Levantamento em dados oficiais cruza emendas parlamentares individuais com a votação de deputados federais em municípios pernambucanos
por Jamildo Melo
Publicado em 06/10/2026, às 09h52 - Atualizado às 10h06
O cruzamento de dados de emendas parlamentares e das eleições de 2022 e 2026 revela casos em que deputados ampliaram fortemente sua votação em municípios beneficiados por recursos indicados por seus gabinetes
Há, porém, situações no sentido contrário
Os números mostram associação entre distribuição de emendas e bases eleitorais, mas não permitem estabelecer relação direta de causa e efeito
A ampliação do volume de recursos controlados pelo Congresso colocou as emendas parlamentares no centro da relação entre deputados federais e municípios. Em Pernambuco, um cruzamento entre a destinação desses recursos e os resultados das eleições de 2026 mostra casos em que cidades beneficiadas por emendas também registraram forte crescimento eleitoral dos parlamentares responsáveis pelas indicações.
Os dados, entretanto, também revelam o movimento contrário: municípios que receberam milhões em emendas nos quais o deputado perdeu votos.
Por isso, os números permitem identificar uma associação entre recursos públicos, territórios de atuação política e desempenho eleitoral, mas não permitem concluir que a liberação de uma emenda tenha provocado o voto.
O levantamento considera emendas individuais, inclusive transferências especiais, destinadas durante a atual legislatura. O Portal da Transparência permite identificar autor, favorecido, município e diferentes etapas da execução da despesa, como empenho e pagamento. Os dados são atualizados diariamente.
Para evitar confundir promessa de recurso com dinheiro efetivamente executado, é necessário distinguir valores empenhados dos efetivamente pagos. O Tesouro Nacional mantém ainda uma base própria de repasses de emendas individuais e de bancada, atualizada até 30 de setembro de 2026.
Um dos casos mais expressivos aparece na votação do deputado Felipe Carreras (PSB).
Carreras teve R$ 116,8 milhões em emendas individuais empenhadas na legislatura de 2023 a 2026, dos quais R$ 101,6 milhões constavam como pagos. Entre os principais municípios beneficiados aparecem Bonito, Cachoeirinha e Lajedo.
Bonito oferece o contraste mais evidente.
Em 2022, Carreras recebeu apenas 26 votos no município, equivalentes a 0,13% dos votos locais para deputado federal.
Quatro anos depois, recebeu 5.513 votos, ou 25,85% dos votos válidos para o cargo. Em números absolutos, sua votação foi multiplicada por mais de 200.
Bonito aparece entre os principais destinos das emendas individuais de Carreras na legislatura.
Movimento semelhante ocorreu em Lajedo e Cachoeirinha. Em 2026, Carreras recebeu 9.810 votos em Lajedo, equivalentes a 41,71% da votação local, e 4.468 votos em Cachoeirinha, ou 38,47%.
No conjunto do Estado, Carreras também cresceu. Passou de 76.528 votos em 2022 para 148.971 em 2026, alta de aproximadamente 95%.
Os números mostram que alguns municípios contemplados com recursos se transformaram ou se consolidaram como bases eleitorais importantes do parlamentar. Não demonstram, isoladamente, que as emendas tenham sido a causa dessa mudança.
O deputado Pedro Campos (PSB) oferece um exemplo que ajuda a mostrar os dois lados da relação.
Na legislatura, Campos teve aproximadamente R$ 115 milhões em emendas individuais empenhadas, com mais de R$ 90 milhões pagos. Recife, São José do Belmonte e Afogados da Ingazeira aparecem entre os principais destinos.
Em São José do Belmonte, Pedro Campos recebeu 9.830 votos em 2026, equivalentes a 49,03% da votação para deputado federal, tornando-se o candidato mais votado para o cargo no município.
O crescimento foi expressivo em relação a 2022.
Mas Afogados da Ingazeira apresenta comportamento diferente.
Em 2022, Pedro recebeu 5.549 votos na cidade. Em 2026, foram 5.604 — praticamente estabilidade, apesar de Afogados também aparecer entre os principais destinos de suas emendas.
O contraste é importante porque mostra que a presença de recursos não produz necessariamente crescimento eleitoral.
Outro contraponto aparece no desempenho de Clarissa Tércio (PP).
A deputada teve R$ 115,3 milhões em emendas individuais empenhadas entre 2024 e 2026, com R$ 101,5 milhões pagos. Paudalho aparece como o principal destino, com R$ 18,2 milhões empenhados, seguido por Carpina e Recife.
