Confira o artigo sobre a relação entre tecnologia e educação do advogado e diretor da editora da OAB, Inácio Feitosa
Inácio Feitosa | Publicado em 04/04/2025, às 08h31 - Atualizado às 08h49
Muito se fala hoje sobre inovação, transformação digital, plataformas educacionais e inteligência artificial na escola. Mas, no meio de tantos termos modernos e soluções "eficientes", há uma pergunta que quase ninguém se faz: como estão os professores nesse processo? A resposta, infelizmente, é simples e dura: estão sobrecarregados, adoecendo e, mais grave ainda, esquecidos — inclusive pelas instituições que deveriam defendê-los.
Como docente, pesquisador e cidadão, é impossível ignorar o silêncio que paira sobre o impacto da tecnologia nas relações de trabalho dos professores. Enquanto se celebra a chegada de novos recursos digitais à sala de aula, ninguém discute com a mesma empolgação as novas formas de exploração, o aumento da carga horária invisível e os adoecimentos que já se espalham pela categoria.
A entrada da tecnologia nas escolas trouxe consigo uma série de novas exigências: domínio de plataformas, produção de conteúdos digitais, atendimento remoto a estudantes e pais, monitoramento em tempo real de atividades, além das aulas presenciais.
O problema não é a tecnologia em si. É o fato de que todas essas tarefas vieram sem tempo, sem formação, sem reajuste salarial e sem limites claros de jornada. A famosa “flexibilidade” se traduziu, na prática, em disponibilidade permanente. A vida pessoal foi invadida, o descanso virou exceção e o domingo se tornou um dia útil.
O que antes era uma jornada contratada virou um trabalho que se estende para além da escola — e sem reconhecimento formal. Essa “jornada invisível” tem sido naturalizada, como se fosse parte do ofício de ser professor, como se estivéssemos sempre prontos para responder mensagens, corrigir atividades online ou adaptar conteúdos para múltiplos formatos.
O mais revoltante é o silêncio das instituições que deveriam se posicionar. Os sindicatos, em muitos casos, parecem presos a pautas antigas, repetindo lutas salariais legítimas, mas ignorando a precarização silenciosa que a tecnologia trouxe. Há raros debates sobre as novas formas de trabalho docente digital, e ainda menos mobilização efetiva sobre a intensificação da jornada e os impactos na saúde mental.
O Ministério Público, que poderia atuar na defesa das condições de trabalho e no cumprimento das normas legais sobre carga horária e saúde ocupacional, raramente entra nesse debate. A naturalização da exploração digital passa despercebida nos gabinetes, como se os professores fossem imunes à exaustão.
E o MEC, órgão máximo da educação brasileira, continua ausente do tema. Fala em conectividade, em formação para o uso de tecnologias, mas evita qualquer discussão mais profunda sobre como as relações de trabalho estão sendo reconfiguradas com a digitalização. Não há diretrizes nacionais que tratem dos direitos dos professores diante dessas transformações. Não há protocolos, políticas de cuidado, nem sequer levantamentos oficiais sobre o adoecimento da categoria.
O resultado disso é alarmante. Os relatos de professores com síndrome de burnout, depressão, crises de ansiedade, insônia e dores crônicas se multiplicam. A saúde física também sofre: longas horas diante do computador, má postura, esforço vocal sem pausas adequadas. E, no entanto, a resposta institucional é o silêncio — ou pior: a culpabilização individual.
Se o aluno não aprende, o problema é do professor. Se a aula não engaja, o professor “não soube usar a tecnologia”. Se há exaustão, é “falta de organização”. Esse discurso transfere responsabilidades coletivas e estruturais para os ombros de profissionais já sobrecarregados.
Essa lógica é perversa e cruel. Ignora que a maioria dos docentes não teve formação adequada para o uso pedagógico da tecnologia e que a adoção das ferramentas digitais aconteceu de forma emergencial, improvisada e sem apoio.
A ausência de políticas educacionais que protejam os professores nesse cenário digital é gritante. Não há planos nacionais voltados à saúde mental dos docentes, nem diretrizes que estabeleçam limites de carga horária digital. Não há escuta ativa, nem mapeamento oficial das novas formas de sofrimento no trabalho.
O que temos é uma modernização desigual: equipamentos e plataformas chegam às escolas (quando chegam), mas não há o mesmo empenho em garantir que os professores estejam preparados, amparados e protegidos.
É urgente que essa discussão entre na agenda pública. Não se trata de ser contra a tecnologia. Trata-se de exigir que a modernização respeite os profissionais que a tornam possível.
Quando falamos de tecnologia educacional, não podemos continuar ignorando quem está na linha de frente. Os professores estão sendo apagados do debate. Estão sendo esquecidos por seus sindicatos, ignorados pelas autoridades e explorados por um sistema que exige tudo, mas oferece quase nada.
Sem valorização, sem políticas de proteção e sem reconhecimento, não haverá inovação que se sustente. A tecnologia pode ser ferramenta, mas quem transforma é o professor. E se ele adoece, silencia ou abandona a profissão, não há futuro digital que dê conta do vazio que fica.