Comunidades de apoiadores transformam políticos em referências de identidade e utilizam memes, vídeos e campanhas digitais para influenciar debate
por Jamildo Melo
Publicado em 15/10/2026, às 16h10
Os fandoms políticos reproduzem nas eleições comportamentos associados às comunidades de fãs de artistas e celebridades
Nas redes sociais, apoiadores de Lula e Bolsonaro disputam narrativas, produzem conteúdos e mobilizam eleitores
O fenômeno ajuda a explicar a importância do engajamento digital na eleição presidencial de 2026, mas não significa que popularidade nas plataformas se transforme automaticamente em votos
A disputa presidencial de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ocorre em um ambiente no qual as redes sociais deixaram de funcionar apenas como canais de divulgação de propostas.
Elas também abrigam comunidades organizadas de apoiadores que defendem candidatos, produzem conteúdos e disputam a atenção dos eleitores.
Esses grupos apresentam características dos chamados fandoms políticos, expressão utilizada para descrever comunidades de fãs que desenvolvem vínculos de identificação com lideranças políticas e participam ativamente da divulgação de suas mensagens.
O termo vem da cultura do entretenimento, onde comunidades de admiradores de artistas, bandas, filmes e séries se organizam para compartilhar informações, defender seus ídolos e promover lançamentos.
Na política, a dinâmica apresenta semelhanças, embora envolva consequências diferentes.
Em vez de promover um álbum ou uma celebridade, os participantes ajudam a ampliar a visibilidade de candidatos, responder a adversários e influenciar a discussão pública.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil nem de uma corrente ideológica.
Mas ganhou relevância em um cenário de campanhas eleitorais marcadas pela circulação de vídeos curtos, memes, influenciadores e mensagens distribuídas em diferentes plataformas.
Uma das principais características dessas comunidades é a participação dos próprios apoiadores na produção e distribuição de conteúdos.
Ao contrário da propaganda eleitoral tradicional, na qual a campanha controla boa parte das mensagens, os fandoms funcionam de maneira mais descentralizada.
Um discurso pode ser transformado em dezenas de vídeos curtos.
Uma frase pode virar meme.
Uma entrevista pode gerar cortes que circulam separadamente do conteúdo original.
Essas publicações são compartilhadas por perfis pessoais, páginas de apoio, influenciadores e grupos de mensagens.
O resultado é uma rede de distribuição que pode alcançar pessoas que não acompanham diretamente os canais oficiais dos candidatos.
Isso não significa, necessariamente, que exista uma coordenação centralizada.
Parte dessas atividades pode surgir espontaneamente, enquanto outras ações podem estar vinculadas a estratégias organizadas de comunicação política.
A distinção é importante: engajamento espontâneo, militância partidária, publicidade eleitoral e campanhas coordenadas não são a mesma coisa.
No Brasil, o bolsonarismo e o lulismo apresentam exemplos de mobilização digital baseada na identificação dos apoiadores com lideranças políticas.
O bolsonarismo construiu uma presença relevante nas plataformas digitais, com participação de influenciadores, parlamentares, páginas de apoio e comunidades que reproduzem discursos e posicionamentos associados a Jair Bolsonaro.
Na eleição de 2026, parte dessa rede passou a atuar na promoção da candidatura de Flávio Bolsonaro, que disputa o segundo turno presidencial.
No campo de Lula, a mobilização reúne perfis de militantes, movimentos sociais, influenciadores, artistas e apoiadores que divulgam mensagens relacionadas ao presidente e respondem às críticas de adversários.
Os dois campos utilizam estratégias de comunicação digital, mas não necessariamente apresentam a mesma organização, linguagem ou capacidade de mobilização em cada plataforma.
Além disso, nem todo eleitor de Lula ou de Flávio Bolsonaro participa de um fandom.
Muitos apoiadores acompanham a política sem produzir conteúdo, participar de grupos ou defender publicamente seus candidatos.

Um levantamento da consultoria Bites, dirigido por Manoel Fernandes, oferece um exemplo da diferença entre crescimento de seguidores e intensidade de interação.
Nos sete dias posteriores ao primeiro turno das eleições de 2026, Lula conquistou aproximadamente 1,2 milhão de novos seguidores em seus perfis oficiais no X, Instagram, Facebook, YouTube e TikTok.
No mesmo período, suas publicações acumularam 33,4 milhões de interações.
Flávio Bolsonaro registrou crescimento maior de seguidores, com aproximadamente 1,7 milhão de novos perfis acompanhando suas contas, mas acumulou um volume menor de interações: 12,2 milhões.
O levantamento também apontou uma diferença na média de interações por publicação.
Flávio Bolsonaro registrou aproximadamente 261 mil interações por postagem, contra 160 mil de Lula.
Os números mostram que diferentes indicadores podem produzir leituras distintas sobre o desempenho digital dos candidatos.
Lula acumulou mais interações no período, enquanto Flávio Bolsonaro apresentou maior crescimento de seguidores e média superior de interações por publicação.
Nenhum desses indicadores, isoladamente, permite concluir qual candidato conquistou mais eleitores.
Interações incluem comportamentos variados, como curtidas, comentários e compartilhamentos.
Uma publicação pode receber grande volume de comentários críticos, por exemplo, sem que isso represente apoio ao seu autor.
