Redação Jamildo.com | Publicado em 01/10/2026, às 11h17 - Atualizado às 11h44
Artigo exclusivo assinado pelo Sinduscon-PE
Em períodos eleitorais, o debate público ganha qualidade quando diferentes setores da sociedade conseguem ir além das demandas circunstanciais e apresentar propostas capazes de contribuir para o futuro.
Foi com esse propósito que o Sinduscon-PE e a Ademi-PE realizaram conjuntamente um ciclo de debates com os candidatos ao Governo de Pernambuco, João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD).
O ex-prefeito do Recife e a atual governadora, que pleiteia a reeleição, foram recebidos, em datas distintas, na sede do Sinduscon-PE, para dialogar diretamente com empresários da construção associados às duas entidades.
O primeiro encontro ocorreu em 10 de agosto, com João Campos, abrindo uma agenda concebida para aproximar o setor produtivo daqueles que se apresentam para governar Pernambuco.
Raquel Lyra, por sua vez, participou da segunda rodada, em 31 de agosto, dando continuidade ao diálogo proposto pelas entidades.
Mais do que ouvir os candidatos, porém, Sinduscon-PE e Ademi-PE decidiram colocar sobre a mesa uma contribuição concreta.
A ambos foi entregue um documento construído a partir de questões consideradas estratégicas pela construção civil para o desenvolvimento de Pernambuco.
O texto parte de uma compreensão que merece ser ressaltada: habitação, infraestrutura, mobilidade, planejamento urbano e ambiente de negócios não são agendas isoladas, e sim dimensões de uma mesma estratégia de desenvolvimento, com repercussões sobre investimento, emprego, renda, inclusão social e organização das cidades.
Entre as prioridades apresentadas no documento e levadas ao debate nas duas ocasiões está o fortalecimento do Morar Bem PE, tratado pelo setor construtivo como principal eixo estruturador da política habitacional pernambucana.
A proposta das duas entidades é assegurar sua continuidade, inclusive com garantia orçamentária, preservando a previsibilidade necessária tanto às famílias quanto aos investimentos do setor produtivo.
O documento também propõe atualizar os valores dos imóveis e o subsídio estadual, diante da evolução dos custos da construção desde o lançamento do programa, em 2023.
Na agenda habitacional sugerida, além da produção de novas unidades foi sublinhada uma preocupação particular com famílias de menor renda, populações instaladas em áreas de risco e territórios mais vulneráveis aos efeitos de eventos climáticos extremos.
Também é defendido que as novas moradias sejam estimuladas onde já existam infraestrutura, serviços, empregos e acesso ao transporte coletivo.
Essa lógica aproxima política habitacional e planejamento urbano e ajuda a compreender por que a construção precisa ser discutida como parte de uma agenda mais ampla para Pernambuco.
O documento entregue aos candidatos dedica atenção especial à Região Metropolitana do Recife e às grandes intervenções capazes de reorganizar sua dinâmica econômica e urbana. O Arco Metropolitano, por exemplo, é apontado como oportunidade para retirar tráfego pesado da BR-101 e, simultaneamente, induzir desenvolvimento planejado em novas áreas.
Para o Metrô do Recife, a proposta é de modernização e ampliação, associando mobilidade de alta capacidade à criação de centralidades com moradia, comércio, serviços e oportunidades de trabalho. Também integram essa visão projetos como a Escola de Sargentos e intervenções de proteção e qualificação da faixa costeira.
O olhar do setor, contudo, não se limita à Região Metropolitana. No Litoral Sul, são defendidas melhorias na PE-60 e na PE-066; no Litoral Norte, a ponte na PE-31 e melhores acessos à Ilha de Itamaracá.
Para o Agreste, o documento destaca a conclusão das duplicações da BR-232 até Arcoverde e da BR-423 até Lajedo. A Transnordestina e Suape aparecem, por sua vez, como peças de uma estratégia para recuperar competitividade logística e ampliar a capacidade de Pernambuco de gerar investimentos, emprego e renda.
Para os presidentes Paulo Wanderley (Sinduscon-PE) e Leonardo Queiroz (Ademi-PE), outro ponto fundamental citado no documento é o fortalecimento da Fidem como instrumento de planejamento, coordenação regional e apoio técnico.
Na percepção das duas entidades, pequenos e médios municípios nem sempre dispõem de equipes suficientes para atualizar planos diretores, leis de uso e ocupação do solo e códigos de obras.
O apoio estadual poderia contribuir para criar regras mais claras, simplificar procedimentos e aumentar a capacidade dessas cidades de receber investimentos. A proposta é substituir uma lógica excessivamente procedimental por uma atuação voltada à pactuação de prioridades, integração dos investimentos e redução das desigualdades regionais.
Nesse mesmo campo, as entidades defendem a continuidade e ampliação do acordo que envolve Governo, Insper e Ademi-PE, levando o trabalho do Laboratório das Cidades também ao interior. O objetivo é ampliar o monitoramento e a avaliação das políticas habitacionais e oferecer mais instrumentos para a formulação de políticas públicas.
Há ainda um capítulo indispensável dedicado às obras públicas e à qualidade de sua contratação e execução. Melhores projetos, termos de referência exequíveis, reajustes previstos nos editais, medições regulares, cumprimento da cronologia de pagamentos e retomada de obras paralisadas integram as proposições.
São questões técnicas, mas seus efeitos ultrapassam os limites dos canteiros e alcançam a capacidade do Estado de transformar planejamento e recursos públicos em entregas efetivas à população.
É justamente nesse ponto que se encontra o sentido maior da iniciativa realizada pelo Sinduscon-PE em conjunto com a Ademi-PE. Ao abrir suas portas para diferentes candidaturas, o setor não procura estabelecer preferência eleitoral, mas consolidar um canal permanente de diálogo institucional.
A disposição de parceria não está vinculada a partido, candidatura ou mandato, mas à construção de uma agenda capaz de sobreviver às alternâncias naturais do poder.
Essa postura é coerente com uma visão já manifestada pelo Sinduscon-PE: encerrado o processo eleitoral, setor produtivo e poderes constituídos precisam trabalhar conjuntamente pelo Estado. Pernambuco tem desafios urbanos, habitacionais, logísticos e territoriais que exigem continuidade, capacidade de planejamento e cooperação entre poder público, iniciativa privada e sociedade.
A construção civil está diretamente relacionada a cada uma dessas frentes e, por isso, entende que sua contribuição não deve se restringir à defesa dos interesses legítimos de suas empresas.
O setor pode oferecer conhecimento técnico, capacidade de execução, experiência acumulada e uma leitura concreta dos obstáculos que muitas vezes separam uma boa política pública de sua realização. É com esse espírito que o Sinduscon-PE se coloca à disposição do próximo Governo de Pernambuco, qualquer que seja a escolha feita pela sociedade nas urnas. O compromisso que orienta essa interlocução é com Pernambuco: com cidades mais bem planejadas, moradia acessível, infraestrutura eficiente, investimento produtivo e desenvolvimento distribuído pelo território.
Mais do que apresentar uma pauta da construção, o documento entregue aos candidatos pretende contribuir para uma agenda de Estado na qual desenvolvimento econômico, inclusão social e qualidade urbana avancem juntos; e na qual diálogo, planejamento e capacidade de execução transformem oportunidades em resultados para Pernambuco.