Jamildo Melo | Publicado em 03/10/2026, às 12h36 - Atualizado às 12h45
A um dia do primeiro turno das Eleições 2026, João Campos (PSB) ampliou a ofensiva política contra a governadora Raquel Lyra (PSD) e colocou a conta de água no centro de suas últimas ações de campanha.
Neste sábado (3), o candidato ao Governo de Pernambuco anunciou que, caso seja eleito, pretende impedir o reajuste das tarifas de água previsto para novembro. Se a correção entrar em vigor ainda na atual gestão, João afirmou que pretende revogá-la ao assumir o Palácio do Campo das Princesas, em janeiro de 2027.
A declaração é uma promessa de campanha. A possibilidade jurídica e contratual de um futuro governador suspender ou desfazer o reajuste ainda dependeria dos contratos de concessão, da regulação do setor e das medidas administrativas ou jurídicas adotadas após a eleição.
João Campos argumenta que os contratos com as concessionárias foram assinados em abril deste ano e que a operação privada dos serviços ainda está em fase inicial.
“Como é que um contrato assinado em abril já vai ter aumento de conta em novembro? Você já viu aluguel ter reajuste em menos de um ano? Não. Por que reajustar a inflação de três anos em seis meses?”, questionou o candidato, em informe ao site Jamildo.com.
Segundo João, sua equipe jurídica avaliou que haveria espaço para contestar a correção.
“Como governador, eu vou barrar esse reajuste da água. Já analisei com a equipe jurídica e há espaço para fazer isso. Eu quero água na torneira das pessoas com preço justo”, afirmou.
O tema já havia provocado embate entre João Campos e Raquel Lyra nos debates da reta final.
Raquel reconheceu que existe previsão de reajuste inflacionário em novembro, mas defendeu a concessão como instrumento para ampliar os investimentos em saneamento. A governadora argumentou que o modelo permitirá investimentos privados bilionários e comparou a correção tarifária a outros reajustes periódicos de preços e tarifas.
A concessão transferiu à iniciativa privada parte dos serviços de distribuição de água e esgotamento sanitário, enquanto a Compesa permanece com atribuições dentro do novo modelo.
A Agência de Regulação de Pernambuco (Arpe) também estabeleceu que as concessionárias responsáveis pela prestação regionalizada dos serviços ficam submetidas às normas regulatórias aplicáveis ao abastecimento de água e ao esgotamento sanitário.
Portanto, há duas questões distintas na disputa: o reajuste está previsto no modelo contratual, enquanto a promessa de impedir ou revogar sua aplicação é uma posição apresentada por João Campos na campanha.
Na sexta-feira (2), João Campos cumpriu agenda em Ipojuca, no Litoral Sul, onde participou de uma carreata e retomou uma das propostas econômicas apresentadas durante a campanha.
O candidato voltou a defender a criação do Nome Limpo Pernambuco, programa estadual voltado à renegociação de dívidas de famílias de baixa renda.
A proposta já havia sido apresentada anteriormente pela campanha e prevê condições para renegociação de débitos, incluindo descontos e parcelamentos.
“É ajudar quem está com o nome negativado a recuperar o crédito e ter condições de seguir em frente”, afirmou João.
A candidata ao Senado Marília Arraes (PDT) participou da agenda.
Também na sexta-feira, a Frente Popular abriu outra frente de confronto com a campanha adversária.
A coligação de João Campos apresentou ao Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) uma representação sobre o suposto uso de servidores estaduais em atividades eleitorais de Raquel Lyra durante o horário de expediente.
Segundo a denúncia, servidores vinculados às secretarias estaduais de Direitos Humanos, Cultura e Educação teriam sido encontrados distribuindo material eleitoral e participando de ações de campanha em diferentes pontos do Recife.
A Frente Popular anexou imagens e vídeos ao processo e pediu à Justiça Eleitoral a identificação dos envolvidos e o acesso aos registros de frequência e folhas de ponto.
A coligação sustenta que, caso os fatos sejam comprovados, as condutas podem se enquadrar nas restrições impostas pelo artigo 73 da Lei das Eleições ao uso de servidores e da estrutura pública em benefício de candidaturas.
A representação, porém, é uma acusação da coligação adversária e ainda precisa ser analisada pela Justiça Eleitoral. A apresentação da denúncia, por si só, não comprova que houve irregularidade.
A Frente Popular pediu ainda aplicação de multa, em valor mínimo de R$ 100 mil, conforme os critérios apresentados por seus advogados.
Outra iniciativa da Frente Popular teve desdobramento no TRE-PE na sexta-feira.
Após petição da coligação de João Campos, o presidente do tribunal, desembargador Fernando Cerqueira, encaminhou orientação a órgãos de segurança e fiscalização de trânsito para que as operações realizadas no domingo (4) preservem a livre circulação dos eleitores.
O documento foi dirigido, entre outros órgãos, à Secretaria de Defesa Social, às polícias Militar e Civil e ao Detran.
O TRE orientou que as ações sejam planejadas de forma a evitar bloqueios, retenções ou medidas capazes de comprometer injustificadamente o deslocamento até os locais de votação.
A determinação não significa que o tribunal tenha confirmado a existência de um plano para dificultar a votação.
A Frente Popular havia relatado preocupação com a possibilidade de operações policiais ou de trânsito afetarem o deslocamento de eleitores. O TRE adotou uma medida preventiva para assegurar o cumprimento da legislação eleitoral.
O tribunal também ressalvou que a orientação não impede operações necessárias à preservação da ordem pública, atendimento de emergências ou repressão a crimes.
As movimentações mostram que João Campos chegou às últimas horas antes do primeiro turno combinando propostas de impacto econômico, como a renegociação de dívidas e a promessa de barrar o reajuste da água, com uma ofensiva jurídica e política contra a gestão Raquel Lyra.
As frentes, porém, têm naturezas diferentes.
O Nome Limpo Pernambuco e a tentativa de impedir o reajuste da água são compromissos apresentados por João para um eventual governo. Já as representações sobre servidores estaduais e circulação de eleitores são iniciativas da Frente Popular submetidas à Justiça Eleitoral.
No caso da circulação dos eleitores, houve uma providência concreta do TRE: a expedição de orientação preventiva aos órgãos responsáveis pela segurança e pelo trânsito.
No caso dos servidores, permanece uma acusação eleitoral que depende de apuração e decisão da Justiça.
É nesse ambiente de propostas, judicialização e confronto direto com Raquel Lyra que João Campos encerra a campanha antes da votação deste domingo (4).
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