Jamildo Melo | Publicado em 30/09/2026, às 10h49 - Atualizado às 11h04
A reta final da disputa pelo Governo de Pernambuco ganhou uma nova rodada de troca de chumbo entre Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) no debate promovido pela TV Globo, na noite desta terça-feira (29).
A cinco dias do primeiro turno, os dois principais candidatos usaram o encontro para confrontar resultados de suas administrações, cobrar promessas e apresentar propostas para um eventual próximo governo.
Ivan Moraes (PSOL) também participou do debate e fez críticas aos dois adversários, inclusive no tema das bets.
O confronto ocorreu num momento de equilíbrio na corrida pelo Palácio do Campo das Princesas. Pesquisa Quaest divulgada no próprio dia do debate apontou Raquel e João com 42% das intenções de voto no primeiro turno. O levantamento ouviu 1.302 eleitores entre 25 e 28 de setembro e tem margem de erro de três pontos percentuais.
Um dos embates mais diretos ocorreu na segurança pública.
Raquel utilizou os investimentos realizados pelo Governo de Pernambuco para defender sua gestão e, ao mesmo tempo, responsabilizar os governos anteriores do PSB pelas dificuldades encontradas no setor.
A governadora citou investimentos em armamentos, veículos, equipamentos, inteligência e novas estruturas policiais. Segundo ela, seu governo está aplicando R$ 300 milhões na construção e recuperação de equipamentos de segurança.
Raquel também tentou vincular João Campos ao período em que Paulo Câmara governou Pernambuco. João foi chefe de gabinete do então governador entre 2015 e 2018.
“Por que vocês abandonaram a segurança pública em Pernambuco?”, questionou Raquel durante o debate.
A frase resume a estratégia política da governadora: transformar o desempenho da segurança nos governos anteriores do PSB em um passivo para João Campos.
João respondeu mirando a administração atual.
O candidato afirmou que as facções criminosas avançaram no Estado e voltou a apresentar o Pacto Antifacção, proposta de integração das forças policiais, inteligência e ações contra organizações criminosas.
O socialista também cobrou da governadora a situação de delegacias e equipamentos estaduais. Raquel, em contrapartida, questionou a atuação de João na segurança durante sua passagem pela Prefeitura do Recife e citou a Guarda Municipal.
Assim, o debate sobre segurança misturou três planos distintos: os investimentos efetivamente realizados pelo atual governo, as críticas de Raquel ao legado dos governos do PSB e as propostas apresentadas por João para um eventual mandato.
As apostas eletrônicas também voltaram ao debate.
Raquel anunciou a proposta de criar o Programa Acolhimento Digital, destinado ao atendimento psicológico e psiquiátrico de pessoas com dependência em jogos.
“Eu quero lançar o Programa Acolhimento Digital para que a gente possa aproximar psiquiatras e psicólogos de pessoas que ficaram viciadas em jogos e perderam tudo na sua vida”, afirmou.
A governadora voltou a adotar discurso contrário às bets e relacionou as apostas a problemas como lavagem de dinheiro e atuação do crime organizado.
O assunto, porém, ultrapassou a discussão sobre saúde pública e virou uma das frentes da disputa eleitoral.
João Campos vem sendo cobrado pelos adversários pela redução, durante sua gestão na Prefeitura do Recife, da alíquota do ISS para serviços relacionados a loterias e apostas. O socialista sustenta que a mudança tributária não representou incentivo às bets e também passou a defender publicamente o combate ao setor.
Ivan Moraes voltou a explorar esse tema durante o debate.
O tema ganhou ainda mais peso depois que o presidente Lula participou, na sexta-feira (25), de ato eleitoral no Recife ao lado de João Campos carregando um cartaz com a defesa do “Fim das Bets”.
Enquanto Raquel concentrou parte de sua estratégia na defesa das entregas do atual governo, João procurou apresentar propostas para um eventual mandato a partir de 2027.
Na saúde, voltou a prometer a construção do Hospital Geral Metropolitano, com 900 leitos, além da interiorização de consultas, exames, cirurgias e atendimentos especializados.
O candidato utilizou como referência sua passagem pela Prefeitura do Recife, citando o Hospital da Criança, unidades de saúde e centros de atendimento a pessoas com transtorno do espectro autista.
Ao mesmo tempo, atacou a gestão estadual e cobrou entregas de escolas técnicas, UPAs, Delegacias da Mulher e serviços para pessoas com autismo.
No abastecimento de água, João reafirmou a proposta de realizar 94 grandes obras. A campanha estima investimentos próximos de R$ 8 bilhões para tentar reduzir o racionamento e ampliar a oferta de água no Estado.
Na educação, prometeu duplicar a rede estadual de ensino técnico. Na infraestrutura, voltou a citar projetos como as duplicações das BRs 408 e 423, intervenções na PE-90 e a Transnordestina.
Como tem evidenciado o site Jamildo.com, o debate evidenciou estratégias diferentes na reta final.
Raquel procura transformar os quase quatro anos de governo em argumento para a reeleição, apresentando investimentos realizados e comparando sua administração com os governos anteriores do PSB.
João tenta fazer o movimento inverso: questiona o que considera entregas insuficientes do atual governo e apresenta sua experiência na Prefeitura do Recife como credencial para defender novas obras e programas estaduais.
Nesse confronto, segurança, saúde, água e bets deixaram de ser apenas temas administrativos. Viraram também instrumentos da disputa pelo legado de quem já governou e pela promessa de quem pretende governar Pernambuco a partir de 2027.
Com a Quaest apontando 42% para cada um no primeiro turno, a troca de chumbo no último debate da Globo ocorreu em um cenário no qual qualquer movimento na reta final pode ter peso político — sem que a pesquisa, por si só, permita antecipar o resultado das urnas.
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