Jamildo Melo | Publicado em 25/08/2026, às 16h10 - Atualizado às 16h22
Na defesa de Lulinha, militantes do PT e até dirigentes tem feito circular uma carta aberta que circula nas redes sociais e aplicativos de mensagens, questionanfo o tratamento dado pela imprensa às investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula (PT), e Flávio Bolsonaro (PL), senador e candidato à Presidência da República.
Sem autoria claramente identificada, o documento acusa os meios de comunicação de adotarem critérios diferentes na cobertura dos dois casos. A comparação, no entanto, reúne situações em estágios jurídicos distintos e mistura fatos documentados, investigações ainda em andamento, interpretações políticas e algumas conclusões que não encontram respaldo suficiente nas informações disponíveis.
Uma checagem dos principais pontos mencionados mostra que há fatos relevantes por trás do texto, especialmente em relação às investigações sobre Flávio Bolsonaro, mas também há elementos concretos que fundamentam as apurações atualmente envolvendo Lulinha.
Um dos fatos citados corretamente é a quebra de sigilos de Fábio Luís. Em fevereiro de 2026, a CPMI do INSS aprovou requerimentos para obtenção de relatórios de inteligência financeira e quebra dos sigilos bancário e fiscal do filho do presidente Lula, abrangendo o período entre 2022 e 2026.
A decisão está registrada oficialmente pelo Congresso Nacional.
Além disso, Lulinha passou a ser alvo de investigações da Polícia Federal. As apurações procuram esclarecer suspeitas relacionadas, entre outros pontos, a tráfico de influência e possíveis negócios envolvendo órgãos do governo federal.
Em agosto, novas informações vieram a público sobre apurações relacionadas a tentativas de negócios que buscavam contratos com o Ministério da Saúde. A defesa de Fábio Luís nega irregularidades.
Até o momento, as investigações mencionadas não resultaram em condenação de Lulinha.
Esse ponto é importante para dimensionar uma das principais afirmações da carta. O texto sustenta que o filho do presidente estaria sendo investigado "sem provas". A expressão não retrata adequadamente o estágio atual das apurações.
A existência de investigação não significa que Lulinha tenha cometido crime. Da mesma maneira, a ausência de condenação não significa que as autoridades estejam investigando sem elementos. A Polícia Federal apresentou informações consideradas suficientes para a abertura ou continuidade de apurações, que foram autorizadas judicialmente.
Do lado de Flávio Bolsonaro, parte das informações apresentadas na carta encontra respaldo documental.
Um dos casos mais antigos envolve o ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, posteriormente apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma liderança de organização miliciana.
Em 2005, quando exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro apresentou oficialmente na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro uma proposta para conceder a Medalha Tiradentes a Adriano.
O registro continua disponível nos arquivos da Alerj.
Antes disso, Flávio já havia apresentado uma moção de louvor ao então policial.
Também é documentado que Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, então mulher do ex-PM, trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa.
Esses vínculos são fatos. O que exige cautela é transformar essas relações, isoladamente, em prova de participação de Flávio em atividades criminosas.
Outro capítulo citado na carta é a investigação das chamadas "rachadinhas" no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.
Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, apareceu em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que identificou movimentações financeiras consideradas atípicas. Um dos primeiros levantamentos apontava movimentação de aproximadamente R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017.
Posteriormente, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio Bolsonaro e sustentou a existência de um esquema de devolução de parte dos salários de funcionários do gabinete, tendo Queiroz como operador.
Flávio sempre negou ter participado de um esquema de rachadinha.
O processo, porém, sofreu uma série de reviravoltas judiciais. Decisões de tribunais superiores anularam provas consideradas fundamentais para a acusação, e a investigação acabou arquivada.
Por isso, embora seja correto afirmar que Flávio foi investigado e denunciado pelo Ministério Público, não é preciso dizer que a existência do esquema foi definitivamente comprovada contra ele na Justiça.
As investigações do Ministério Público também alcançaram operações imobiliárias de Flávio Bolsonaro.
Documentos utilizados pelos investigadores indicaram pagamentos em dinheiro vivo em determinadas transações. Em uma das linhas de investigação, o MP-RJ sustentou que R$ 638 mil pagos em espécie na aquisição de dois imóveis poderiam integrar uma operação de lavagem de dinheiro.
Novamente, trata-se de uma tese apresentada pela acusação durante a investigação, e não de uma condenação definitiva.
O uso de dinheiro em espécie, por si só, também não constitui crime nem prova automaticamente lavagem de dinheiro. Pode, entretanto, ser considerado pelos investigadores juntamente com outros elementos de uma operação financeira.
A carta também levanta questionamentos sobre a residência de Flávio Bolsonaro em Brasília.
O imóvel no Lago Sul foi adquirido em 2021 por aproximadamente R$ 5,97 milhões, com parte do pagamento financiada pelo Banco de Brasília (BRB).
Esse valor está documentado.
Já a afirmação de que a mansão teria valor de R$ 15 milhões e teria sido irregularmente declarada ou adquirida por apenas R$ 6 milhões exige cautela.
Não há, nas informações oficiais consultadas, elemento suficiente para concluir que o imóvel valesse R$ 15 milhões no momento da compra ou que a diferença entre esse suposto valor e o preço registrado represente dinheiro ocultado na operação.
Uma avaliação atual superior ao preço pago em 2021 também não demonstraria, isoladamente, qualquer irregularidade.
Um dos pontos mais atuais e relevantes mencionados na carta envolve Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e o projeto cinematográfico "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro.
Nesse caso, existem elementos documentais e investigações em andamento.
Mensagens e áudios revelados no curso das apurações mostraram tratativas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro para obtenção de recursos destinados ao projeto.
