Governo chama CBF e clubes para discutir impacto do fim das bets no futebol

Quatro dias após Lula levantar cartaz com fim das bets no Recife, ministros vão ouvir CBF e clubes sobre perdas de patrocínios e efeitos da proibição

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 28/09/2026, às 08h21 - Atualizado às 08h30

Reunião marcada para terça deve medir peso das casas de apostas nas receitas dos times; linhas de crédito estão entre as alternativas em discussão
Reunião marcada para terça deve medir peso das casas de apostas nas receitas dos times; linhas de crédito estão entre as alternativas em discussão - Otávio Gaudêncio/Jamildo.com

Ministros do governo Lula devem se reunir na terça-feira (29) com representantes da CBF e de clubes para avaliar os impactos financeiros do fim das bets

O encontro ocorre quatro dias depois de Lula defender a proibição durante ato político ao lado de João Campos no Recife

A perda de patrocínios e possíveis alternativas de financiamento para os clubes estarão no centro das discussões

O governo federal marcou para a terça-feira (29) uma reunião com representantes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e de clubes para discutir os efeitos do fim das bets sobre as finanças do futebol brasileiro.

Devem participar do encontro os ministros Dario Durigan, da Fazenda, Bruno Moretti, do Planejamento, e Paulo Henrique, do Esporte.

A reunião acontece apenas quatro dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformar o combate às apostas online em uma das bandeiras de sua passagem pelo Recife, na sexta-feira (25).

Durante caminhada no Recife Antigo ao lado do candidato ao Governo de Pernambuco João Campos (PSB), Lula escreveu e levantou um cartaz com a frase “fim das bets”.

Na ocasião, o presidente também afirmou que pretendia acabar com as plataformas e relacionou as apostas ao endividamento das famílias.

Ainda na sexta-feira, já em São Paulo, Lula assinou a Medida Provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no país.

A medida atinge apostas esportivas e jogos online e estabeleceu um cronograma para a retirada das plataformas do mercado brasileiro. As empresas têm até 5 de outubro para retirar publicidade e patrocínios, enquanto sites e aplicativos deverão sair do ar a partir de 6 de outubro.

A MP tem força de lei desde a publicação, mas precisará ser analisada pelo Congresso Nacional para permanecer em vigor.

Futebol entra na discussão após decisão de Lula

A consequência mais imediata para o futebol está nos contratos de patrocínio.

As empresas de apostas se tornaram, nos últimos anos, uma das principais fontes de recursos comerciais dos clubes brasileiros. Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, 14 dos 20 clubes da Série A têm patrocínio de empresas do setor.

Por isso, o governo quer dimensionar quanto os times efetivamente perderão com a saída das bets antes de decidir se haverá alguma medida específica para o futebol.

Após o anúncio da MP, Dario Durigan afirmou que, por determinação de Lula, o governo chamaria clubes e entidades esportivas para conhecer o “real impacto” da proibição.

Segundo o ministro, não havia naquele momento decisão sobre um eventual socorro financeiro aos clubes. A posição da Fazenda é primeiro levantar o tamanho das perdas para depois avaliar possíveis medidas.

Entre as alternativas em discussão estão linhas de crédito destinadas aos passivos dos clubes e mecanismos de financiamento futuro.

As conversas sobre crédito, porém, começaram antes mesmo da edição da MP. Clubes das Séries A e B já negociavam com o governo uma possível linha de financiamento, com participação da CBF nas articulações.

De Recife para a agenda do governo

A reunião de terça-feira acrescenta um novo capítulo a um tema que ganhou peso político durante a passagem de Lula por Pernambuco.

No Recife, o presidente foi além de defender restrições às apostas. Ao falar sobre os efeitos da medida para o futebol, Lula afirmou que os clubes teriam de buscar outras formas de financiamento sem depender das casas de apostas.

A declaração ocorreu justamente em Pernambuco, onde as bets entraram no centro da disputa eleitoral estadual.

Como mostrou o Jamildo.com, a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) passou a utilizar manifestações de Lula contra as apostas para criticar João Campos pela redução, durante sua gestão na Prefeitura do Recife, da alíquota do ISS cobrada de serviços ligados a loterias e apostas.

João, por sua vez, afirma ser contrário às apostas, mas sustenta que a cobrança municipal do imposto representa tributação de uma atividade que havia sido regulamentada em âmbito federal.

Agora, a discussão passa do embate eleitoral para um problema econômico concreto: como o futebol brasileiro vai absorver a retirada de uma de suas principais fontes recentes de patrocínio.

A reunião de terça-feira deverá ser o primeiro movimento do governo para medir esse impacto e avaliar se haverá medidas para facilitar a transição financeira dos clubes.