Ricardo Leitão | Publicado em 18/03/2026, às 12h38 - Atualizado às 12h39
Dois dias depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir mantê-lo preso, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro substituiu o seu principal defensor, o advogado Pirpaolo Bottini pelo igualmente conceituado José Luís Oliveira Lima. Atuantes nas cortes superiores em Brasília, os dois têm uma notável diferença no trabalho: Lima sempre recorre à delação premiada dos réus que defende. Foi assim que procedeu, por exemplo, no processo do ex-presidente da OAS, no auge da Operação Lava-Jato.
Uma delação premiada de Vorcaro, proprietário do Banco Master e mentor de uma fraude estimada em R$ 60 bilhões, é uma bomba chiando no céu de Brasília, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Com a conivência, a omissão e a participação de altas autoridades da República, o ex-banqueiro lançou uma teia de tráfico de influência que o levou a ser festejado nos gabinetes dos próceres e ser anfitrião de festas only for men, onde os presentes se despiam de ornamentos protocolares para desfrutar de alegres companhias.
O Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro passado, quando se tornou insolvente e Vorcaro foi preso pela primeira vez. A decisão de mantê-lo em uma cela de doze metros quadrados na penitenciária de segurança máxima de Brasília sinaliza uma pena longa para o ex-banqueiro. Ademais, porque as investigações da Polícia Federal sobre a fraude – recorde na história – estão apenas começando.
Em buscas na casa de Vorcaro, em São Paulo, os agentes federais apreenderam oito celulares. A extração das mensagens gravadas no primeiro deles (os demais também serão periciados) demonstra um desempenho fantástico da quadrilha chefiada pelo ex-banqueiro: lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, corrupção de funcionários públicos, coação e ameaça de desafetos, planejamento de atentado a um jornalista e contratação de capangas.
Neste último caso, o nome principal é o de Luís Felipe Machado Mourão, vulgo Sicário, denominação para matador de aluguel. Sicário morreu em Belo Horizonte, depois de tentar se enforcar em uma repartição da Polícia Federal, onde estava preso, horas antes de ser interrogado.
Diálogos dele com Vorcaro, extraído do celular do ex-banqueiro, são explícitos: "Tem que moer essa vagabunda”, ordena o ex-banqueiro, se referindo a uma mulher identificada como Monique; “Dá um pau nele, quebre os dentes, simula um assalto”, mandando Sicário espancar o jornalista Lauro Jardim, de O Globo; “Seria bom dar um sacode primeiro, o outro vai se assustar", sentencia Vorcaro, insatisfeito com os pratos servidos pelo chefe de cozinha de seu iate.
A PF investiga se essas vítimas foram atingidas por Sicário ou outros quadrilheiros, embora suas atenções estejam mais voltadas para integrantes do STF, do Senado, da Câmara dos Deputados e do Executivo - magistrados, parlamentares, ministros e governadores que abriram portas para ou contrataram serviço do ex-banqueiro.
A lista é longa e pluripartidária: David Alcolumbre, presidente do Senado; Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados; Ciro Nogueira, presidente nacional do Partido Progressista; Antônio de Pádua, presidente nacional do União Brasil; Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal; Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro; Rui Costa, ex-governador da Bahia; ACM Neto, ex-prefeito de Salvador, e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, assessor especial de Vorcaro, com proventos de R$ 1 milhão mensais.
Ainda seriam tantos os senadores e deputados federais fiéis ao ex-banqueiro que passaram a ser denominados de “bancada do Master”. Não é de surpreender, portanto, que nenhuma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a fraude monumental, que vitimou milhões de brasileiros, tenha apoio suficiente para que seja instalada e investigue os responsáveis pelo grande golpe.
O escândalo feriu profundamente a imagem institucional do STF, há meses perdendo prestígio na opinião pública. Dois de seus mais conhecidos ministros – Dias Toffoli e Alexandre de Moraes – foram envolvidos em episódios relacionados ao Master. Toffoli, primeiro relator do caso no Supremo, só renunciou à função depois que um documento da Polícia Federal atestou que ele fora sócio de um Resort de luxo vendido a um fundo de investimento vinculado a Vorcaro. No caso de Alexandre de Moraes, o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci, prestou serviço ao Master durante três anos pelo valor mensal de R$ 3,6 milhões, um total de R$ 129 milhões no período. O contrato só terminou em dezembro passado, depois da liquidação do Master pelo Banco Central.
As notas oficiais anunciam “veemente repúdio" aos fatos que se acumulam, gerando acusações mútuas e radicalização na guerra nas redes sociais. No entanto, não impedem – ao contrário – que a fraude se consolide como um dos eixos da campanha eleitoral. A direita tentará colar em Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade pelo escândalo, por omissão do Banco Central, embora tenha sido o BC que liquidou o Master. A esquerda vai tentar apresentar o ex-banqueiro como um oportunista bem sucedido, apoiado por forças políticas ligadas ao bolsonarismo.
Será uma batalha ferrenha de narrativas.
Nos ofidiários de Brasilia, de São Paulo e do Rio de Janeiro, cultiva-se um temeroso silêncio. Quem tem o que perder – e são muitos – torce para que Vorcaro e outros cabeças da quadrilha não falem. Porém, a possibilidade da delação premiada aumenta muito o risco de que a bomba exploda, agora ou em plena campanha eleitoral. Daniel Vorcaro pode se transformar na caixa preta do lado podre da República.
Depois da fraude, a operação abafa
Qual será a repercussão, nas eleições de 2026, da prisão de Bolsonaro, inelegível até 2060 ?
Ricardo Leitão: Apesar de tudo, há tempo para melhorar?