Documentos relacionados ao caso mencionam um acordo que poderia chegar a R$ 124 milhões, dos quais cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente destinados ao projeto por meio da Entre Investimentos.
Flávio Bolsonaro reconheceu que procurou Vorcaro em busca de financiamento para o filme. Sua versão é de que se tratava de patrocínio privado para uma produção audiovisual e que não houve irregularidade.
As conversas também revelaram uma relação de proximidade entre os dois, com Flávio utilizando inclusive o tratamento "irmão" ao se dirigir ao banqueiro.
O episódio passou a ser objeto de investigações e questionamentos sobre a origem, o destino e a prestação de contas dos recursos.
Nesta semana, o ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a acessar provas obtidas pela Polícia Civil de São Paulo relacionadas à produtora envolvida no projeto, acrescentando um novo capítulo às investigações.
O que não está comprovado é outra afirmação feita na carta: a de que os R$ 61 milhões destinados ao projeto seriam, especificamente, dinheiro de aposentados ou poupadores prejudicados pelo Banco Master.
As investigações sobre o banco e seus dirigentes são relevantes para compreender o contexto do caso, mas estabelecer a origem específica do dinheiro transferido para o projeto exige rastreamento financeiro. Sem essa demonstração, não é possível fazer a ligação de maneira categórica.
Outro ponto levantado envolve a sociedade de advocacia de Flávio Bolsonaro.
Documentos apresentados na CPMI do INSS registram que Letícia Caetano dos Reis integra a sociedade individual de advocacia ligada ao senador. Ela é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, cujo nome apareceu nas apurações relacionadas ao caso do INSS.
Alexandre foi citado em documentos e discussões da comissão por vínculos societários com Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", um dos principais personagens investigados no esquema.
A relação familiar e societária existe, mas, isoladamente, não comprova participação de Flávio Bolsonaro ou de sua sócia nas irregularidades investigadas no INSS.
A carta também recupera um episódio ocorrido durante o governo Jair Bolsonaro.
Em agosto de 2020, Bolsonaro participou, no Palácio do Planalto, de uma reunião com o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, o general Augusto Heleno e advogadas que atuavam na defesa de Flávio.
A reunião foi gravada.
Na conversa foram discutidas possibilidades envolvendo órgãos federais, entre eles a Receita Federal, que poderiam auxiliar a defesa de Flávio a questionar procedimentos utilizados na investigação das rachadinhas.
O conteúdo do encontro provocou questionamentos sobre eventual utilização da estrutura do governo em benefício do filho do então presidente.
Há, portanto, um fato concreto: a reunião existiu, foi gravada e tratou de alternativas relacionadas à defesa de Flávio.
É diferente, entretanto, afirmar que Bolsonaro fez naquele encontro uma "confissão de obstrução da Justiça", como sustenta a carta.
Essa é uma conclusão jurídica que não pode ser extraída automaticamente da gravação. Também já foram desmentidas interpretações que circularam nas redes segundo as quais Bolsonaro teria confessado, naquele áudio, a prática de rachadinha por Flávio.
A acusação de que a imprensa estaria simplesmente ignorando as investigações contra Flávio Bolsonaro também não pode ser apresentada como fato.
Os episódios envolvendo Queiroz, Adriano da Nóbrega e as rachadinhas tiveram ampla repercussão nacional ao longo dos últimos anos.
O mesmo acontece atualmente com Dark Horse.
Veículos nacionais têm publicado reportagens sobre os R$ 61 milhões, as conversas entre Flávio e Vorcaro, a origem dos recursos, a prestação de contas do projeto e as decisões judiciais relacionadas às investigações.
É possível discutir se determinada investigação recebeu cobertura maior ou menor do que outra. Demonstrar tratamento desigual, entretanto, exigiria uma análise objetiva da cobertura — quantidade de matérias, espaço dedicado, chamadas de primeira página, tempo de televisão, período analisado e tratamento editorial.
A carta não apresenta esse levantamento.
A comparação entre Lulinha e Flávio Bolsonaro envolve personagens em situações diferentes.
Lulinha não ocupa cargo público e não disputa a eleição, mas é filho do presidente da República e está sendo investigado por suspeitas que envolvem possíveis relações com agentes e estruturas públicas. Teve sigilos quebrados e é alvo de apurações da Polícia Federal, mas não foi condenado nas investigações atuais.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, é senador e candidato à Presidência da República. Sua trajetória política inclui investigações sobre o antigo gabinete na Alerj, relações documentadas com pessoas que posteriormente apareceram em investigações criminais e, mais recentemente, questionamentos sobre dezenas de milhões de reais destinados ao projeto Dark Horse.
Algumas acusações contra Flávio terminaram sem condenação ou tiveram provas anuladas. Outras permanecem sob investigação.
A documentação disponível, portanto, não sustenta a simplificação de que um dos filhos de presidente é investigado "sem provas", enquanto o outro permanece "blindado apesar das provas".
O que os documentos mostram é um cenário mais complexo: há investigações relevantes dos dois lados, há fatos que precisam continuar sendo esclarecidos e há uma diferença fundamental entre indício, investigação, denúncia e condenação.
No caso de Flávio Bolsonaro, especialmente, os episódios envolvendo Adriano da Nóbrega, Fabrício Queiroz, as operações imobiliárias e, agora, Daniel Vorcaro e Dark Horse são fatos de interesse público e merecem escrutínio ainda maior por uma razão objetiva: além de exercer mandato no Senado, ele disputa a Presidência da República.
Conforme ressalta o site Jamildo.com, isso não autoriza antecipar culpa. Mas torna legítimo cobrar respostas, transparência e esclarecimentos sobre fatos documentados que envolvem alguém que pretende ocupar o cargo mais importante do país.
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