Banco de Edir Macedo é alvo de operação da PF contra fraudes no sistema financeiro; entenda

Banco Digimais do bispo Edir Macedo foi alvo de operação da PF por supostas fraudes usando fundos de investimentos para ocultar real situação econômica

Cynara Maíra

por Cynara Maíra

Publicado em 23/06/2026, às 12h53 - Atualizado às 13h43

Edir Macedo
Reprodução Instagram Templo de Salomão

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem para investigar fraudes financeiras no Banco Digimais. A instituição digital pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da RecordTV.

Os agentes cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. A ordem judicial também determinou o bloqueio de bens no valor de até R$ 670 milhões e a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

A corporação apura supostos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em balanços e operações de crédito proibidas. Relatórios detalhados do Banco Central (BC) subsidiaram o pedido das ordens judiciais.

As manobras contábeis investigadas

A PF aponta que os administradores fraudaram demonstrativos contábeis para esconder a real situação econômica do banco. O objetivo principal seria aparentar boa saúde financeira diante dos órgãos de fiscalização.

"O Banco Digimais, sob o controle de Edir Macedo, adotou práticas financeiras temerárias", afirmou a Polícia Federal em relatório enviado à Justiça. A corporação comparou as táticas da diretoria com as fraudes que provocaram a quebra do Banco Master.

A investigação descobriu que o Banco Central exigiu que Edir Macedo injetasse R$ 250 milhões no banco até dezembro de 2025 para cobrir um rombo. O controlador descumpriu a ordem e realizou uma manobra por meio de sua empresa, a B.A. Empreendimentos.

O balanço de 2025 registrou um aporte real de R$ 125 milhões e uma suposta compra de R$ 741,3 milhões em cotas do fundo Hermon. A PF afirma que o negócio simulou uma operação de crédito regular para livrar o dono de colocar dinheiro do próprio bolso.

Créditos inflados e fundos sem auditoria

O relatório policial indica que o Digimais utilizou ativos superfaturados para sustentar artificialmente seu balanço patrimonial. O BC identificou que direitos creditórios comprados por R$ 71 milhões passaram a valer R$ 741 milhões após reavaliações internas da empresa.

A auditoria Clifton Larson Allen Brasil já havia emitido um alerta sobre o balanço do segundo semestre de 2025. O Digimais aplicou R$ 3 bilhões em fundos de investimento que não tinham documentos mínimos para auditoria, somando 73% das aplicações da instituição.

A agência de classificação de risco Fitch rebaixou e retirou a nota de crédito do Digimais na segunda-feira (22). A empresa alegou falta de informações transparentes e incertezas em torno de processos judiciais envolvendo ativos sem lastro.

Alvos da PF e venda suspensa

Os mandados de busca miraram diretores da instituição e executivos da gestora ID Serviços Financeiros. O bispo Edir Macedo não sofreu buscas em sua residência por morar no exterior, mas a Justiça autorizou o confisco de suas contas patrimoniais.

A lista de alvos inclui o presidente interino do banco, João Alves de Campos, o diretor jurídico Marcelo de Lima Brasil, o diretor contábil Rodrigo Ruggero e os dirigentes João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja.

A descoberta das irregularidades fez o Banco Central suspender o processo de venda do Digimais para o BTG Pactual, anunciado em abril. O acordo de intenção de compra dependia de um empréstimo de R$ 5 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), transação que agora deve ser cancelada.