Também não é possível identificar, apenas com esses dados, quantas interações foram produzidas por comunidades organizadas de fãs.
Para as campanhas eleitorais, uma comunidade ativa pode representar uma vantagem de comunicação.
Apoiadores engajados ajudam a manter determinados assuntos em circulação, participam de debates e podem ampliar a repercussão de discursos e entrevistas.
Essa participação também permite que uma mensagem seja adaptada a diferentes públicos.
Um mesmo pronunciamento pode gerar um vídeo para o TikTok, uma publicação no Instagram, um comentário no X e mensagens compartilhadas pelo WhatsApp.
A comunicação passa a depender não apenas do alcance das contas oficiais, mas também da disposição dos simpatizantes para distribuir o conteúdo.
O desafio para os candidatos é ultrapassar as comunidades de apoiadores já convencidos.
Uma publicação pode alcançar milhões de visualizações e, ainda assim, circular predominantemente entre pessoas que já concordam com seu conteúdo.
Por isso, o tamanho de um fandom não deve ser confundido com a capacidade de conquistar votos entre indecisos.
Um exemplo recente dessa dinâmica está nos canais de mobilização eleitoral no WhatsApp.
O canal "Exército do Lula", criado pelo deputado André Janones (Rede-MG), ultrapassou quatro milhões de seguidores e tornou-se objeto de decisões da Justiça Eleitoral sobre seu funcionamento e registro como instrumento de propaganda.
O debate jurídico também alcançou o canal "Tropa do Flávio", associado à mobilização de apoiadores do candidato do PL.
Nesta semana, o Tribunal Superior Eleitoral examinou controvérsias envolvendo essas estruturas de comunicação.
A discussão incluiu as condições de funcionamento dos canais, a responsabilidade pelos conteúdos e o cumprimento das regras eleitorais.
O episódio demonstra como comunidades digitais passaram a integrar a estrutura de mobilização das campanhas.
Mas também evidencia que essas atividades estão sujeitas à legislação eleitoral.
A identificação intensa com uma liderança pode estimular participação política, mas também apresentar riscos para a qualidade do debate público.
Quando o vínculo com um candidato passa a ser tratado como parte da identidade pessoal, críticas ao político podem ser interpretadas por alguns apoiadores como ataques ao próprio grupo.
Nesse ambiente, conteúdos que provocam indignação, medo ou entusiasmo podem receber mais atenção do que discussões sobre propostas de governo.
Há ainda o risco de circulação de informações falsas ou retiradas de contexto.
Isso não significa que todos os integrantes de comunidades políticas compartilhem desinformação ou rejeitem opiniões divergentes.
A participação em grupos de apoio é uma forma legítima de manifestação política.
O problema surge quando a defesa de uma liderança passa a justificar ataques pessoais, assédio, manipulação de informações ou tentativas de impedir o debate com posições contrárias.
O crescimento da comunicação eleitoral nas plataformas levou o Tribunal Superior Eleitoral a atualizar as regras sobre propaganda digital em 2026.
Entre as medidas estão exigências de identificação de conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados por inteligência artificial, restrições a determinadas formas de propaganda e mecanismos de combate à desinformação.
As normas também proíbem a divulgação de novos conteúdos sintéticos envolvendo candidatos ou pessoas públicas no período de 72 horas anteriores até 24 horas depois do pleito, nas situações previstas pela regulamentação.
Essas regras não proíbem a existência de comunidades de apoiadores nem a manifestação espontânea de preferências políticas.
O objetivo é estabelecer limites para práticas que possam comprometer a transparência da propaganda e a integridade da disputa eleitoral.
Embora os fandoms tenham adquirido importância na comunicação política, não há evidência de que o desempenho nas plataformas digitais seja suficiente para determinar o resultado de uma eleição presidencial.
As pesquisas de intenção de voto, os resultados eleitorais e os levantamentos de comportamento digital medem fenômenos diferentes.
Uma pessoa pode acompanhar um candidato por curiosidade, discordância ou interesse jornalístico.
Da mesma forma, um eleitor pode votar em determinado político sem seguir nenhuma de suas contas.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro também envolve fatores como economia, avaliação dos governos, alianças partidárias, rejeição aos candidatos e diferenças regionais no comportamento do eleitorado.
No primeiro turno de 2026, por exemplo, Lula obteve aproximadamente 21,49 milhões de votos no Nordeste, contra 10,40 milhões de Flávio Bolsonaro.
Já no Sudeste, Flávio recebeu cerca de 24,90 milhões, diante de 19,24 milhões de Lula.
Os números mostram que a disputa eleitoral apresenta diferenças territoriais que não podem ser explicadas apenas pelo engajamento nas redes.
A principal mudança trazida pelos fandoms políticos está na forma como as campanhas disputam a atenção e mobilizam seus apoiadores.
Em vez de depender exclusivamente de partidos, comícios e propaganda oficial, os candidatos contam com comunidades capazes de produzir e distribuir mensagens diariamente.
A questão para o segundo turno de 2026 é saber até que ponto essa mobilização conseguirá alcançar eleitores fora das próprias comunidades digitais.
A resposta dependerá das urnas, não apenas das métricas de engajamento.