Donald Trump afia o facão

Com Lula e Flávio Bolsonaro em uma disputa apertada, o Brasil entra no centro do tabuleiro de Trump na América do Sul, avalia Ricardo Leitão

Ricardo Leitão | Publicado em 25/08/2026, às 09h18 - Atualizado às 09h34

Montagem de Lula e Flávio nas eleições 2026
De tarifas a pressões diplomáticas: Ricardo Leitão analisa até onde Donald Trump pode ir para influenciar a eleição presidencial brasileira - Reprodução/redes sociais

Ricardo Leitão analisa as críticas de parlamentares dos EUA à política externa de Donald Trump e aponta o Brasil como próximo foco das pressões de Washington.

O artigo relaciona tarifas, tensões diplomáticas e questionamentos ao sistema eleitoral brasileiro à disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Para o autor, a atuação norte-americana pode se intensificar à medida que a eleição de outubro se aproxima e a disputa permanece equilibrada.

Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com

Parlamentares da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos encaminharam carta ao secretário de Estado Marco Rubio, criticando as intervenções realizadas pelo presidente Donald Trump, “que parecem seguir uma cartilha partidária: apoio a candidatos preferidos pelo presidente, nomeação de aliados políticos, uso de sanções e tarifas como armas contra adversários e, quando essas medidas fracassam, o emprego direto de forças militares”, explicou a deputada Parmila Jayapil, uma das signatárias do documento.

“Se um presidente dos EUA impõe uma tarifa de maneira unilateral sobre um determinado país, age de acordo com seu interesse, contrariando nossas leis e enfraquecendo a estabilidade com nossos aliados na região, como o Brasil”, conclui a deputada.

A carta dos parlamentares ao secretário Marco Rubio – homem forte do governo Trump – é, por enquanto, a maior resposta do Congresso à política norte-americana de pressões sobre países da América do Sul, que está dando certo: à exceção do Uruguai, em todos os demais países da região que realizaram eleições presidenciais recentes, venceram candidatos aliados ou seguidores de Donald Trump.

A próxima e última disputa em 2026 vai acontecer no Brasil, em outubro, entre Luiz Inácio Lula da Silva, pela esquerda, e Flávio Bolsonaro pela direita, idólatra confesso do trumpismo. Um confronto radicalmente polarizado, sem espaços por enquanto para uma terceira via, no mais importante país da América do Sul.

A receita de Trump já alavancou Javier Milei, na Argentina; José Antônio Kast, no Chile, e Abelardo de la Espriela, na Colômbia – além do sequestro de Nicolás Maduro, na Venezuela.

No Brasil, o cerco à campanha de reeleição de Lula é multifacetado: tarifas comerciais exorbitantes, cancelamento do visto da embaixadora brasileira em Washington, classificação de facções criminosas como terroristas e até um misterioso sobrevoo de bombardeiros para ataques nucleares nas proximidades do território brasileiro.

Nada disso contribui para diminuir a tensão diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos. E só piora quando representantes do governo Trump levantam falsas suspeitas sobre o sistema eleitoral do País.

Quanto a isso, dê-se a primazia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado. Pai de Flávio Bolsonaro, foi dele a primeira queixa falsa sobre a fragilidade da urna eletrônica, apesar de ter vencido a eleição presidencial de 2018, quando os votos foram computados no equipamento

. Em 2022, candidato à reeleição, Bolsonaro voltou a atacar as urnas, já então como uma tática para o golpe de Estado que liderou em 2023. Flávio Bolsonaro, que tenta empalmar a presidência para a direita, rebate hoje os argumentos falsos do pai.

Até quando e onde Donald Trump agirá nas eleições presidenciais do Brasil? É possível que dólares novamente viajem em terminais bancários de paraísos fiscais. No entanto, meios tecnológicos são mais eficientes, a exemplo de recursos como sondagens aprofundadas do eleitorado, dezenas de grupos de opinião e pagamento de especialistas na formação e multiplicação de redes sociais.

Outras iniciativas também são úteis: há dois meses, os EUA tentaram enviar funcionários do Departamento de Estado para conhecer o sistema eleitoral aqui utilizado, com sucesso, por três décadas. O objetivo, segundo a imprensa norte-americana, seria instruir um discurso crítico da direita contra o equipamento.

Contudo, a articulação trumpista só avançará se Flávio Bolsonaro se mostrar competitivo, como agora acontece. Ele está empatado com Lula, no primeiro e no segundo turnos, quando se aplica a margem de erro das amostragens de intenção de voto. A direita permanece contando com o tarifaço a seu favor, acreditando que seus efeitos gerariam uma reação negativa na campanha do candidato petista.

As tarifas decretadas unilateralmente são, entretanto, totalmente ilógicas. Se a balança comercial entre o Brasil e os Estados Unidos é mais favorável aos norte-americanos – que vendem mais do que compram - por que tarifar a maior os produtos brasileiros? A não ser por motivos políticos, para desidratar a candidatura de Lula, que seria incapaz de se entender com Trump.

“A questão não é comercial”, comenta o professor Abraham Newton, da Universidade de Georgetown (EUA), "mas sim política, ao beneficiar aliados dos Estados Unidos e impor exigências norte-americanas ao país.

Declarações de integrantes do primeiro escalão do governo Trump são ainda mais explícitas. Coube ao secretário de Defesa Peter Hegseth afirmar que as Forças Armadas se preparam para realizar operações, no território de países aliados, com o propósito de combater o narcotráfico na América Latina:

“Vamos agir contra quem ameaça o povo norte-americano, em qualquer lugar, como agimos contra o Estado Islâmico e a Al Qaeda”. Logo depois, o Departamento de Estado postou um vídeo com trecho de um discurso de Trump, em que o presidente dos Estados Unidos diz: “O domínio norte-americano do hemisfério ocidental jamais será questionado novamente”.

São cada vez menores as dúvidas de que Donald Trump vai interferir nas eleições presidenciais brasileiras, apoiando Flávio Bolsonaro ou outro candidato que se mostrar mais capaz de vencer Lula e a aliança da esquerda. Vale um salto no passado: em 1964, os Estados Unidos fundearam uma frota com navios-tanques ao largo do porto de Santos (SP), para abastecer veículos dos golpistas, se houvesse resistência das tropas leais ao presidente João Goulart.