Com redes sociais e IA no centro da disputa de 2026, eleitor enfrenta ambiente mais complexo para distinguir informação, manipulação e apelo emocional
por Jamildo Melo
Publicado em 28/09/2026, às 12h16 - Atualizado às 12h57
A polarização política pode transformar divergências eleitorais em conflitos de identidade e pertencimento
Redes sociais e inteligência artificial ampliam a velocidade e o alcance de conteúdos capazes de explorar emoções e reforçar divisões
Para Álvaro Azevedo Neto, pensamento crítico, educação midiática e respeito às diferenças serão fundamentais para preservar o debate democrático
Extremismo, exclusão e o novo desafio psicológico das eleições brasileiras
Por Alvaro Azevedo Neto, em artigo para o site Jamildo.com
As eleições constituem um dos principais instrumentos de nossa democracia, já que elas são uma das mais importantes formas de participação popular. Contudo, no Brasil contemporâneo, elas representam momentos de intensa mobilização emocional.
Observa-se que a disputa política deixou de ser um confronto entre projetos de governo para se transformar em uma disputa identitária, na qual o pertencimento a determinado grupo político passa a ocupar um lugar central na visão de si do eleitor.
Isso favorece a radicalização das posições e reduz significativamente a disposição para o diálogo, uma vez que a divergência política deixa de ser percebida como uma diferença legítima de opiniões e passa a ser vivida como uma ameaça pessoal ou moral.
Sob a perspectiva da Psicologia Social, esse fenômeno encontra explicação na necessidade humana de pertencimento. As pessoas organizam sua percepção do mundo por meio de grupos com os quais se identificam, construindo uma distinção entre "nós" e "eles".
Essa dinâmica é vista pela Psicologia como produtora de um efeito conhecido como favoritismo endogrupal. Tende-se a valorizar os membros do próprio grupo e a desqualificar aqueles pertencentes ao grupo adversário.
Em períodos eleitorais marcados por forte polarização, essa divisão é intensificada pela velocidade das redes sociais, pelos algoritmos que reforçam preferências e pela circulação constante de conteúdos capazes de despertar emoções como medo, indignação e sentimento de ameaça.
A Psicologia acrescenta outro elemento importante a essa compreensão, ao destacar que grupos frequentemente funcionam como espaços de projeção. Emoções como medo, frustração, insegurança e ressentimento podem ser deslocadas para um adversário político, que passa a representar simbolicamente tudo aquilo que é percebido como ameaça.
Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, demonstrou que, em determinadas circunstâncias, o vínculo emocional estabelecido com um líder ou com uma coletividade pode reduzir a capacidade crítica dos indivíduos, favorecendo respostas impulsivas e maior disposição para aceitar explicações simplificadas sobre problemas complexos.
As eleições de 2026 também apresentam um elemento inédito na história política brasileira. Pela primeira vez, o centro da disputa eleitoral tende a se deslocar definitivamente para as redes sociais e sistemas de comunicação eletrônica, que deixam de ser apenas um instrumento complementar de campanha para se tornarem o principal ambiente de formação de opinião pública.
Soma-se a isso a popularização das ferramentas de inteligência artificial, capazes de produzir imagens, vídeos, áudios e textos extremamente convincentes em poucos segundos.
Esse novo cenário amplia o potencial de desinformação, dificulta a distinção entre conteúdos autênticos e manipulados e impõe ao eleitor um esforço cognitivo muito maior para avaliar a credibilidade das informações que consome diariamente.
Nesse contexto, o extremismo político deixa de depender apenas dos discursos tradicionais e passa a ser impulsionado pela velocidade, pela personalização e pela capacidade de viralização das plataformas digitais.
Quando o adversário deixa de ser visto como um cidadão que pensa diferente e passa a ser tratado como um inimigo moral, que deve ser excluído do debate público, instala-se um processo de desumanização que enfraquece a convivência democrática.
A inteligência artificial, embora represente um extraordinário avanço tecnológico, também poderá ser utilizada para potencializar narrativas manipuladoras, reforçar preconceitos e explorar vulnerabilidades emocionais dos eleitores, exigindo maior responsabilidade de candidatos, plataformas e instituições.
Diante desse cenário, fortalecer a democracia exige muito mais do que combater notícias falsas. Será indispensável desenvolver uma cultura de pensamento crítico, educação midiática e responsabilidade digital. A nossa capacidade de verificar informações, reconhecer manipulações e conviver com opiniões divergentes torna-se uma competência humana essencial.
Em uma sociedade plural, o verdadeiro desafio não é eliminar o conflito político, mas impedir que ele seja transformado em intolerância, exclusão e violência. Preservar a democracia dependerá, cada vez mais, da nossa maturidade psicológica para utilizar as novas tecnologias sem abrir mão dos valores fundamentais do diálogo, do respeito e da convivência democrática.
Alvaro Azevedo Neto é Mestre em Ciência Política, Doutor em Direito Constitucional, professor de Direito do Centro Universitário Tiradentes (Unit) e psicólogo