Opinião: Tariflávio no meio do tiroteio

Ricardo Leitão | Publicado em 13/07/2026, às 08h37 - Atualizado às 08h57

Mão de Flávio Bolsonaro com escrita "PT Tax Party", que significa PT, partido das taxas - Reprodução/Instagram Flávio Bolsonaro
COMPARTILHE:

Ler resumo da notícia

Por Ricardo Leitão, em artigo para o site Jamildo.com

Considerando-se um arguto observador de cenários políticos futuros, o candidato presidencial da direita, Flávio Bolsonaro, escreveu uma carta premonitória ao seu mentor, Donald Trump. Nela, alerta o presidente dos Estados Unidos de que só deve decretar o novo tarifaço contra o Brasil depois das eleições de outubro, do contrário, Luiz Inácio Lula da Silva, seu maior adversário, seria favorecido.

Tariflávio – como passou agora a ser conhecido – é um vidente singular: prevê a vitória de Lula e, para impedi-la, recorre a um aliado que não tem a menor credibilidade.

Não bastasse, viajou para os Estados Unidos, onde se infiltrou em uma reunião técnica sobre as novas tarifas e repetiu a mesma argumentação da carta enviada a Trump.

As palavras do candidato da direita foram recebidas por um sonoro silêncio. Talvez porque ele falou menos de cinco minutos, em um inglês precário aprendido com o irmão Eduardo, deputado federal cassado, condenado no Brasil a quatro anos de prisão e refugiado na Flórida.

Eduardo orgulha-se de sua fluência no idioma de Trump, que teria aprendido no tempo em que vendia hambúrguer nas calçadas de Chicago.

Flávio Bolsonaro tenta se esquivar das balas do tiroteio que o cerca.

O tarifaço será decretado, caso seja do interesse da Casa Branca e dos lobistas que atuam no Congresso norte-americano.

Se for prejudicial à sua campanha, paciência: Trump buscará outro candidato imediatamente, com melhores condições de derrotar Lula ou outro nome que represente a esquerda.

A questão, para ele, não é vencer ou perder com Flávio; é derrotar a esquerda e incorporar o Brasil ao plano de direitização da América Latina.

Tariflávio ainda está sendo investigado pela Polícia Federal por suas relações com Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, a maior fraude financeira do Brasil, estimada em R$ 60 bilhões. Vorcaro teria “patrocinado”, por R$ 132 milhões, o filme Dark Horse, biografia de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, a ser lançado durante a campanha eleitoral. Vorcaro já teria liberado R$ 62 milhões.

Ao patrocínio do ex-banqueiro, hoje preso em Brasília, se junta a situação dos dois candidatos ao Senado, lançados pelos bolsonaristas no Rio de Janeiro: o ex-governador Cláudio Castro e o ex-prefeito de Belfort Roxo, Márcio Capella. Os dois estão sendo investigados por corrupção. Rogéria Bolsonaro, mãe biológica de Flávio, é a primeira suplente de Capella.

E há Michelle Bolsonaro, madrasta de Flávio, uma espécie de fada evangélica, comandando um batalhão de seguidores nas redes sociais. Madrasta e enteado se detestam. Ela retirou seu apoio à candidatura presidencial de Flávio e mantém seu nome na disputa para o Senado pelo Distrito Federal, com amplo favoritismo.

Continua na liderança do Projeto Alicerça Brasil (PAB), com mais de cinco mil núcleos em todo o País, formado por mulheres conservadoras na política e nos costumes, de todas as idades, na maioria evangélicas como Michelle.

O PAB tem como missão a defesa da família, da Pátria e da liberdade. No ano passado, o Partido Liberal – legenda a que a ex-primeira-dama é filiada – reservou R$ 16 milhões para as atividades do projeto, recursos superiores ao montante destinado pelo PT ao Movimento de Mulheres do Partido.

É impossível prever se as militantes do PAB votarão ou não com Tariflávio. Contudo, sem dúvida, elas representam um segmento do eleitorado onde é fraca a inserção do candidato da direita. Era aí que a madrasta poderia ajudá-lo. Poderia.

Caso o enteado continue se arrastando na campanha, obrigado a se esgueirar do tiroteio, vai se acender uma luz de alerta no seu estado maior. Seu nome foi imposto à direita pelo pai, preso em Brasília por tentativa de derrubar Lula. O filho de início se mostrou competitivo e afastou concorrentes, como Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.

Se não recuperar o empuxo, outros nomes podem ressurgir, por pressão da direita brasileira e internacional. Dentro desta, não se pode descartar as articulações de Trump que, como é sabido, usa de todos os meios para vencer. Que o digam a Venezuela e a Colômbia.

A desidratação de Tariflávio abre inicialmente espaço para Tarcísio de Freitas. Ele disputa a reeleição contra o petista Fernando Haddad e é favorito. Seu projeto seria se candidatar à presidência da República apenas em 2030, quando Lula não estará mais na disputa. Entretanto, o projeto pode ser antecipado e Freitas substituir Flávio, agora.

Da mesma forma, 2030 está no alvo de Michelle, que se apresentaria como a única herdeira eleitoral do espólio de votos do marido, sem qualquer nódoa de corrupção, como é o caso de Flávio e suas ligações com Daniel Vorcaro.

2030 ainda faz parte dos sonhos de Jair Bolsonaro, que acredita na aprovação de sua anistia pelo Congresso, o que lhe daria condições de tentar retornar ao Palácio do Planalto. Nada disso favorece Tariflávio. Recorrer ao pai para conter a madrasta está fora de cogitação.

“Ela é incontrolável”, teria dito o ex-presidente a amigos preocupados com a cizânia do clã.

Apesar do tiroteio, o candidato da direita permanece competitivo, o que denota a força do voto conservador no Brasil. Lula, segundo as pesquisas de hoje, o venceria no primeiro turno, por uma margem apertada; porém, no segundo turno, os números mostram que os dois estariam matematicamente empatados dentro das margens de erro das amostragens.

Aparentemente, a menos de cem dias da eleição, em 4 de outubro, Lula e Flávio teriam alcançado o seu teto, tendo seus crescimentos contidos pelos índices de rejeição dos eleitores, quase iguais.

A partir de agora teriam de crescer conquistando indecisos ou recuperando eleitores que, antes seus, passaram a votar no adversário. É uma realidade constatada em pesquisa Datafolha de junho passado: 24% dos eleitores de Lula se dizem de direita e 19% dos eleitores de Flávio se dizem de esquerda.

O petista teria uma pequena vantagem na repescagem que, no entanto, não lhe asseguraria uma vantagem folgada. Ou seja: a luta continua, voto a voto como foi em 2022 e como sempre será diante do desafio de enfrentar a direita e devolvê-la aos porões.

Opinião EUA Ricardo Leitão

Leia também

A saúde mental de Donald Trump


Após três meses de empate, Lula ultrapassa Flávio Bolsonaro no segundo turno em pesquisa da Quaest


Quaest divulga pesquisa sobre impacto do tarifaço de Trump na disputa Lula x Flávio Bolsonaro