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Aos 84 anos, Maestro Formiga segue fazendo do frevo uma história de resistência

Nilo Otaviano | Publicado em 17/10/2026, às 12h55

Aos 84 anos, Maestro Formiga segue de batuta erguida e voz firme. Uma vida dedicada ao frevo, à defesa dos músicos e à resistência da cultura pernambucana - Divulgação
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FORMIGA: O FREVO EM ESTADO DE GRAÇA

Por Nilo Otaviano, presidente do Instituto Brasileiro do Frevo, em artigo para o site Jamildo.com

Na última quinta-feira, 15 de outubro, o Maestro Ademir Araújo — o nosso Formiga — completou 84 anos.

E eu me permito repetir o que já escrevi outras vezes: enquanto houver um metal ecoando de alegria nas ruas do Recife, este nome não será esquecido.

A estirpe dos que ficam

Formiga é o último dos sete grandes maestros da fase clássica do frevo a viver a nona década — e, ao lado de Duda e Edson Rodrigues, um dos três mestres-vivos que ainda carregam, no pulso, a partitura inteira de uma época.

Há quem diga que ele está para as orquestras de frevos e bandas de música assim como o Mestre Salustiano está para o maracatu e o cavalo-marinho.

Concordo — e acrescento: está para a dignidade da música pernambucana como poucos estão para qualquer coisa.

Da banda de escola à batuta

A história começa sem aplausos, como quase toda história verdadeira.

Músico autodidata, oriundo das bandas de música, Ademir foi iniciado por José Gonçalves Lima, regente da Banda da Escola Industrial Agamenon Magalhães, e depois aprofundou o ofício no Conservatório Pernambucano de Música, onde o curso de folclore com Guerra-Peixe lhe marcou para sempre.

Em 1962, ainda jovem saxofonista, esteve entre os fundadores da Banda Municipal do Recife — ao lado de colegas como Naná Vasconcelos e dos futuros maestros Edson Rodrigues e Nunes —, assumindo sua regência titular de 1970 a 1977.

O compositor sem cercas

Em 1971, venceu o festival dos Diários Associados com o frevo de rua "Alô, Recife" — e nunca mais parou.

Quatro vezes vencedor do Frevança, regente da Orquestra Popular do Recife desde 1976 — praticamente o seu início —, alma da Frevioca ao lado da voz de Claudionor Germano.

Mas reduzir Formiga ao frevo seria injustiça.

Ele nunca respeitou a cerca que separa o erudito do popular: compôs maracatus como talvez ninguém, cirandas, caboclinhos, bumba-meu-boi.

Escreveu poemas sinfônicos como a "Festa do Carmo" e o "Poema Índio", a "Grande Abertura do Diário de Pernambuco" para o sesquicentenário do jornal mais antigo da América Latina.

Resgatou o caboclinho em disco e chegou ao ponto de seu biógrafo, Carlos Eduardo Amaral, descrever um "Frevo na Tempestade" que beira o atonalismo, de uma audácia harmônica rara.

Passou pela Nação Zumbi, pela Camerata Brasileira, pelo grupo A Barca em São Paulo, e representou o Brasil no Festival da Cultura Caribenha, em Santiago de Cuba.

Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2013, membro da Academia Pernambucana de Música, sua obra, ironicamente, segue quase toda indisponível — tarefa que os que vimos depois ainda temos o dever de cumprir.

O mestre que ensina

Há um Formiga que os palcos não mostram: o professor.

Idealizador do extinto Projeto Espiral, que deu origem ao Centro de Criatividade Musical; criador do Curso Ambulante de Música, levado de banda em banda e de agremiação em agremiação.

Regente da Banda Sinfônica Juvenil Pernambucana; diretor da Federação das Bandas de Músicas do Estado.

Para ele, a música é fator de transformação social — e ele o demonstra formando crianças e jovens há mais de cinquenta anos, quando poderia apenas descansar sobre os louros.

O brigão necessário

Conheço o Mestre também pelo que os livros não registram: o brigão — mas brigão pelos músicos, pela causa da música.

O homem que cobra prefeito no meio da rua, que pediu para tirar o próprio nome dos painéis do Paço do Frevo em protesto contra sua paralisia, e que sonha, ainda, com um Paço do Maracatu, assim como existe o Paço do Frevo.

É dessa estirpe de fazedores que o frevo não morre: a que incomoda, a que insiste, a que não se cala, afinal o frevo é resistência desde o seu nascedouro.

Resistência de um povo sempre irredento e altivo.

Com ele, muitos aprendemos que a consciência de um ofício se mede pela coragem de defender os seus — e Formiga é a prova viva dessa máxima.

Fecho em frevo

Parabéns, amigo-irmão e mestre Formiga!

Que a batuta continue alta, que a tempestade continue em frevo, e que Pernambuco saiba honrar, em vida, quem lhe deu a trilha sonora de quase um século!

Viva o Mestre Ademir “Formiga” Araújo!

Viva o Frevo!

Frevo Nilo Otaviano Maestro Formiga

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