Jamildo Melo | Publicado em 03/10/2026, às 12h03 - Atualizado às 12h09
Eles estão rondando
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
Na reta final da campanha presidencial, reportagens da imprensa internacional e manifestações de autoridades brasileiras e norte-americanas colocaram no centro do debate eleitoral uma questão sensível: até onde vai a atuação do governo de Donald Trump (EUA) em relação à disputa política no Brasil?
Nos últimos dias, dois dos mais importantes jornais internacionais abordaram o tema.
O New York Times, dos Estados Unidos, tratou das pressões exercidas pelo governo Trump sobre o Brasil, incluindo tarifas aplicadas a produtos brasileiros e manifestações de integrantes da administração norte-americana sobre o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em seguida, o britânico The Guardian revelou que recursos do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado dos Estados Unidos foram redirecionados para iniciativas alinhadas à nova orientação política do governo Trump.
Entre os projetos citados está uma verba de US$ 1 milhão destinada a uma iniciativa relacionada ao Brasil, voltada ao combate ao que seus proponentes classificam como abuso judicial e censura.
A reportagem levantou questionamentos sobre uma eventual tentativa de influência externa no ambiente político brasileiro às vésperas da eleição.
A Advocacia-Geral da União (AGU) reagiu às informações e pediu a apuração do caso.
O órgão solicitou providências para investigar o possível financiamento norte-americano e seus eventuais efeitos sobre instituições e o processo político brasileiro.
Para a AGU, as informações são especialmente relevantes diante da eleição em curso e das recentes tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.
A existência do financiamento, entretanto, não significa automaticamente que os recursos tenham sido destinados diretamente a uma campanha eleitoral brasileira. Esse é justamente um dos pontos que precisam ser esclarecidos pelas autoridades.
O episódio se soma às acusações feitas por parlamentares democratas dos Estados Unidos contra a política de Trump para o Brasil.
Em carta enviada ao secretário de Estado, Marco Rubio, os senadores Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch afirmaram que medidas diplomáticas, econômicas e políticas adotadas pela administração Trump podem enfraquecer instituições brasileiras e afetar a confiança no processo eleitoral.
Trata-se de uma acusação dos parlamentares de oposição, e não de uma conclusão independente das instituições norte-americanas.
Outro elemento que passou a chamar atenção é a Rockbridge Network, organização conservadora norte-americana que teve J.D. Vance, atual vice-presidente dos Estados Unidos, entre seus fundadores.
Reportagens publicadas no Brasil mostraram que representantes ligados à Rockbridge fizeram contatos com empresários e políticos brasileiros e estudaram uma operação no país.
Entre os empresários procurados estariam Joesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG.
A própria Rockbridge afirmou que chegou a registrar uma estrutura denominada Rockbridge Network Brazil, mas sustenta que o projeto não avançou. A eventual relação da organização com a eleição brasileira virou objeto de acusações políticas, contestadas pelos envolvidos.
Não há, portanto, base para afirmar como fato que a Rockbridge esteja atuando oficialmente em nome do governo Trump ou financiando uma candidatura presidencial brasileira.
A proximidade histórica de J.D. Vance com a organização, no entanto, ajuda a explicar por que a movimentação passou a receber atenção no ambiente eleitoral.
A atuação internacional do governo Trump tem sido marcada por manifestações públicas de apoio a lideranças e movimentos conservadores em diferentes países.
No caso brasileiro, as críticas ganharam peso adicional por causa das tarifas, sanções e pressões exercidas pelos Estados Unidos sobre autoridades e instituições do país.
Os senadores democratas que escreveram a Marco Rubio classificaram essas iniciativas como uma campanha de interferência e desestabilização. O governo Trump, por sua vez, tem apresentado medidas contra autoridades brasileiras como parte de sua política de defesa da liberdade de expressão e de reação a supostos abusos institucionais.
É nesse choque de versões que a questão passou a integrar a reta final da eleição brasileira.
A discussão também recupera um precedente histórico muito diferente do cenário atual.
Documentos oficiais norte-americanos hoje públicos mostram que, durante a crise que levou ao golpe militar de 1964, o governo dos Estados Unidos preparou a chamada Operação Brother Sam.
O plano previa apoio logístico às forças contrárias ao presidente João Goulart, incluindo navios com combustível, munição e uma força-tarefa naval com porta-aviões e destróieres.
A operação acabou não sendo necessária nos moldes inicialmente planejados porque o governo Goulart caiu rapidamente.
O contexto de 2026 é evidentemente distinto. Não há evidência de uma operação militar semelhante em andamento.
A discussão atual envolve sobretudo instrumentos diplomáticos, econômicos, políticos e financeiros — e a necessidade de esclarecer até que ponto iniciativas estrangeiras podem ou não interferir no processo eleitoral brasileiro.
A quatro de outubro, cabe às instituições investigar eventuais irregularidades e garantir que as regras eleitorais sejam cumpridas.
E cabe ao eleitor brasileiro decidir nas urnas, sem interferência externa, quem deve governar o país.
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