Tarifa zero no transporte público pode devolver R$ 45,6 bilhões ao bolso dos passageiros e reduzir desigualdades, diz pesquisa

Pesquisa da UnB aponta impacto econômico com gratuidade no transporte e indica potencial de redistribuição de renda e ampliação do acesso

Plantão Jamildo.com

por Plantão Jamildo.com

Publicado em 05/05/2026, às 15h03

Imagem de um terminal integrado, é possível ver dois ônibus, um branco e um cinza com detalhes azuis. O branco está escrito "TI Joana Bezerra"
Greve dos ônibus no Recife chega no segundo dia - Governo de Pernambuco/Divulgação

- Tarifa zero pode injetar R$ 45,6 bilhões por ano na economia

- Impacto total pode chegar a R$ 60,3 bilhões com gratuidades existentes

- Estudo aponta redução de desigualdades e ampliação do consumo

- Projeto de lei na Alepe propõe gratuidade no transporte em Pernambuco

Um estudo elaborado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) aponta que a adoção da tarifa zero no transporte público das capitais e regiões metropolitanas pode gerar uma injeção líquida de cerca de R$ 45,6 bilhões por ano na economia brasileira. O valor corresponde ao montante que deixaria de ser gasto pela população com passagens e passaria a circular em outros setores, como comércio e serviços.

A pesquisa integra o projeto “Tarifa zero e suas possibilidades de expansão no Brasil”, coordenado pelo Instituto de Ciência Política da UnB, com apoio da Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero no Congresso Nacional e da Fundação Rosa Luxemburgo. Os dados foram construídos a partir do cruzamento de informações da Pesquisa Nacional de Mobilidade (PEMOB 2024), do IBGE e de operadores de transporte coletivo em todo o país.

Considerando também os cerca de R$ 14,7 bilhões já movimentados anualmente por gratuidades existentes — como para idosos, estudantes e pessoas com deficiência — o impacto total estimado da política pode alcançar R$ 60,3 bilhões. Segundo os pesquisadores, trata-se de um volume comparável a grandes programas de transferência de renda. Para efeito de comparação, o Bolsa Família movimenta R$ 57,9 bilhões por ano nas capitais e regiões metropolitanas, enquanto a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil representa R$ 25,4 bilhões.

O levantamento aponta que o custo do transporte público representa parcela significativa do orçamento das famílias de baixa renda. Em alguns casos, esse comprometimento pode atingir níveis elevados, limitando o acesso a serviços essenciais. No Recife, o gasto médio anual com transporte público foi estimado em R$ 826,63, um dos mais altos do país.

De acordo com o coordenador da pesquisa, professor Thiago Trindade, a eliminação da tarifa pode ampliar a circulação de renda e reduzir desigualdades. “Sem a despesa com transporte, os trabalhadores tendem a direcionar esses recursos para consumo em setores locais, o que dinamiza a economia”, afirmou. Ele também destacou que o modelo atual restringe o deslocamento de parte da população. “A gente criou uma lógica onde você só pode circular se tiver dinheiro”, disse.

Imagem de um ônibus público azul enquanto circula nas ruas da cidade

Os pesquisadores avaliam que a tarifa zero deve ser entendida não apenas como política de mobilidade, mas também como instrumento de distribuição de renda e ampliação de acesso a direitos. O estudo aponta que o modelo tarifário vigente impacta de forma mais intensa populações de menor renda, moradores de áreas periféricas e grupos que dependem majoritariamente do transporte coletivo.

Além do impacto econômico, o trabalho analisa possibilidades de financiamento da política. Uma das alternativas consideradas é a substituição do vale-transporte por uma contribuição empresarial fixa por trabalhador, inspirada em modelos internacionais. Nesse cenário, empresas com mais de nove funcionários poderiam contribuir com cerca de R$ 250 por empregado, o que permitiria arrecadação estimada em R$ 80 bilhões anuais.

Outra hipótese avaliada é a implementação de gratuidade focalizada para pessoas inscritas no CadÚnico, o que reduziria o custo total da política, mas com menor alcance em termos de universalização do acesso. Segundo os pesquisadores, o modelo universal apresenta maior potencial de simplificação e inclusão social.

Projeto de Lei na Alepe

Plenário da Alepe

Em Pernambuco, a discussão sobre a tarifa zero já chegou à Assembleia Legislativa. Tramita na Casa o Projeto de Lei nº 3616/2025, que propõe a criação da Política Estadual da Tarifa Zero (PETZ) no sistema de transporte coletivo do Grande Recife.

A proposta é de autoria dos deputados estaduais João Paulo (PT) e Rosa Amorim (PT) e prevê a gratuidade integral no transporte metropolitano e intermunicipal, com financiamento público. O texto estabelece a criação do Fundo Estadual de Mobilidade com Tarifa Zero (FEMTZ), que reuniria recursos orçamentários, transferências federais, receitas de concessões e outras fontes.

De acordo com o projeto, a implementação da política deve respeitar regras fiscais, incluindo a Lei de Responsabilidade Fiscal, e ocorrer de forma gradual. A proposta também prevê mecanismos de governança, participação social e transparência na execução.

Para os autores, o modelo atual de financiamento do transporte limita o acesso da população a serviços básicos. O projeto sugere a substituição da lógica tarifária por um sistema sustentado por recursos públicos, vinculado à qualidade e à oferta do serviço.

O advogado Pedro Josephi, coordenador da Frente de Luta pelo Transporte Público, afirma, durante a audiência na Alepe, tem avançado no país. “O Governo Federal já tem estudos para implementação nas principais cidades e o Congresso Nacional também tem avançado na tramitação de legislações federais que permitam a adoção da tarifa zero. Pernambuco não pode ficar para trás”, disse.