Cynara Maíra | Publicado em 26/01/2026, às 11h50 - Atualizado às 12h45
Em entrevista coletiva nesta segunda-feira (26), a Secretaria de Defesa Social (SDS) trouxe a versão do órgão sobre o monitoramento do secretário de Administração do Recife, Gustavo Monteiro.
O caso ganhou repercussão após a a reportagem do programa Domingo Espetacular, da TV Record. A matéria indicaria um suposto uso da inteligência por policiais civis contra o aliado do prefeito João Campos (PSB).
A decisão de escalar a cúpula da segurança para explicar o caso ocorreu logo após a exibição das mensagens trocadas entre agentes públicos. O governo busca detalhar a investigação preliminar, batizada internamente de "Nova Missão".
Durante o encontro com a imprensa, a SDS negou a existência de espionagem política contra a Prefeitura do Recife. O secretário Alessandro Carvalho e o chefe da Polícia Civil, Felipe, apresentaram a versão do governo sobre a operação "Nova Missão".
Carvalho classificou a narrativa de arapongagem como "falsa" e "tendenciosa".
Segundo a reportagem, agentes da Polícia Civil monitoraram a rotina do secretário e de seu irmão, Eduardo Monteiro, entre agosto e outubro do ano passado.
O monitoramento incluiu vigilância física, relatórios em tempo real em grupos de mensagens e o uso de ferramentas tecnológicas como o software Clearview, ferramenta de reconhecimento facial.
Segundo o secretário, a Polícia Civil realizou uma verificação preliminar entre agosto e outubro do ano passado para apurar uma denúncia anônima sobre suposto pagamento de propina e percentuais de contratos envolvendo um veículo oficial da Prefeitura, um Gol branco alugado.
O secretário sustentou que a equipe de inteligência focou as diligências no automóvel e não na vida pessoal do secretário ou de seus familiares. A investigação preliminar terminou sem comprovação de ilícitos e a corporação arquivou o caso.
A SDS acredita na hipótese de vazamento das mensagens e imagens da operação a um policial civil que integrava o grupo de inteligência.
A corporação afastou esse agente em novembro do ano passado. O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, flagrou o servidor em uma reunião com o presidente da Câmara de Vereadores de Ipojuca, político investigado e preso por desvio de recursos.
"A hipótese mais forte é que o vazamento se deu por esse servidor. Ele foi flagrado passando informações reservadas para uma organização criminosa", afirmou Carvalho.
A Polícia Civil abrirá inquérito para apurar o crime de violação de sigilo profissional.
O governo defendeu a legalidade dos métodos aplicados. Alessandro Carvalho explicou que o uso de rastreadores e a vigilância em vias públicas dispensam autorização judicial. O secretário diferenciou essas práticas da interceptação telefônica ou quebra de sigilo bancário, que exigem aval da Justiça.
A jurisprudência majoritária entende que veículo não é asilo inviolável, permitindo busca com fundada suspeita (CPP, art. 240, §2º), e GPS, não captando áudio ou invasão domiciliar.
"Não foi lançado mão de nenhum tipo de procedimento que precisasse de autorização judicial. Vigilância é uma técnica de investigação utilizada por qualquer polícia do mundo", disse o secretário.
Sobre a compra de equipamentos como rastreadores (tags), Carvalho esclareceu que o uso de verba de suprimento de fundos para despesas sigilosas segue normas administrativas e visa proteger a identidade da polícia em operações encobertas. A reportagem questionava a compra da tag de rastreamento pelo próprio delegado.
A SDS exibiu a denúncia anônima que motivou a operação. O documento relatava encontros em shopping centers e estacionamentos para entrega de valores. O texto continha fotos do veículo e nomes de servidores.
O chefe da Polícia Civil, Felipe, reforçou que a instituição não investiga pessoas, mas fatos. Alessandro argumentou que a polícia prevaricaria caso ignorasse uma denúncia com elementos de coerência, independentemente de envolver agentes políticos.
Segundo o secretário, a denúncia anônima chegou à sede da SDS.
Alessandro Carvalho informou que a governadora Raquel Lyra (PSD) determinou transparência total sobre o caso. A gestora ordenou que a pasta prestasse todas as informações à imprensa e apurasse as responsabilidades sobre o vazamento.
O secretário negou qualquer motivação política na origem da investigação, mas admitiu que o vazamento dos dados pode ter tal finalidade.
Alessandro afirmou que a divulgação do rosto e nome completo dos chefes de inteligência da Polícia pode ser um motivo para os citados processarem o veículo de comunicação responsável, mas disse que é escolha do Governo de Pernambuco como entidade a possibilidade de adotar medidas legais.
O secretário Gustavo Monteiro disse estar indignado e classificou o episódio como "incompatível com o Estado Democrático de Direito". A Prefeitura do Recife emitiu nota de repúdio ao suposto uso da força policial para fins políticos e prometeu adotar medidas administrativas e judiciais. A defesa do secretário avalia levar o caso à Polícia Federal.
O prefeito de Garanhuns, Sivaldo Albino (PSB), acusou a gestão de Raquel Lyra de montar uma "operação clandestina".
"Fica provado pela reportagem que o Governo do Estado montou uma polícia paralela para investigar adversários políticos. A linha democrática foi rompida, tal e qual os piores momentos da ditadura militar", declarou Albino.
O Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol) relatou que servidores denunciaram pressões para realizar monitoramentos políticos. O presidente da entidade, Áureo Cisneiros, afirmou que delegados sofrem retaliações, como transferências, quando se recusam a cumprir tais ordens.
Após a reportagem, diversas entidades criticaram a gestão da governadora por uma conduta supostamente criminosa, ameaçando levar o tema para instâncias maiores da justiça.
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