Depois da fraude, a operação abafa

Ricardo Leitão | Publicado em 04/03/2026, às 10h54 - Atualizado às 11h02

Previdência de Estados e municípios compraram titulos do banco e podem perder patrimônio - Rovena Rosa/Agência Brasil
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Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com

Os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do Senado, David Alcolumbre, fizeram chegar a aliados a informação de que não vão instalar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a fraude no Banco Master, um rombo financeiro de R$ 60 bilhões, recorde na história do Brasil. Os motivos de Motta são regimentais: há outras CPIs já aprovadas na fila; Alcolumbre se diz favorável a investigações, mas não marcou nenhuma data para que se inicie o trabalho da comissão.

A verdade, no entanto, é outra. Trata-se de mais uma etapa da Operação Abafa, que tem por objetivo conter os danos políticos do golpe financeiro arquitetado e coordenado por Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Master. Durante três anos de articulações em Brasília, ele enredou, em sua teia de favorecimentos especiais, lideranças do Executivo, do Judiciário, do Legislativo e do setor bancário, até que ela fosse desbaratada pelo Banco Central (BC). Não há sono sereno no Planalto, enquanto avançam investigações da Polícia Federal (PF).

O Master, com sede no Rio de Janeiro, é um banco pequeno para os padrões do Brasil. Isso, porém, não impediu que uma instituição estatal – o Banco Regional de Brasília (BRB), pertencente ao Governo do Distrito Federal - tentasse comprá-lo, mesmo estando o Master à beira da insolvência e com haveres que existiam apenas em ficção. Fictícias eram também suas operações de crédito, ao emprestar dinheiro a fundos de propriedade do próprio banco ou a empresas de fachada, de seu controle indireto. A ciranda financeira camuflava uma fraude que, ao cabo, assegurava criminosos lucros financeiros a Vorcaro.

Há questões no ar: como é possível que a ruína de um banco pequeno atormente figuras das mais graduadas da República, de liderança de partidos políticos a empresários do dinheiro grosso? Não há fim para a tormenta, a não ser que a Operação Abafa seja bem sucedida?

Seguindo orientações de chefes políticos, ao menos 100 dirigentes de fundos de previdência estaduais e municipais investiram em fundos controlados pelo Master, de acordo com os dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Esses fundos aportaram recursos, de servidores aposentados e pensionistas, em imóveis e empresas pertencentes à família e parceiros do ex-banqueiro. Um patrimônio que se esvai com a liquidação do Master pelo BC.

Dois casos são emblemáticos: no Amapá, o Amaprev, fundo de previdência dos servidores estaduais, investiu R$ 400 milhões em fundos vinculados ao Master. Seu presidente, Jocildo da Silva Lemos, foi indicado para o cargo pelo senador David Alcolumbre, de cuja campanha para o senado Lemos participou como tesoureiro. O segundo caso vem do Rio de Janeiro, estado onde a diretoria do Rioprevidência, nomeada pelo governador Cláudio de Castro, desovou quase R$ 1 bilhão nas contas de Vorcaro.

Destacadas lideranças partidárias faziam ou fazem parte da teia de influência do ex-presidente e seus sócios: o senador Jacques Wagner, do PT; o ministro Rui Costa, do PT; João Roma, do PL, ex-ministro de Jair Bolsonaro; Ronaldo Bento, também ex-ministro de Bolsonaro; Ciro Nogueira, presidente nacional do PP; Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, e Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal. Nem todos foram ou são colaboradores de Vorcaro. Contudo, talvez inconscientemente, podem ter contribuído para que algumas portas fossem abertas para o ex-banqueiro.

A Operação Abafa escala mais um degrau quando há decisões anômalas de autoridades, como a do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU). Em janeiro passado ele determinou inspeção técnica no Banco Central, para apurar possíveis falhas da instituição na liquidação do Master. A medida insinuava a possibilidade de se reverter a decisão, com severas consequências no mercado financeiro. No mês passado, Jesus colocou sob sigilo o relatório elaborado pela área técnica do TCU, após nova inspeção no BC. Nem a autoridade monetária, nem integrantes do tribunal podem acessar o documento – que, segundo consta, não detectou nenhuma falha na atuação do Banco Central no caso Master.

O Supremo Tribunal Federal (STF), por sua vez, foi também enredado, desde que o ministro José Antônio Dias Toffoli assumiu a relatoria do caso Master. O ministro impôs grau máximo de sigilo às investigações sobre a fraude; centralizou em seu gabinete os dados enviados pela Polícia Federal; tentou interferir em acareações e terminou sendo aconselhado, pelos demais ministros, a renunciar à relatoria.

Diante deles um escândalo colateral: relatório de 200 páginas da Polícia Federal comprovou que empresa da família Toffoli – da qual o ministro fora sócio – realizou negócios imobiliários com fundo controlado por Daniel Vorcaro. Ainda assim, Toffoli não se declarou suspeito e, depois de renunciar à relatoria, continua atuando em questões do Master no STF.

Daniel Vorcaro, por enquanto, se guarda em valioso silêncio. O serpentário de Brasília divulgou a narrativa de que o ex-presidente tem um trunfo poderoso. Seria um arquivo de fotos e vídeos de altas autoridades, despidas de protocolos, em festas que Vorcaro promovia em sua mansão, na praia de Trancoso, na Bahia. Nessas festas, era proibido aos convidados e acompanhantes entrar com celulares ou qualquer outro equipamento que gravasse imagens. Para o ex-presidente do Master seria precioso arquivo, a ser sacado em emergências.

Em meio a riscos e tensões, a Operação Abafa tenta impedir que o escândalo alcance proporções calamitosas. Os que nela mais se empenham reforçam agora seus argumentos com um apelo de interesse geral: como não sobreviveria ninguém no caos multifacetado e multipartidário, melhor ir toureando o problema e só o relembrar depois do carnaval de 2017. Afinal, as eleições já estão nas ruas e quem vai querer debater o caso de um banquinho falido? Falta apenas combinar com a Polícia Federal.

Banco Central Fraude Banco master

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Artigo: Tenebrosíssimas transações - por Ricardo Leitão