Os assassinatos de JK e do padre Henrique

Ricardo Leitão | Publicado em 03/06/2026, às 08h48

Juscelino Kubistchek - Arquivo
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A poucos meses de completar 50 anos da morte de Juscelino Kubitschek, que governou o Brasil de 1956 a 1961, a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou o relatório que afirma ter sido o ex-presidente assassinado por agentes da ditadura militar em 22 de agosto de 1976.

O relatório, com cinco mil páginas, foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão. O CEMDP é um órgão do Estado, instituído pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e hoje tem apoio técnico e administrativo do Ministério dos Direitos Humanos.

O relatório contrasta a versão da ditadura, segundo a qual o carro em que viajava JK, conduzido pelo motorista Geraldo Ribeiro, foi atingido por uma carreta na Via Dutra, no sentido Rio de Janeiro. Desgovernado, o veículo cruzou o canteiro central e capotou.

O ex-presidente JK e o motorista — únicos ocupantes do Opala — morreram na hora. Outra versão envolve um ônibus, não uma carreta, mas sempre um acidente rodoviário, à noite, em uma das mais movimentadas rodovias do País.

A hipótese de um acidente, apesar de posteriormente acatada pela Comissão Nacional da Memória e da Verdade, nunca foi aceita pela oposição à ditadura.

Favorito nas eleições presidenciais que aconteceriam em 1965, canceladas pelo golpe de 1964, JK – então senador por Minas Gerais – foi cassado e teve os direitos políticos suspensos por 10 anos. Em 1976, era um dos líderes da Frente Ampla, grupo de oposição à ditadura.

Nos monitoramentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), na época chefiado pelo futuro ditador-presidente João Figueiredo, seu nome era citado como uma ameaça ao regime. Ao lado dele, Orlando Letelier, comandante do exército do Chile, no governo de Salvador Allende, exilado nos Estados Unidos. Letelier foi assassinado com uma bomba, em Washington, em 1976, mesmo ano da morte de JK.

A decisão do CMDP não se baseou em novas investigações. O relatório de Maria Cecília Adão compila dados de investigações anteriores, principalmente os reunidos pelo Ministério Público Federal.

Neles, conclui o procurador Paulo Sérgio Ferreira Filho: “Houve falhas severas nas investigações realizadas na época pelo Estado”. É a mesma conclusão de especialistas em transportes, que, a partir de simulações em vídeos 3D, rebatem a hipótese de que teria havido uma colisão do veículo onde viajava JK com uma carreta ou um ônibus. 

O que teria havido? Sabotagem nas engrenagens do Opala? Envenenamento do motorista? Por enquanto não há respostas nem culpados identificados. Mas a CEMDP é um órgão do Estado, as questões de meio século continuam no ar.

Pesa também no ar, há 67 anos, outra pergunta: quem ordenou o assassinato do Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, em 27 de maio de 1969?

Tinha 28 anos, era professor e responsável pela Pastoral da Juventude na Arquidiocese de Olinda e Recife, assessor do arcebispo Dom Hélder Câmara.  Seu corpo foi encontrado de bruços no meio de um capinzal. Apresentava sinais de espancamento, arranhões, cortes e hematomas profundos, com uma corda enrolada no pescoço e três tiros à queima-roupa na cabeça.

O padre vinha sofrendo ameaças do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo de extrema direita atuante em Pernambuco no período. O nome do padre também aparecia nos relatórios dos órgãos de segurança da ditadura, como insuflador de jovens contra o sistema.

O assassinato brutal de Antônio Henrique teve enorme repercussão nacional e internacional. As investigações se arrastaram durante quatro anos, quando, em 30 de junho de 1970, o general Carlos Alberto de Fontoura, na época chefe do SNI, encaminhou ao ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, informe secreto, onde afirma: “O crime não foi obra de toxicômanos, e sim de jovens radicais da direita, em coautoria com investigadores da Polícia Civil de Pernambuco, que usaram um veículo da Polícia Civil no sequestro e assassinato do padre”

São então citados no informe secreto, como praticantes do crime, os investigadores da Polícia Civil Rível Rocha e Humberto Serrano de Souza, o promotor público José Bartolomeu Lemos Gibson – que à época exercia o cargo de diretor de Investigações da Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, o seu sobrinho, menor de idade, Gerônimo Duarte Rodrigo Neto, e o estudante universitário Rogério Matos do Nascimento. Todos estão mortos. Nenhum deles foi a julgamento. 

Quem ordenou o assassinato do Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto? A extrema direita, é claro, com “o propósito de aterrorizar, amedrontar e coibir o inconteste foco de resistência ao regime militar, por parte da Igreja Católica de Pernambuco, sob a liderança do Arcebispo de Olinda e Recife Dom Hélder Câmara. Essa é a conclusão do Comitê Estadual da Memória e da Verdade, que durante anos consultou treze fontes documentais e realizou entrevistas com dezenas de pessoas envolvidas nas investigações.

O assassinato do padre Henrique continua sendo um caso em aberto, assim como o assassinato de JK. Quem ordenou as suas mortes?

Recife Pernambuco Polícia Civil

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