MPF abre inquérito sobre instalação de rede elétrica em quilombo pernambucano

Segundo MPF, irá ser apurado se concessionária Neonergia instalou rede elétrica em área quilombola sem prévia autorização

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 31/08/2026, às 10h31 - Atualizado às 15h23

Sede do MPF, no Recife
MPF investiga obras na rede elétrica em território quilombola de Garanhuns e apura se intervenções começaram sem consulta prévia à comunidade - Divulgação

O MPF abriu inquérito para investigar obras de ampliação da rede elétrica na Comunidade Quilombola de Estivas, em Garanhuns, diante da alegação de falta de consulta prévia aos moradores.

A apuração também envolve relatos de oscilações frequentes de energia, com possíveis impactos sobre a escola e a unidade de saúde da região.

Uma audiência com a comunidade, Neoenergia Pernambuco e INCRA foi marcada para 22 de setembro para discutir as intervenções e o fornecimento de energia.

O Ministério Público Federal (MPF) em Pernambuco instaurou inquérito para investigar a realização de obras de ampliação da rede elétrica no território da Comunidade Quilombola de Estivas, localizado no município de Garanhuns, no Agreste pernambucano.

A apuração tem como foco a suposta ausência de consulta prévia, livre e informada aos moradores tradicionais antes do início das intervenções da concessionária, além de apurar a suposta precariedade crônica e as alegadas frequentes oscilações no fornecimento de energia que afetam tanto o Sítio Estivas quanto a comunidade vizinha de Castainho.

A medida foi formalizada pelo procurador Luciano Sampaio Gomes Rolim, do MPF, que converteu o procedimento preparatório em curso em inquérito para aprofundar as apurações.

Segundo os autos, a atuação do MPF foi motivada por uma representação da Associação Remanescente dos Quilombos do Sítio Estivas, denunciando a suposta instalação de postes e a expansão de linhas de transmissão sem o diálogo exigido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A comunidade relatou ainda que a instabilidade contínua na rede elétrica tem supostamente prejudicado serviços públicos essenciais, como o atendimento na Unidade Básica de Saúde local e o funcionamento das aulas na Escola Municipal Batista Esperança.

Em manifestações enviadas ao MPF, segundo os autos, a Neoenergia sustentou que a responsabilidade pela condução da consulta prévia caberia exclusivamente ao Estado e informou que as obras contam com dispensa de licenciamento ambiental junto à Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH).

Por outro lado, segundo o MPF, a própria empresa admitiu que o processo para obtenção de anuência para intervenção territorial perante o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) ainda se encontra pendente de conclusão.

Diante do impasse, o Ministério Público Federal ressaltou a necessidade de conciliar a modernização da infraestrutura energética com a salvaguarda estrita da identidade e dos costumes quilombolas.

A intervenção planejada pela distribuidora, segundo o MPF, prevê a retirada de linhas de média tensão de áreas de vegetação densa e difícil acesso, transferindo-as para as margens da estrada principal, medida que visa reforçar a estabilidade do abastecimento na escola e no posto de saúde, além de evitar incursões invasivas de manutenção no território tradicional.

Como parte dos próximos passos da investigação, o MPF agendou uma audiência conciliatória virtual para o dia 22 de setembro de 2026.

O encontro reunirá representantes da comunidade quilombola, da Neoenergia Pernambuco e da Superintendência Regional do INCRA com o propósito de pactuar um cronograma de intervenções que respeite as diretrizes territoriais quilombolas e solucione os problemas no fornecimento de energia na região.

Depois de aberto o espaço para o contraditório no Jamildo.com para a concessionária, a empresa divulgou uma breve nota.  "A Neoenergia Pernambuco informa que apresentou manifestação perante o Ministério Público Federal esclarecendo que a intervenção realizada na rede elétrica da Comunidade Quilombola Estivas se refere, exclusivamente, a serviços de manutenção e ampliação de carga, com o objetivo de melhorar a qualidade e a confiabilidade do fornecimento de energia aos moradores da localidade", explicou a empresa.