Gestão Raquel anuncia R$ 348 mil em reformas de delegacias enquanto documento interno da Polícia Civil alerta para risco de paralisação de viaturas
por Jamildo Melo
Publicado em 30/09/2026, às 10h26 - Atualizado às 10h38
Governo de Pernambuco entregou reformas de delegacias e de um pelotão da PM no Agreste e na Zona da Mata, com investimento superior a R$ 348 mil
Ao mesmo tempo, documento interno da Polícia Civil alerta que o fim da cota extra de combustível pode provocar a paralisação de algumas viaturas no interior
Os dois episódios colocam frente a frente o discurso oficial de modernização da segurança e as cobranças sobre as condições de funcionamento das unidades policiais
A segurança pública de Pernambuco entrou em uma espécie de troca de chumbo entre anúncios de investimentos do Governo do Estado e alertas internos sobre dificuldades enfrentadas pela Polícia Civil.
Nesta terça-feira (29), o Governo de Pernambuco anunciou a entrega da requalificação de três equipamentos de segurança em Sanharó, no Agreste Central, e Chã de Alegria, na Zona da Mata Norte.
O investimento informado pela Secretaria de Defesa Social (SDS) supera R$ 348 mil e envolve reformas em duas delegacias da Polícia Civil e no 3º Pelotão da 8ª Companhia Independente da Polícia Militar (8ª CIPM).
A entrega ocorre, porém, no momento em que um documento interno da própria Polícia Civil, vazado pelo sindicato da categoria, alerta para o risco de algumas viaturas ficarem paradas caso não haja crédito adicional para combustível.
Em Sanharó, foram aplicados mais de R$ 224 mil na requalificação do pelotão da Polícia Militar e da Delegacia de Polícia Civil.
Segundo o governo, a unidade da PM recebeu intervenções estruturais, elétricas, hidráulicas e de iluminação.
Na delegacia, foram instalados grades, portões e sistema de videomonitoramento, além de melhorias na climatização. O prédio também passou a contar com uma Sala Lilás, destinada ao atendimento reservado de mulheres vítimas de violência.
Em Chã de Alegria, o investimento informado foi superior a R$ 123 mil.
A delegacia recebeu intervenções nas instalações elétricas, cobertura, esquadrias, drenagem, pintura e climatização, além de adaptações para implantação de uma Sala Lilás.
Ao entregar as unidades, o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, afirmou que as obras fazem parte de um processo mais amplo de modernização da segurança pública no Estado.
Segundo o secretário, o objetivo é oferecer estruturas mais adequadas tanto para os profissionais de segurança quanto para o atendimento da população.
O comandante da Polícia Militar de Pernambuco, coronel Ivanildo Torres, também relacionou as reformas à melhoria das condições de trabalho do efetivo.
Na Polícia Civil, o delegado-geral Felipe Monteiro afirmou que a recuperação das unidades representa investimento simultâneo nas condições oferecidas aos policiais e na qualidade do atendimento à população.
Enquanto o governo destacou os investimentos na estrutura física, um documento interno da Polícia Civil revela preocupação com uma necessidade operacional mais básica: combustível para as viaturas.
A Comunicação Interna nº 614/2026, datada de 16 de setembro, foi assinada pelo delegado Márcio José da Cruz, titular da 14ª Delegacia Seccional de Caruaru, e encaminhada à Diretoria Integrada do Interior 1 (Dinter 1).
No documento, o delegado informa ter recebido da Unifrota — sistema utilizado para gerenciamento da frota — a informação de que a cota extra de combustível havia sido extinta.
Esse crédito adicional era utilizado quando o saldo disponível nos cartões das viaturas chegava a zero.
Com a mudança, segundo o relato, a orientação passou a ser o remanejamento de valores entre veículos.
“A não disponibilização de cota extra poderá provocar a paralisação de algumas viaturas”, registra o documento.
O texto cita ainda possíveis impactos no atendimento de ocorrências, cumprimento de diligências, apoio a outras unidades e realização de operações policiais.
O documento representa um alerta sobre risco de paralisação, e não uma confirmação de que a frota da Polícia Civil já esteja parada por falta de combustível.
A coincidência dos dois episódios coloca dois aspectos diferentes da política de segurança pública em evidência.
De um lado, o Governo de Pernambuco apresenta investimentos na recuperação e modernização de prédios utilizados pelas polícias Civil e Militar.
Do outro, documentos internos e manifestações sindicais levantam questionamentos sobre as condições operacionais enfrentadas pelos policiais.
Conforme já mostrou o site Jamildo.com, o Sinpol-PE vem fazendo cobranças públicas sobre a estrutura da Polícia Civil. Um dos episódios recentes ocorreu em Canhotinho, no Agreste, onde o atendimento da delegacia foi transferido para Angelim. Segundo o sindicato, o imóvel apresentava problemas estruturais e risco de desabamento.
Agora, o alerta sobre combustível amplia o debate: além da conservação dos prédios, entra em discussão a disponibilidade de recursos para manter as viaturas em funcionamento.
As reformas anunciadas pelo Estado e o alerta registrado na comunicação interna não são fatos excludentes. Juntos, porém, mostram as duas frentes pelas quais a gestão da segurança pública passou a ser cobrada na reta final da campanha eleitoral: investimento em infraestrutura e capacidade operacional das forças policiais.