Derrota republicana era esperada. Custo de vida e desgaste do governo pesaram na eleição que retirou dos republicanos controle do Congresso americano
por Jamildo Melo
Publicado em 04/11/2026, às 07h31 - Atualizado às 07h32
Os democratas conquistaram a maioria na Câmara e no Senado dos Estados Unidos, segundo projeções da imprensa
Custo de vida, desgaste de Trump e insatisfação com a guerra contra o Irã marcaram a eleição
O resultado amplia o poder da oposição para barrar propostas e fiscalizar o governo americano
A derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), combina insatisfação econômica, desgaste do presidente Donald Trump e avanço democrata em estados tradicionalmente conservadores.
Segundo projeções da imprensa americana, os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado. A apuração ainda estava em andamento nesta quarta-feira (4), com disputas pendentes de definição.
As chamadas midterms renovam toda a Câmara e aproximadamente um terço do Senado. Embora Trump não disputasse um cargo, o resultado altera as condições políticas para os dois últimos anos de seu mandato.
Pesquisas e resultados estaduais ajudam a identificar cinco fatores associados à derrota. São elementos que se sobrepõem: os levantamentos apontam as preocupações dos eleitores, mas não permitem atribuir uma parcela exata do resultado a cada tema.
A dificuldade de pagar as contas foi um dos principais obstáculos para os republicanos. Trump voltou à Casa Branca prometendo combater a inflação, mas chegou às eleições com uma avaliação negativa nessa área.
Uma pesquisa AP-NORC divulgada em outubro mostrou que apenas 17% dos adultos aprovavam sua atuação sobre o custo de vida. Para 65%, as políticas do presidente tinham mais responsabilidade pelos preços elevados do que fatores fora de seu controle.
O dado ajuda a entender por que a economia, que favoreceu Trump em 2024, passou a representar um problema para seu partido.
A política externa também entrou na avaliação econômica do governo. A guerra contra o Irã e as tarifas sobre produtos importados foram associadas pelos eleitores ao encarecimento da vida nos Estados Unidos.
Em levantamento do Chicago Council on Global Affairs, realizado em julho, 86% avaliaram que a guerra prejudicava o custo de vida. Sobre as tarifas, essa percepção alcançava 81%.
Esses números medem a opinião dos entrevistados, não o impacto econômico isolado de cada medida. Politicamente, porém, mostram que decisões centrais do governo eram vistas como parte do problema enfrentado pelas famílias.
A eleição legislativa também funcionou como uma avaliação do presidente. Dados preliminares de boca de urna divulgados pela CBS apontavam aprovação de 38% para Trump.
Cerca de seis em cada dez eleitores disseram que o presidente pesou em sua escolha para a Câmara. A oposição a ele mobilizava especialmente os que votavam nos democratas.
O resultado indica os limites da tentativa de separar as candidaturas republicanas da avaliação do governo federal.
Além da insatisfação com os preços, parte do eleitorado queria ampliar o controle do Congresso sobre a Presidência.
Segundo pesquisa de boca de urna citada pela Reuters, sete em cada dez eleitores defendiam que o Legislativo estabelecesse mais limites à atuação de Trump.
A vitória democrata atende a essa demanda institucional: o controle das Casas permite à oposição dificultar a aprovação de propostas e ampliar a fiscalização do Executivo. Isso não significa, porém, adesão automática dos eleitores a toda a agenda democrata.
O descontentamento nacional encontrou candidatos capazes de disputar estados onde os republicanos costumavam vencer.
No Texas, James Talarico derrotou Ken Paxton e encerrou um período sem vitórias democratas para o Senado que vinha desde 1988. Sua campanha combinou preocupações econômicas, referências à fé cristã e um discurso de união política.
Os democratas também conquistaram cadeiras republicanas em estados como Kansas, Ohio, Iowa e nas duas Carolinas. A extensão dessas vitórias mostra que a derrota ultrapassou os territórios habitualmente mais disputados.
Trump procurou afastar a interpretação de derrota pessoal. Nas redes sociais, afirmou que os republicanos teriam vencido com ampla vantagem se seu nome estivesse nas cédulas. Trata-se da interpretação do presidente sobre o resultado.
Ao mesmo tempo, declarou estar disposto a aceitar o desfecho e trabalhar com os democratas. A disposição anunciada para negociar será testada quando a nova composição do Congresso assumir, em janeiro de 2027.
Com a oposição no comando das duas Casas, o governo terá mais dificuldade para aprovar sua agenda. No Senado, os democratas também poderão bloquear indicações presidenciais. Trump mantém o poder de veto, o que torna a negociação entre Executivo e Legislativo decisiva para os próximos dois anos.