e Zettel decidam falar, diante do risco de serem condenados a até 40 anos de prisão. É muito pouco para se consolidar uma nação sempre tão ameaçada por conspirações golpistas.