Jamildo Melo | Publicado em 17/08/2026, às 09h44 - Atualizado às 09h59
A eleição da Mainha contra o Herdeiro
Por Thomas Traufmann, no Globo deste segunda
Dia sim e outro também, o coordenador da agenda da campanha de Lula, Gilberto Carvalho, recebe duas mensagens. De um lado, a turma do ex-prefeito do Recife, João Campos, do PSB, cobra a definição de quando o presidente vai a um comício em Pernambuco. Do outro, políticos de vários partidos sugerem que a agenda de Lula pule o estado onde nasceu para manter o apoio discreto da governadora Raquel Lyra, do PSD. Na sexta-feira (14), Lula gravou, em Brasília, um spot que será usado pela campanha de João Campos. O comício no Recife, porém, não está marcado.
A disputa pelo governo de Pernambuco reúne dois dos políticos mais promissores da nova geração. Raquel Lyra, 47 anos, é uma governadora workaholic com uma das administrações mais bem avaliadas do país. João Campos, 32, foi por duas vezes o prefeito mais jovem do Recife e o próprio Lula o citou como um possível sucessor seu em 2030. No marketing das duas campanhas, Raquel é a mainha, a administradora cuidadora. Campos é o herdeiro, o jovem que abre o caminho de uma nova geração.
Meses atrás, até os tubarões da praia de Boa Viagem achavam que João Campos estava eleito. Ele renunciou à prefeitura com ampla aprovação, mas o caos no Recife com as enchentes de abril, maio e junho abalaram o prestígio de bom administrador. Sem cargo, ele ficou na defensiva, enquanto a governadora reforçou seu papel de mãe solidária aparecendo nos resgates de desabrigados.
Quando prefeito, João Campos virou um fenômeno político da internet. Com uma linguagem direta, parecia um herói de história em quadrinhos, estando em todos os lugares ao mesmo tempo. Quando assumiu a Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira chamou metade da equipe de João Campos para arrumar as redes digitais de Lula.
Em desvantagem nas redes sociais, a governadora Raquel Lyra reequilibrou o jogo com uma solução fácil de apontar, mas difícil de executar, a de colar no governador as obras do governo. A sua administração, segundo a Genial/Quaest, é aprovada por 68% ante 23% de desaprovação. Os vídeos de apresentação de obras com o “Cola na Mainha”, mostrando a governadora com capacete e cabelo preso viraram hit. Apenas nas últimas duas semanas, ela ganhou quase 50 mil novos seguidores no Instagram, contra 11 mil de João Campos. O ex-prefeito ainda tem mais seguidores, 3 milhões contra 1,9 milhão.
Na pesquisa Genial/Quaest de julho, Raquel liderava por 43% a 37%. Como o terceiro colocado tem 1%, a parada deve ser resolvida no primeiro turno. Na simulação de segundo turno, Raquel venceria 45% a 39%.
A trajetória dos dois adversários se confunde. Ambos são da alta linhagem da política local. João Campos é bisneto do histórico Miguel Arraes (1916-2005) e filho do candidato a presidente Eduardo Campos (1965-2014). Num vídeo usando inteligência artificial, João Campos aparece adolescente sendo abençoado pelos dois como o herdeiro de um legado.
Raquel é sobrinha do ex-ministro Fernando Lyra (1938-2013), candidato a vice de Leonel Brizola em 1989, e filha de João Lyra Neto, que foi duas vezes vice-governador de Eduardo Campos. A própria Raquel foi secretária estadual de Criança e Juventude de Eduardo Campos, antes das duas famílias brigarem quando o PSB negou legenda para ela ser candidata a prefeita de Caruaru. Ela saiu do partido e foi eleita duas vezes.
As suas vidas são marcadas por tragédias. Raquel perdeu o marido, morto por infarto no dia da eleição do primeiro turno de 2022. Raquel mascarou o luto trabalhando mais de doze horas por dia no Palácio do Campos das Princesas, caindo muitas vezes no microgerenciamento da gestão.
João Campos perdeu o pai na queda de avião em agosto de 2014. Órfão, entrou de corpo e alma na política. Virou o deputado federal mais votado de Pernambuco, casou-se com a deputada paulista Tabata Amaral, foi eleito prefeito do Recife aos 27 anos e reeleito com 78% dos votos.
Parte da resistência a um apoio ostensivo de Lula a João Campos parte pela sua projeção nacional. Presidente nacional do PSB, ele é responsabilizado pelas dificuldades do partido com suas alianças com o PT da Bahia, do Distrito Federal e do Paraná. O ex-ministro e ex-governador da Bahia Rui Costa defendeu publicamente a neutralidade de Lula em Pernambuco.
Embora formalmente o PSD tenha Ronaldo Caiado como presidenciável, Raquel Lyra não foi (e nem deve ir) a nenhum ato do candidato. A sua chapa para o Senado inclui o ultrabolsonarista Mendonça Filho, o centrão de Dudu da Fonte, e o lulista Túlio Gadelha. A chapa de senadores de João Campos, com Humberto Costa e a prima Marília Arraes, é toda lulista.
Lula teve dois de cada três votos em Pernambuco em 2022 e seu apoio tem peso. Nas simulações internas das duas campanhas, o ex-prefeito ganha de quatro a oito pontos percentuais quando é apresentado como “João Campos apoiado por Lula”. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro é tóxico. A pressão sobre a agenda de Lula vai continuar até o último dia da campanha.
PS do site: Em marco deste ano, o site Jamildo.com escreveu Quem é hoje o maior adversário de João Campos dentro do PT — e por quê?
Ricardo Leitão: O fantasma do segundo turno
Lula faz gesto a João Campos ao afirmar que socialista poderá ser um dos líderes da esquerda no futuro
Frente Popular grava conteúdos de campanha com Lula; João Campos fala sobre vinda do petista a PE