Otávio Oliveira: Ano novo; hábitos antigos

Ano novo; hábitos antigos - artigo escrito pelo colunista Otávio Oliveira

Otávio de Oliveira

por Otávio de Oliveira

Publicado em 05/01/2026, às 15h14 - Atualizado às 15h15

Otavio de Oliveira é advogado e escritor
Otávio de Oliveira é advogado e escritor - Divulgação

A passagem de um ano para outro costuma despertar expectativas renovadas. Projetamos no calendário aquilo que, muitas vezes, relutamos em transformar na prática: atitudes, escolhas, hábitos. A esperança reaparece como linguagem comum, mas raramente como compromisso real.

Há, contudo, uma diferença fundamental entre esperar e decidir.

A Escritura não trata a esperança como sentimento vago ou promessa confortável. “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), escreve São Paulo, mas o faz após afirmar que ela nasce da perseverança, que por sua vez é forjada na tribulação. Não há ingenuidade no texto bíblico; há exigência. A esperança que não se ancora em hábitos sólidos se dissolve rapidamente no primeiro obstáculo.

No exercício da advocacia, essa distinção é ainda mais evidente.

O advogado não opera no terreno das intenções genéricas, mas no espaço concreto dos conflitos humanos. Quem procura um escritório traz consigo urgências, riscos, perdas acumuladas e, sobretudo, confiança. Esperar que o ano novo traga melhores resultados sem revisar velhas práticas - técnicas apressadas, promessas excessivas, descuido com o estudo ou com a escuta - é apenas repetir, sob outra data, os mesmos erros.

Há uma passagem discreta no livro dos Provérbios que ilumina esse ponto: “Confia ao Senhor as tuas obras, e teus planos se realizarão” (Pr 16,3). O texto não fala em projetos, mas em obras; não promete sucesso automático, mas subordina os planos à retidão do agir. Em outras palavras, não há prosperidade duradoura sem hábitos corretos.

Na advocacia, isso significa compreender que o compromisso com o cliente não se esgota na formalidade do contrato nem na retórica das petições. Ele se manifesta na preparação silenciosa, na honestidade quanto aos riscos, na fidelidade aos fatos e na resistência aos atalhos que, embora sedutores, corroem a credibilidade da profissão.

Ano novo, portanto, não exige discursos novos, mas práticas mais rigorosas. Exige menos ansiedade por resultados imediatos e mais constância no que realmente sustenta a confiança: estudo, prudência, responsabilidade e coragem ética.

Se há algo que o início de 2026 pode nos oferecer, não é a promessa de um caminho mais fácil, porém a oportunidade de reafirmar hábitos que já sabemos necessários e que tantas vezes adiamos. A esperança, quando levada a sério, deixa de ser expectativa passiva e se torna disciplina.

Talvez seja esse o verdadeiro desafio de um novo ano: não abandonar o essencial em nome do novo e permitir que o novo seja consequência de hábitos antigos bem cultivados.