Se a existência de emendas produzisse automaticamente votos, seria esperado um desempenho especialmente forte da parlamentar em Paudalho.
O resultado foi diferente.
Em 2022, Clarissa recebeu 4.346 votos em Paudalho, equivalentes a 14,04% da votação local para deputado federal.
Em 2026, mesmo depois de o município figurar como principal destino de suas emendas, a votação caiu para 1.285 votos, ou 3,67%.
A queda foi superior a 70%.
O caso funciona como contraponto aos municípios em que recursos e crescimento eleitoral caminharam na mesma direção.
Há situação semelhante com Iza Arruda (MDB).
Na atual legislatura, a deputada teve cerca de R$ 119 milhões em emendas individuais empenhadas. Vitória de Santo Antão aparece isoladamente como seu principal destino, com R$ 41,2 milhões — aproximadamente um terço do total registrado.
Vitória já era, porém, sua principal base eleitoral antes do atual mandato.
Em 2022, Iza recebeu 31.987 votos no município, correspondentes a 43,71% da votação para deputado federal.
Em 2026, continuou sendo a candidata a deputada federal mais votada na cidade, mas caiu para 23.587 votos, ou 30,22%.
Ou seja: mesmo com Vitória figurando como principal destino das emendas, Iza perdeu cerca de 8,4 mil votos no município em relação à eleição anterior.
O exemplo também chama atenção para outra possibilidade: deputados podem direcionar recursos justamente para municípios onde já possuem bases eleitorais consolidadas. Nesse caso, a votação pode anteceder a emenda, e não ser consequência dela.
O caso de Lula da Fonte (PP) reforça essa necessidade de cautela.
O parlamentar teve R$ 125,4 milhões em emendas individuais empenhadas entre 2024 e 2026, com R$ 98,1 milhões pagos. Aliança, Lagoa do Ouro e Brejão aparecem entre os principais destinos.
Mas Lagoa do Ouro já era uma base eleitoral relevante antes dessa legislatura.
Em 2022, Lula da Fonte recebeu 3.813 votos no município, correspondentes a mais de 50% da votação local para deputado federal.
Em 2026, recebeu 4.017 votos e novamente apresentou forte desempenho proporcional: 47,2% dos votos locais para o cargo.
Nesse caso, portanto, os dados são compatíveis tanto com uma estratégia de manutenção de uma base política preexistente quanto com eventual reforço dessa relação por meio da atuação parlamentar.
Os valores não são casos isolados.
Carlos Veras (PT), por exemplo, teve R$ 117,4 milhões empenhados em emendas individuais na legislatura, alcançando 91 municípios, com R$ 104,9 milhões pagos.
Augusto Coutinho (Republicanos) teve cerca de R$ 114 milhões empenhados na legislatura, alcançando mais de uma centena de municípios.
Fernando Monteiro (PSD) teve aproximadamente R$ 113 milhões empenhados entre 2023 e 2026, enquanto Clodoaldo Magalhães (PV) teve R$ 113,1 milhões.
Os números ajudam a dimensionar como as emendas se tornaram uma das principais ferramentas de atuação territorial dos deputados.
O cruzamento revela três situações distintas em Pernambuco.
Há municípios beneficiados por emendas nos quais deputados multiplicaram sua votação; há cidades onde o parlamentar já possuía uma base eleitoral forte antes de direcionar os recursos; e existem casos em que, apesar das emendas, a votação caiu.
Isso impede estabelecer uma relação automática de causa e efeito.
O voto é secreto e pode ser influenciado por fatores como apoio de prefeitos e lideranças locais, estrutura partidária, alianças, campanha, exposição nas redes sociais, identificação ideológica e desempenho político do próprio parlamentar.
Além disso, a própria direção da relação pode ser inversa: em vez de uma emenda produzir uma base eleitoral, um deputado pode decidir enviar recursos justamente para um município onde já possui aliados e eleitores.
Os dados obtidos pelo site Jamildo.com permitem afirmar, portanto, que existe uma sobreposição relevante entre o mapa das emendas e o mapa eleitoral de alguns parlamentares pernambucanos.
Os casos de Bonito e São José do Belmonte mostram que a coincidência pode ser expressiva. Paudalho e Vitória de Santo Antão mostram o limite da hipótese.
Resumindo, emendas podem fortalecer relações políticas nos municípios. Os resultados de 2026, porém, não permitem afirmar que dinheiro enviado a uma cidade seja, por si só, convertido em votos.